domingo, 24 de novembro de 2013

INDECENTES JUÍZES




Tudo ali era escuro, frio,
Até o vento, soprava mais gélido
vestido de negro,
Cheirando a fumaça, de escombros
As janelas, abertas para o nada
Faziam lembrar tragédias,
Gritos, gemidos, dor,
Horror estampado em todos os olhares
Feridos ou não,
Todos doíam,
Todos sofriam
Cada um a seu modo, todos choravam
Doíam de si, de mãos atadas,
Tragédia anunciada pelo destino
Traçada pelo acaso
Avalizada pela crueldade
Juízo implacável, de indecentes juízes,
Que moral pode ter um algoz?
Judiar pela satisfação de “instintos”
Prazer mórbido, lúgubre, tácito,
Cena assistida por detrás das cortinas,
Espiada, escondida, velada,
Aplausos masoquistas, como chicotes,
Sangram a pele, após tiradas as vestes,
Contemplando o corpo salgando-se em si,
Agonizando, pedindo clemência,
Chorando, definhando,
Mero expectador
Deixando-se chicotear, por pura inércia,
Doendo e chorando,
E pedindo paz...

Vera Celms
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O trabalho INDECENTES JUÍZES de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 17 de novembro de 2013

RESTOS MORTAIS





É no momento em que as lembranças,
viram passado, morto, encerrado,
Que deveriam cair sobre ele (passado),
pesos dilacerantes,
Fatais, letais, imobilizantes,
Resolutos, decisivos,
Mas, apesar de todos os esforços,
Ele respira, ofega,
E teima em revisitar, viver no presente,
Deveria ser como lagostas,
Servidas frescas, vivas...
Mas, insistimos em conservá-lo em sal,
Formol, que lhe mantém a forma,
Ainda que sem viço, sem gosto, sem graça, sem glamour,
Insistimos em manter, como velhas gomas de mascar,
Inerte, insípido, no canto da boca,
Ruminantes,
Deixamos afinal, em cada cena vivida, um de nós,
Depois, nos supomos capazes,
de reunir todos num só, novamente...
Vamos assim, deixando pedaços de nós, pelo caminho,
Não chegando inteiros, a lugar algum,
Deve ser por isso, que só enterram de nós, os restos mortais...

Vera Celms

domingo, 10 de novembro de 2013

RETORNO





Fez-me acreditar que me amava
E me amarrava o nome
Cruzava meu destino,
Solenemente,
Como quem convida alguém a dançar
Mas, lançava-me ao chão
Amor não se faz com afronta,
Fez marra,
Fez troça,
Fez pouco de mim
Me fez mal...
Falou de mim, o que não devia
Fez comigo, o que eu não queria
Espalhou o que não devia,
Me fez infeliz,
Deixou ao meu alcance, disponível,
Uma faca, uma arma, um copo de veneno,
Puxou-me pela mão, jogou-me,
Empurrou-me ao precipício
Tudo fez para que chegasse meu fim,
Vendou-me os olhos e açoitou-me,
Sangrei, chorei,
Parti, sem olhar pra trás,
Jurei não voltar,
Não se conformou com o adeus,
Lançou-me mandinga,
Reza brava, vudú...
Pôs meu nome no pé do santo, enterrou,
No caldeirão, na boca do sapo,
Me acusou, me recusou,
Minha paz afugentou,
Quando perdi toda a força,
Doente, ao léu me abandonou,
Pra morrer,
Mas, pra teu azar, sobrevivi...
Agora, me levanto, sou eu quem faço,
O que quiser...

Vera Celms
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domingo, 3 de novembro de 2013

FÉRETRO DA CELEBRIDADE





Subiu na vida,
Escalando egos
Sonhou com palácios,
Mansões, carrões,
Esqueceu das emoções,
Levou a vida, sim
mas, só enquanto era festa
Quando não, empurrou, espiou o mundo pela fresta
De sua própria janela
Chamou a todos pelo nome
Quase a escarrá-los,
Conhecidos ou não
Soberba, arrogância,
Intolerância,
Ignorância,
Não chorou dores de amores,
pois não os teve,
e não dói, o que não se perde,
e não se perde, o que nunca se teve,
Deu-se a todos, aos que a queriam,
Aos que não a queriam, pisou...
Ousou, insinuou, dissimulou,
Não conheceu desculpas, nem perdão,
Não mediu distancias, nem esforços,
Não ponderou, nem refletiu,
Só brilhou...
Jogou tão sujo, quanto necessário,
mas, teve a seus pés, todos os que quis,
Por capricho ou vaidade
Modelou sorrisos e lágrimas, no mesmo pote,
Atirou-se sob e sobre,
Sem hesitar,
Deu-se a qualquer papel,
Sem a menor cerimônia,
Hoje parte sozinha,
Sem ninguém as alças segurar
Levada por um carrinho, sem cortejo,
Sem pesar e sem canção,
Sem lástima, nem oração,
Hoje acabou só, como sempre se bastou...
Com seu nome sim, em letras douradas,
Luzes, só de velas,
Em tarde fria e chuvosa,
Sepultada em lama, como viveu...

Vera Celms
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