domingo, 26 de janeiro de 2014

ESTRELAS EMBAÇADAS





Olhava para cima, perdida,
Nada via, além do céu, rajado de nuvens,
Coalhado de estrelas distantes e embaçadas,
Era uma sensação que já experimentara
Sabia bem do sabor da derrota
Não há volta
Tudo perdeu o sentido
Não há mais graça, em todas as coisas
O único desejo é partir
Esquecer a culpa, aplacar a dor,
Engolir o amargor da vida,
Como remédio; com água...
Não permitir que ninguém lembre
Não deixar que ninguém mais saiba
Ir embora, sem olhar pra trás
A solidão é nossa melhor companhia
Não sei mais rezar,
A fé, perdi aos poucos,
Dia a dia...
Foram tantos pedidos em oração,
Foram tantos deuses,
Pedi a todos os santos,
Busquei rumo em toda fé,
E hoje estou aqui, tão só,
Com o peso do mundo sobre a cabeça
Olhando para cima, perdida, rodando...
Nada, além do céu, rajado de nuvens,
Coalhado de estrelas distantes e embaçadas,
Que jamais brilharão da mesma forma...

Vera Celms
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ESTRELAS EMBAÇADAS de Vera Celms está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

domingo, 19 de janeiro de 2014

ANCORADO





Estava ali, no asfalto,
Sangrando, imóvel,
Olhar perdido no nada
Não sabia a extensão do prejuízo
Não sabia até onde estava comprometido
Seus movimentos não respondiam ao cérebro,
Não sentia dores... mas, também não sentia nada...
Forçava-se a mover as pernas,
Na boca, um amargor desconhecido
Uma sensação difícil de engolir
Muito mais de digerir
Após ouvir tiros, o corpo foi ao chão,
Não sabia se viveria, via sangue
Não sabia mais por onde seriam seus caminhos
Ao seu lado, uns poucos amigos, estarrecidos
Os socorristas cuidando das vítimas
Num impulso, num ato quase impensado,
Procurou uma mão que pudesse segurar
Uma âncora emocional
A mão da socorrista estava mais próxima
Segurou-a então... 
- que a retirou quase que por reflexo...
Naquele momento, deu-se o acidentado,
Com sua mais nova realidade...
Afinal, precisava agora de ajuda,
Não de compaixão,
Muito menos de dó...
Voltou ao vácuo anterior,
Abandonando-se a tristeza da desesperança,
Sozinho... imóvel,
Procurando qualquer outra mão...
sem poder se mover...

Vera Celms

domingo, 5 de janeiro de 2014

SITUAÇÃO COMUM





Vejo o reflexo da luz na água
Só uma fresta,
Suficiente para ter a noção exata
da profundidade
Na bandeja, sobre a mesa,
posso ver, claramente
A imagem de todos eles
E me garantem que não estão lá
Como, posso ver, quem não está?
O ambiente é ruidoso
Rangidos, sussurros, soluços,
O medo está no ar,
Não sei o que fazer,
Não conheço o rumo,
estou sem direção
Não conheço ninguém
Não ouço ninguém
Daqueles que vejo,
E me garantem não estar lá
Onde encontramos voz, pra contestar
Também encontramos coragem
Há tempos, não sei pra onde ir
Há tempos, não sei o que dizer
Se as imagens, que vejo refletidas na bandeja,
sobre a mesa, são só imagens, ou reflexos,
Da imaginação,
Como sombras na parede,
Que teimam em passar
E de sobressalto me acordar
Assustada, temerosa, insegura,
Boca seca, luz pouca
Sentidos confusos, mente conturbada,
Há tempos, não sei o que dizer,
E acordo assim...

Vera Celms
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