domingo, 30 de junho de 2013

JACENTE





Ouvia Tchaikovsky como hino,

Silencio solene,

Expressão soturna,

Faltava somente a posição de sentido

Era quase um culto

Era quase um rito,

Era uma espécie de mantra,

Uma volta pra dentro de si

Buscava sentido nas duras sensações

Não entendia tanta solidão

Dura tristeza,

Ampla depressão,

Andava só, vivia só...

Caminhada da vida a duas pegadas

Noite e dia, sapatos velhos,

Quisera não deixar marcas dos passos

Mas, pra isso, e era o que mais queria,

Precisava virar espírito, ou fantasma,

Não adianta querer, necessário jazer

Perecer, fenecer...

É preciso estar do lado de fora da vida,

para entender a vida,

É preciso sofrer abandono,

Para entender-se amado,

É preciso estar vivente,

Para desejar-se sepultado,

Ouvia Tchaikovsky,

como quem ouvia uma profecia,

Respeito profundo,

Estar, e querer estar, bem no fundo,

Sozinho, abandonado, silente e jacente,

Passivo, profundo, como quem se deixa açoitar

Vendo beleza em cada açoite,

Sentindo, vivendo, purificando-se,

Viver na dor, pela dor, com a dor,

Puro de alma, pronto afinal, a virar assombração...



Vera Celms
 

domingo, 16 de junho de 2013

SER DIFERENTE CONTINUA SENDO IGUAL




Me olhava com um estranho sorriso

Apoiado no canto da boca

No olhar, um ar oculto de satisfação,

Ou sarcasmo, ou ironia,

Ou constrangimento ...

Na penumbra do quarto

Procurava esconder o rosto

Ora do lado mais escuro,

Ora contra a luz do abajur

Tentei acariciar seu rosto

Mas esquivava-se bruscamente

Esperei que ele se deitasse

Fingindo-me dormente

Esperei até que ressonasse

Então, com a luz do celular

Pude ver as marcas e o inchaço

Indisfarçável a marca de um tapa,

O inchaço de um soco masculino

No rosto de um homem

Negue, mas esconder não há como

O lábio inchado ainda sangrava 

O olho semi aberto lacrimejava,

Enquanto o corpo dorido e cansado,

entregava-se ao sono pesado,

entrecortado por espasmos...

Tudo isso, só por ser diferente!!!



Vera Celms
Licença Creative Commons
SER DIFERENTE CONTINUA SENDO IGUAL de Vera Celms é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 9 de junho de 2013

MEUS CORREDORES





Escuro, solidão
O frio que corta a alma
É o mesmo que machuca a pele
E queima, e arde,
Inverno dentro e fora de mim
Fantasmas frequentam minhas noites
E dormem no meu inconsciente de dia
Amortecem meus sentidos todos
Quase um coma
Quase morte
Quase sem sentir
Sozinha,
Só ouço o cochicho da minha voz
Dizendo meu próprio nome
Andando nos meus corredores
Correntes prendem e assombram
Ferem a pele e castram a alma
Sou eu aqui, presa e calada
Muda e sozinha...
Sem volta...

Vera Celms

Fernanda Torres- Necrológio dos desiludidos do amor


domingo, 2 de junho de 2013

AGREDIDA






Esperava que ele viesse
Sonhava que ele chegasse
A saudade era imensa
Não era possível ainda imaginar
A bagagem que trazia da vida
Infância sofrida, tão sofrida
Imagens de violência e sangue
A morte de um irmão
Que ele julgava ter provocado
Não sabia que o espancamento
é o que mata
Imaginava que sua pequenez
Sua inocência
Seu não saber cuidar
Era o que matara seu irmão
Vida vivida em culpa
 Raiva de não saber
Impotência de um petiz
Intransigência diante da dúvida
Imperativo defender-se
O agredido defende-se agredindo...
Eu queria tanto que ele viesse
Sonhava que chegasse,
Se eu soubesse...
Se pelo menos imaginasse...
Agora em hematomas
Por todo o corpo
Meu sonho parece loucura
Amar um desconhecido
Me apaixonar por um estranho
Mal chegado e já me entreguei
Mal amado...  
...   e já me machuquei...

Vera Celms