sábado, 21 de maio de 2016

PAPEL E CANETA, POR FAVOR





Quem ameaça a nós, somos nós...
Não somos loucos
Não flertamos com o abismo gratuitamente
Se o olhamos, é porque o abismo nos olhou primeiro
Pensamos que os vivos carregam arrependimentos,
E quantos arrependimentos os mortos levam?
Entre o além e a realidade, proferem suas culpas, chorando
As paredes, atravessadas por fantasmas,
escondem confissões inteiras,
sussurradas em madrugadas frias, insones, solitárias
E como o abismo,
a lâmina do punhal brilhando sobre a mesa,
flerta...
Não precisa desaferrolhar as portas,
Nem entreabrir as janelas
Chegarei como um pensamento, vinda de dentro,
Sutil e silenciosa
Como a aragem pelas frestas
Serei o som de uma folha de papel,
(escrita por mim), caindo da mesa
Como um perfume no repente da madrugada
Como uma lembrança forte e fogosa,
Papel e caneta,  por favor...

Vera Celms
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VIOLÁCEO TOM





Naquela noite, olhara pra ele como nunca antes
Olhava suas pálpebras, boca, pele,
Seus cabelos, movidos casualmente pelo vento,
Seu sorriso nunca mais, seu olhar nunca mais
Nunca mais uma palavra, um sussurro, ou bronca
A paz agora tinha um tom violáceo, soturno,
e uma temperatura glacial
Uma tênue sinfonia muda
Um gosto amargo, impossível de engolir
O peso de uma eternidade
E a porta entreaberta para a fuga
Não sentia nenhuma culpa,
Nem medo,
Talvez fosse imaginação
Mas, ele estava ali, em pé diante de mim
Como quem quisesse discutir a relação,
ou se despedir derradeiramente
ou , impor sua imagem a minha saudade (como se precisasse).
A saudade agora teria pra sempre seu rosto, seu abraço,
Fosse o que fosse aquela presença diante de mim,
Fechei os olhos,
Ao reabri-los,
Era meu pai que eu velara noite a fora...

Vera Celms
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terça-feira, 3 de maio de 2016

DANÇA NO ESCURO





Enquanto teu corpo ainda é quente
Me deixa, respeitosamente, ver tua nudez
Corpo amado da mulher amada
Dançando no escuro, sob chuva acida,
Inerte dança da morte
Sonhando;  umbral ou paraíso
Entre nuvens de chumbo
Não há mais olhos, nem voz, nem sombras,
Não há mais violência, nem sofreguidão,
Agora, sobre o corpo inerte, meu olhar,
E uma canção ressoa triste e lamuriosa...
Sem luz

Vera Celms
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

AMARELA TULIPA





Dias sem descanso
Noites sem dormir
O ódio é lâmina antevertida
Cômodo redondo que reverbera, ecoa, enlouquece
Uma quarta-feira qualquer será a ultima
Quem sabe domingo
Ora se faz a hora, ora se faz o tempo,
Ora nem acontece
Palavras são verbos afoitos, quentes, e esfolam...
Ardem a pele e destroem a alma
Ferem, sem cura
Açoitam, assombram, enlouquecem,
Não questionam, não indagam ou julgam, condenam
Caminho sem volta
Forca ou precipício
A sentença é morte...

Vera Celms
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