domingo, 19 de janeiro de 2014

ANCORADO





Estava ali, no asfalto,
Sangrando, imóvel,
Olhar perdido no nada
Não sabia a extensão do prejuízo
Não sabia até onde estava comprometido
Seus movimentos não respondiam ao cérebro,
Não sentia dores... mas, também não sentia nada...
Forçava-se a mover as pernas,
Na boca, um amargor desconhecido
Uma sensação difícil de engolir
Muito mais de digerir
Após ouvir tiros, o corpo foi ao chão,
Não sabia se viveria, via sangue
Não sabia mais por onde seriam seus caminhos
Ao seu lado, uns poucos amigos, estarrecidos
Os socorristas cuidando das vítimas
Num impulso, num ato quase impensado,
Procurou uma mão que pudesse segurar
Uma âncora emocional
A mão da socorrista estava mais próxima
Segurou-a então... 
- que a retirou quase que por reflexo...
Naquele momento, deu-se o acidentado,
Com sua mais nova realidade...
Afinal, precisava agora de ajuda,
Não de compaixão,
Muito menos de dó...
Voltou ao vácuo anterior,
Abandonando-se a tristeza da desesperança,
Sozinho... imóvel,
Procurando qualquer outra mão...
sem poder se mover...

Vera Celms

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