sábado, 28 de junho de 2014

DO ALTO DO PRÉDIO





Olho o céu enegrecido,
Do alto do prédio mais alto,
Quem aqui me visse,
pensaria ser eu um suicida,
Jamais imaginariam asas
Meu pensamento veloz,
Minha criatividade tão fértil,
Jamais imaginariam  muito além,
do que os olhos veem ...
Passado remoto, marcado e amarrado,
Amordaçado,
Assinado a lágrimas e sangue,
Avalizado castigo,
Gerações de histórias tão comuns,
Sofrimento atroz; pedido, escolhido,
Perdão implorado,
Dores, caminhos estreitos, árduos,
Espinhos, lama, fumaça, escuridão,
Insuportáveis mazelas,
Tontos pássaros negros cortando a noite,
em rasantes voos desesperados,
E o som de motores invisíveis,
Faziam gelar o mais valente coração,
Quem de nós não ataca por defesa?
Quem de nós não mata, pra não morrer?
Vigio a noite do alto,
Vejo as nuvens enegrecidas,
formarem-se em rolos opressores...
Medo, fúria, vingança,
Correm livres pela terra,
Aqui do alto, tudo é impalpável,
incalculável, irrevogável, irretocável...
Aqui do alto, eu mando no mundo...

Vera Celms
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domingo, 22 de junho de 2014

AINDA AQUI





Acordei,
Novamente,
Abri os olhos e me acho no mesmo lugar,
Podia ter transcendido durante o sono
Podia ter viajado,
Talvez acordasse no umbral,
Talvez, dentre seres de luz,
Mas, me acho aqui novamente,
Sem ar,
Sem vontade,
Sem graça,
Lutando pra me mover,
Relutando pra respirar
O humor denuncia,
a pouca vontade de estar aqui...
Novo dia,
Velha luta...
Fecho os olhos de novo,
Ainda na esperança de me ver fora do corpo,
Mas, não acontece,
Hora de levantar,
Sem vontade,
Sem motivo,
Sem ter porquê...
Sem eira nem beira,
Sem sucesso de novo,
Vou à vida...

Vera Celms
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domingo, 15 de junho de 2014

TUDO MORA NO MEDO





Frio, densa neblina,
Temerosa noite,
Dia 13, sexta-feira,
Uma história, uma cisma,
Enegrecido prisma,
Maldade no ar,
Medo, muito medo,
Não devia andar sozinha,
Não queria sentir medo,
Maldição, casa vazia,
Todo ruído é pânico,
Toda sombra é assombração,
Sob a escada, negro felino,
Espio pelas janelas,
Do mundo, as mazelas,
Tanta dor, tanta tristeza,
Máculas indisfarçáveis, inapagáveis,
Nada que possa tirar de nós,
O pútrido cheiro do horror,
Pressinto o próximo movimento,
Procuro esconder o rosto,
O silencio precede o momento final,
Tudo se cala, diante do perigo,
Ou somos nós que deixamos de ouvir,
De perceber o que se move,
Bem diante de nós,
Procuramos imagens,
Algo que defina o risco
Que previna a proximidade do abismo,
Tudo mora no medo,
Até a fé...

Vera Celms
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domingo, 8 de junho de 2014

SERES DA NOITE ALTA





Há tempos não chorava,
Não olhava o abismo tão de perto,
Não sentia o corpo em queda livre
Não tenho mais na lembrança a extensão do seu sorriso
Nem do seu pranto,
Não lembrava mais da envergadura de suas asas,
a planar na noite escura
Ouço-o  as vezes, perdida em sonhos, a crocitar,
Não sei mais da amplidão do seu céu,
Nem da profundeza do teu denso, profundo, escuro mar,
Pulsamos em semitons, descompassados,
Vibramos em desarmonia,
Procuramo-nos em lugares estranhos,
Em sombrias alamedas,
Em profunda escuridão,
Sonhamos com sol a pino
Despertamos na boca da noite,
A tempestade nos convida,
O perigo nos seduz,
No meio da noite, clamamos solidão,
Seres da noite alta,
Silencio sepulcral
Abissal refúgio,
Nada brilha, nem reluz,
Dessintonia, descompasso,
Opacidade projetada na terra,
Revolta, recém cavada,
Negra terra morta, a nos cobrir e guiar,
Guarda de nós, além da força,
Toda imagem e fé...
Sepulta-nos, permita-nos voar...

Vera Celms
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domingo, 1 de junho de 2014

FUNDO MUSICAL





Sempre a mesma musica,

Fones de ouvido,

Cantarolar,

Ritmo cadenciado,

Marcado por um “batucar”

Na perna da calça,

Em qualquer lugar,

Dentro do coletivo

Na rua, ensaiando passos, a andar,

Sempre a mesma musica,

No seu ouvido a tocar,

Nunca compartilhar,

Um dia, muito invocado,

Com pedras imaginarias a chutar,

Alguém lhe olhou torto,

Com ares de criticar,

Soltou então os fones de ouvido,

E só por provocação,

Deixou alto, a musica a tocar,

O outro irado e malvado,

Não gostando do mesmo som,

Não obedecido, mandou a musica desligar,

Destro e ligeiro sacou da cintura uma faca,

E em golpe certeiro,

Fez-lhe o sangue derramar,

Tonto titubeou,

Caindo, girou no próprio eixo,

Preso a um só fio prateado,

Fez sua vida pagar o seixo,

E ali ficou, inerte,

Sem imaginar,

Que aquela, de sempre, a mesma musica,

Foi por ele escolhida,

Fundo musical do seu suspiro final...



Vera Celms
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