domingo, 28 de julho de 2013

AO LADO DO CORPO INERTE





Dormi ao lado do corpo inerte
Silencioso partiu,
Não disse palavra,
Não esboçou  pensamento,
Nem um olhar,
Esqueceu-se em sono
Durante o pesar do tempo
Retraído, ausente, depressivo,
O silencio foi um monumento entre nós
Não me deixava atravessar
Não me deixou visitar-te
Não me deixou intervir
Lançou-se ao abandono
Recolheu-se pra dentro de si
E esqueceu-se em sono, de repente...
Nenhum sinal,
Nem respiração mais forte
Nem suspiro,
Nenhum olhar que pedisse socorro
Simplesmente, irrompeu a insônia,
Interrompeu o caminho da alma
Dormi ao lado do corpo inerte, sem vida
E nem notei,
Pela manhã, o corpo frio, inflexível,
Foi só então que notei a ausência da sua alma,
Tinha o rosto tranquilo,
Como quem simplesmente dormia...
Porque não me chamou?

Vera Celms

domingo, 21 de julho de 2013

INVERNO DA ALMA





A alma agora é uma geleira
Vista de longe
Sozinha, vazia, desolada,
Já não mais a visitam, outras almas
Já não mais se lembra,
ou se preocupa...
Já não se importa mais...
A gélida carne alquebrou os ossos,
Trincou o coração, irremediavelmente...
O inverno baixou impiedoso,
Tomou conta de todo espaço,
A vida perdeu a cor
Fecharam-se as janelas e portas,
A escuridão ficou então permanente
O vento derrubou as folhas já secas
E assovia, enquanto farfalham
Todos os outros sons, vem do imaginário,
Moram nas mortas lembranças
Trazendo alucinações, miragens,
Vozes do pensamento conturbado e atribulado
Imagens da insanidade já decantada e instalada
Agora, o coração não bate, fibrila,
Doente, assustado, foge
Esconde-se em velhas muralhas lodosas,
Cheias de sombras de medo
Ameaçadas, loucas, nervosas,
Doentes de abandono
Cheias de lástima,
Açoitadas e decapitadas vítimas
Que em valas simples
Putrefatas moram
Enquanto desgastadas e escurecidas
Almas mau assombradas
Isolam os conturbados em ilhas de si mesmos,
E riem-se desesperados, aflitos, nervosos,
Aplaudindo, gelidamente, a solidão alheia...
Destino talhado em fria pedra...

Vera Celms

domingo, 14 de julho de 2013

NÃO MAIS MORRER




Duras palavras
Ainda ardiam nos ouvidos
No peito,
Nos olhos inchados,
Alma dorida,
Chicoteada e em sal
Castigos verbais
Ouvir e calar
Esconder-se pra não demonstrar
Sumir para não desmoronar
Cada lembrança um suplício
Estremecer
Fenecer mudo
Ganhar mundo
Quem dera, evaporar
Subir feito fumaça,
Feito neblina,
Feito pensamento,
Quem sabe não voltar
Quem sabe cortar os pulsos
Sangrar até morrer
Agora é tarde,
Afinal, não sangro mais,
Não mais morrer,
De lembrança em lembrança
Vou tentando esquecer...

Vera Celms

domingo, 7 de julho de 2013

EU SÓ





Tudo o que busquei foi um sorriso

Entretanto, o que encontrei

Foram rostos virados,

Silencio absurdo

ou cochichar desleal,

Havia dor,

Havia ranger de dentes,

Frio, escuridão,

Deixaram-me ali sozinho,

Paredões imensos

Não haviam janelas,

Nem portas

Não haviam saídas,

Nem tão pouco entradas

Meu fim era ali

Eu, e todas as minhas preces,

Eu, e toda minha fé,

Eu e nada mais...

Ali, eu e só...



Vera Celms