domingo, 30 de março de 2014

DESENCARCERADO





De repente estava lá,
Na minha cama,
descansando pensamentos cansados, neuróticos,
O desencarcerado culpado,
Não sabia qual era sua culpa,
Sabia que trazia um dragão adormecido, na borda da íris
A vermelhidão de seus olhos,
acusava a elevada temperatura
Não havia denúncia aquém do gesto,
Trazia nos modos, a ansiedade, a revolta do cárcere,
A inconformidade dos anos tomados a força...
O erro era algo a esquecer,
Mas, não esquecia,
A ausência, a distância, o esquecimento,
Anos passados, o dragão espiava curioso
Ansioso, queria sair,
escalar o perigo, afrontar o assombro,
Tinha fome de desejo,
Tinha sede de liberdade,
Medo nenhum...
Enfrentaria a tudo e a todos,
Coragem vazava na transpiração,
Crescia, avolumava...
Não aceitava cabresto, já pagara preso...
Mas cedeu a um afago na alma ...
E sorriu, só sorriu...
Levantou-se, saiu andando e foi viver...

Vera Celms
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segunda-feira, 24 de março de 2014

TEMEROSA NOITE





Chegou a noite,
Garoa fina e gelada,
Com a escuridão fria,
na minha cidade, ninguém sai a rua
Silencio absurdo,
Na noite, todo gato é pardo
E todo ruído é estrondo
O rangido da tábua da escada,
da tábua do corredor,
A porta entreaberta, parece escancarar-se sozinha
A casa escura é um sussurro insistente,
quase inaudível,
Que incomoda...
A sombra que a retina cria,
E o medo que o espírito vela
A atenção não se divide,
Nem se dissipa,
Tentar dormir é impossível,
Todos os sons já frequentam o quarto escuro
E o clarão de relâmpagos, forma mais imagens,
Todas assustadoras, imensas...
O cobertor já colado em torno de todo o corpo
A cabeça coberta, de nada mais adianta,
O medo é real e flagrante,
Pela força do vento, a porta bate...
Inevitável susto,
O quarto já parece povoado de seres invisíveis
A me espiar, vigiar,
Insuportável vulnerabilidade
A mercê de toda imaginação, imagino-me sumir,
Como um líquido, a escorrer sob as cobertas,
Impossível me esconder,
Impossível não temer
Nesse momento, meu quarto já é outra dimensão,
Onde todos os seres se odeiam,
Sem motivo algum...

Vera Celms
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domingo, 16 de março de 2014

INDÔMITA FERA





A fera lhe escapa pelos olhos
O sorriso, mesmo estendido na boca
Não adoça, não disfarça,
Gole féleo que não desce
Preso a garganta, a fera expulsa,
E o sangue, verte pelo canal lacrimal
Impossível ocultar,
Relevar, nem pensar
Fere, dói, esfola,
E o ódio faz escola,
Inquieta o corpo,
Envenena a alma,
Rege mais uma lúgubre sinfonia,
fazendo tremer, o já denso ar,
e toda fresta, uivar...
Acidas, palavras lançam-se enlouquecidas,
Derrubando imantados ouvintes,
A fera, lhe escapa pelos olhos,
Rodopiando o laço, batendo as esporas...

Vera Celms
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domingo, 9 de março de 2014

COVARDE ANÔNIMO





Frestas, portas entreabertas,
Sombras sinistramente escondidas,
Sumindo ligeiro, atrás de postes, arvores,
Observações vazias,
Acusações levianas,
Intenções difamatórias,
Comentários dispensáveis,
Pessoas deletáveis,
Quem não tem coragem,
ou competência,
copia, espreita, espia...
Desfaz de quem faz...
Quem sabe joga, quem não sabe, vaia...
Tão fácil, rir-se em deboche,
Difícil é saber porquê...
Tão fácil julgar inútil,
Difícil é saber fazer
Se ninguém te chamou aqui,
Se está aqui por procurar,
Saiba que não precisa de convite pra se retirar,
A porta de saída, é a mesma pela qual entrou...
Se resolveu ficar, não se manifeste,
Em silêncio, é mais difícil errar...
E talvez assim, consiga não demonstrar,
SUA IGNORÂNCIA... (já que precisa manter-se anônimo...)

Vera Celms
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