segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ACUADO





Tinha um quê de doçura,
Ainda que parecesse uma fera acuada,
Medroso, defendia-se fitando-me,
Tremia, arfava,
Tinha um cheiro amargo,
Agressividade no gesto
Não andava, saltava,
Sempre pronto ao ataque,
A pele escurecida das ruas, da fuligem,
Igualmente as roupas, tão sujas,
Tão poucas, tão ralas,
Além de uma marca de nascença,
Bem lá no fundo,
Alguém que muito amei, há vinte anos atrás...
Perdido, ou encontrado,
Em vestes rueiras... em gestos torpes,
Acuado, qual fera, pronto pra atacar mais uma vez,
Ou disposto a ser atacado, derradeiramente...

Vera Celms
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

BAILARINA ENFADONHA





Bailava linda e bela,
Fazendo farfalhar as secas folhas,
por sob seus pés, em ponta...
Fazia da relva, dos bancos, espectadores,
Inertes, assistindo a tudo,
Pulava, rodava, rodopiava,
Saltava no ar,
Parados olhos, de quem vê muito além do horizonte,
Ou de quem vive muito aquém da realidade
Doce bailarina,
como se ouvisse musica,
como se fosse a única,
como se fosse real, ou feliz...
Congelado olhar,
Clássicos movimentos,
Gestos estudados,
Emoções roubadas,
Doce bailarina, que baila só,
Criando passos,
Causando dó...
Quem de nós não choraria,
Vendo a bailarina tombar
ou se voasse além orbita,
ou se não pudesse mais bailar...
Enquanto ela baila, sonha,
Louca, tão doce, baila enfadonha,
Será que imagina?
Inventa, ou faz de conta?
Continua bailando de ponta...
Gira, vira e rodopia,
Até talvez despertar...

Vera Celms
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