domingo, 2 de fevereiro de 2014

JOÃO SÓ






Haviam marcas dele, por todos os lados
Um homem simples,
Que usava terno e gravata,
Sapatos e meias, só marrons, como os ternos,
Óculos, de aros grossos, somente pretos
Camisas claras, bem engomadas
Cabelos curtos, contidos a gel,
Perfumes, amadeirados
Mulheres, loiras, e lindas,
Amigos, muito poucos, fiéis,
Vinho, tinto
Cachaça, amarela,
Cervejas, de uma só marca,
Flores, só rosas,
Visitas, só derradeiras,
Manhãs, só na volta pra casa,
Boêmio, romântico, sozinho,
Presentes, só acompanhados de poemas,
De sua autoria,
De sua verve,
Palavras escolhidas,
Guardadas todas,
Projetos, só de vida,
Um homem só, muito só,
Nasceu só,
Viveu só,
Fez-se só,
Partiu só,
De terno e gravata,
Gel no cabelo curto,
Sobre papel, com a caneta na mão,
Texto inacabado,
Soava a despedida,
Mas, era seu derradeiro poema de amor...
No apartamento semi vazio,
No vigésimo andar de um velho prédio,
De mobília, uma cama desfeita,
Uma mesa coberta de livros e papeis,
Um fogão de duas bocas, e frigobar,
Um copo, um garfo, uma faca e um prato,
Na cozinha, dois panos,
Um de chão, uma vassoura e um rodo,
Vários ternos marrons,
Algumas meias marrons e dois marrons pares de sapato,
Meia dúzia de gravatas,
Dois pares de óculos, de aros grossos pretos,
um de sol
Não deixou família,
Não deixou bens, nem recados,
Os amigos, visitaram-no derradeiramente, todos,
Sepultado em campa própria, comprada a prestação,
Na sua lápide: JOÃO, SÓ...

Vera Celms
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JOÃO SÓ de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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