domingo, 23 de fevereiro de 2014

ENCAIXOTADA






Abraçada a lembranças
Flagrei o branco do vestido
Saltando da caixa
Ofuscando-me o olhar,
que embaçado, já ignorava o cenário
Achei que as lembranças
embotavam-me os olhos
Enquanto as lágrimas, enfileiradas,
Ameaçavam lançar-se
Dramáticas, derradeiras,
Já foram todas choradas,
Mas, enfileiram-se teimosas,
Manhosas, impositivas,
Inflexíveis... e rolam,
Caem, insistindo em molhar o peito,
o colo, a roupa, e o despercebido
autocontrole,
que como torrões de açúcar,
perdem a forma e a postura
desmancham-se...
A mágoa não dá sinais,
Não tem o peso da ofensa,
Nem o romantismo da saudade,
Mas fere, dói, sangra,
Todos os dias...
Ocupa o peito e a razão,
Embota o juízo e a visão,
Quer ferir, não por vingança,
Auto-flagela-se por herança,
Mais dez anos, encaixotada...

Vera Celms
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domingo, 9 de fevereiro de 2014

DEIXA DOER





Sangue que escorre,
Vivo, como tardias lembranças
Na carne quente,
A fria tesoura cravada
Como o olhar de minha mãe,
Questionando o porquê de todas as coisas
E eu, sem aceitar, e sem questionar
Como entender que as coisas aconteçam
Despretensiosamente,
Se ainda trago tão vivo
O som da voz, gritando,
O ódio no olhar,
O tremor nas mãos incertas,
A desproteção, diante do exequível,
Tormento incontestável,
De repente, o sangue escorre,
Alheio a tanta história,
Fazendo (re)lembrar, o que nunca consegui esquecer,
Bastam, duas gotas de sangue,
A roupa clara, não oculta,
A alva tez lateja,
A ferida aberta, durante toda a vida,
Teme toda mão,
Ardendo e queimando,
Recusando a cura,
Deixando doer....

Vera Celms
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

JOÃO SÓ






Haviam marcas dele, por todos os lados
Um homem simples,
Que usava terno e gravata,
Sapatos e meias, só marrons, como os ternos,
Óculos, de aros grossos, somente pretos
Camisas claras, bem engomadas
Cabelos curtos, contidos a gel,
Perfumes, amadeirados
Mulheres, loiras, e lindas,
Amigos, muito poucos, fiéis,
Vinho, tinto
Cachaça, amarela,
Cervejas, de uma só marca,
Flores, só rosas,
Visitas, só derradeiras,
Manhãs, só na volta pra casa,
Boêmio, romântico, sozinho,
Presentes, só acompanhados de poemas,
De sua autoria,
De sua verve,
Palavras escolhidas,
Guardadas todas,
Projetos, só de vida,
Um homem só, muito só,
Nasceu só,
Viveu só,
Fez-se só,
Partiu só,
De terno e gravata,
Gel no cabelo curto,
Sobre papel, com a caneta na mão,
Texto inacabado,
Soava a despedida,
Mas, era seu derradeiro poema de amor...
No apartamento semi vazio,
No vigésimo andar de um velho prédio,
De mobília, uma cama desfeita,
Uma mesa coberta de livros e papeis,
Um fogão de duas bocas, e frigobar,
Um copo, um garfo, uma faca e um prato,
Na cozinha, dois panos,
Um de chão, uma vassoura e um rodo,
Vários ternos marrons,
Algumas meias marrons e dois marrons pares de sapato,
Meia dúzia de gravatas,
Dois pares de óculos, de aros grossos pretos,
um de sol
Não deixou família,
Não deixou bens, nem recados,
Os amigos, visitaram-no derradeiramente, todos,
Sepultado em campa própria, comprada a prestação,
Na sua lápide: JOÃO, SÓ...

Vera Celms
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