quinta-feira, 23 de julho de 2015

MORTOS DE AMOR





Rezaria sobre teu cadáver,
Pronunciaria seu nome sobre o corpo inerte,
Beberia teu sangue,
Protegeria teus restos mortais,
Tudo pra manter viva sua alma em mim
Faria cantigas na noite cheia,
E valsas sob a míngua noite
Dançaria sobre seu túmulo,
Me deitaria contigo, junto as chamas das velas,
Posaria como fundo de tua foto fúnebre
Só não me deixe,
Não parta,
Não sucumba, nem a magia, nem macumba,
Leva-me contigo,
E com o punhal cravado no peito,
uivarei a ser ouvida de um continente a outro,
Seguirei entre os planetas,
Me enroscarei nos anéis de Saturno,
E farei lençóis para ti, de minha mortalha,
Me basta ser pra sempre tua amada,
Desde que morramos só de amor...

Vera Celms
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quarta-feira, 15 de julho de 2015

SOBREVIVENTE?





Fez um quadro muito feio,
Fundo preto, e pintou de vermelho,
Parecia sangue escorrendo,
Pendurou na parede do quarto,
Colocou luz fraca indireta,
Como num troféu...
A única luz que existia no quarto,
É como se abrisse a janela,
De noite,
No meio do temporal,
E a única luz fosse do raio,
Clareando mal e mal
Passava horas olhando,
Talvez esperasse nele se perder
Retratara o Holocausto,
E o sangue vertia, em neon
Sentia o cheiro de morte,
E via os tantos horrores
Lembrava de uns poucos amigos
Do seu pai e sua mãe, separado tão cedo,
Foram poucos os que escaparam,
Talvez fosse melhor ter morrido
A lembrar pra vida inteira,
Como a vida é longa pra quem sofre!
Pensava; talvez fosse castigo,
Talvez fosse missão,
Quem sabe loucura...
Viu tanta gente partindo
Assistiu tanta destruição
Vidas jogadas fora
Abandonadas
Crianças morrendo, chorando fome
Anciãos definhados, morrendo ao relento
E as filas da câmara de gás,
- TODOS PARA DESINFECÇÃO!!!
Nus, gelados,
Cobrindo seus pudores com as mãos,
E de lá ninguém voltava,
A não ser na chuva de cinzas
Que se espalhava por todo lado,
Como lembranças, como saudades
E ali estava ele, o pobre artista insano,
Retratando suas memórias
Negras, úmidas, fétidas,
Cheias de gritos de horror,
Só que agora sem arames farpados,
Sem cercas eletrificadas
Olhadas pelo lado de fora,
Separado pela distância do tempo,
Que na verdade nunca passou,
Que nunca apagou,
Ouvia o desespero das vozes gritando,
Em uníssono na madrugada insone,
Talvez se sentisse culpado por viver
Mas, nunca foi menos prisioneiro
Só que, da vida...

Vera Celms
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