domingo, 26 de maio de 2013

SINISTRO




A rua estava estranha. Já vi assim, e não gostei.
Naquela fatídica noite quando saí à rua tudo estava exatamente igual.
A rua normalmente movimentada, até mesmo cheia no mesmo horário estava com ares sinistros. Pouca gente na rua, à proporção de uma pessoa para cada porta aberta. Eram apenas 20:30 hs e as lojas todas fechadas davam a impressão de final de noite, aliás, naquela noite em especial, dava a impressão de fim dos tempos.
Logo após comecei a entender aquela sensação até então inexplicável. Havia num determinado ponto da rua uma fumaceira que impedia a visão muito adiante, entretanto, pude ver que a cena não era a mais tranqüilizadora.
Pude ver além das ambulâncias paradas no local. As luzes confundiam a visão misturadas à fumaça, mas estavam lá, os corpos estavam lá. Alguns cobertos por lençóis outros por jornais e alguns ainda sem socorro permitiam ver o sangue derramado por toda aquela destruição.
Estática, não conseguia entender o que havia acontecido. Dois policiais procuravam repartir o tempo entre o auxilio no socorro e a organização do impacto havido na população local.
Não pude sair de lá sem entender o ocorrido. Questionei do policial que me informou que nada era claro naquele momento, somente que houve uma explosão, como se do chão tivesse aberto um vulcão.
Ninguém entendia rigorosamente nada porém, a indignação era geral e os esforços no socorro às vitimas também.
A extensão dos estragos era incalculável, até onde os olhos podiam alcançar a destruição era total, estarrecedor.
Sem reação e sem condições de ajudar no socorro pelo meu estado emocional, comecei a voltar pela rua em sentido oposto ao da catástrofe. Aquelas pessoas que estavam antes na porta dos prédios ainda estavam lá, como se nada estivesse acontecendo, impassíveis. Estranhas aquelas pessoas que nenhuma emoção demonstravam.Como era possível manter-se inalterado naquela situação?
O olhar daquelas pessoas era estranho, frio, gélido. Senti medo e não sabia exatamente porque. Não conseguia me aproximar de ninguém, como se me repelissem, como se houvesse um campo de força protegendo a todos. Da mesma forma que não conseguia me aproximar das pessoas, elas também procuravam se afastar de mim a medida em que caminhava na direção delas.
Num instante começou a ventar muito, muito forte iniciando uma forte, fortíssima tempestade. Não conseguia acreditar pois, ainda há pouco, a noite estava clara, o céu estrelado.Onde estaria escondida tamanha tempestade.
Raios e trovões ensurdecedores, a chuva carregada chegava a doer na pele, a ventania dificultava andar. Era tenebroso.
Quem eram aqueles seres estranhos? Seriam pessoas mesmo? Pareciam múmias vestidas de gente...que horror!
O numero daquelas figuras aumentou muito desde que a chuva começou. Agora a rua estava cheia deles, mas eu continuava andando como se não tomasse conhecimento e eles continuavam me olhando de forma assustadora.
Enquanto andava me distraí, e quando voltei a olhar para frente, para meu assombro, a chuva era uma verdadeira revoada de morcegos. Eram milhares revoando sobre minha cabeça. Naquele momento entrei de sobressalto num dos prédios para me proteger daquela revoada apavorante. Sem querer choquei contra uma daquelas figuras que, com o impacto, caiu como se fosse de gelo, até mesmo no barulho provocado na queda permanecendo no chão sem conseguir se levantar reforçando a similaridade de uma múmia.
Aproveitei para fugir daquela cena dantesca.
Para meu total espanto os morcegos haviam desaparecido e a chuva também. O céu agora estava claro novamente.
Ouvia ao longe o som de pequenas explosões, sirenes das ambulâncias, helicópteros sobrevoando o local, choro e gritos de dor. Parecia um campo de guerra.
Era inacreditável o que acabava de presenciar. Ainda que os jornais noticiassem, se eu não tivesse visto, talvez não acreditasse.
Incrédula, continuei caminhando rumo ao Metrô e durante todo o percurso aqueles seres se acumulavam pela rua.
Diante do Metrô encontrei uma multidão de seres desesperados como eu. Tudo ali era escombro, a estação de Metrô não existia mais, tudo havia desabado.
As ruas estavam obstruídas, carros tombados, o asfalto quebrado e levantado em vários pontos. Não sabia como voltaria para casa, aliás, não sabia nem se teria casa.
Eu estava, no mínimo, vivendo um pesadelo, me sentia amortecida, como que anestesiada.
Fui para o meio da praça defronte a estação de Metrô e me sentei no chão. Meus pensamentos desordenados não me permitiam pensar em absolutamente nada.
O tempo passava e piorava o cenário mais e mais, o descontrole já instalado, o desespero era geral. Sangue por todos os lados, socorristas, os menos machucados ajudavam os mais machucados até que resgate chegasse.
Os meios de comunicação já não mais operavam.
Olhei para cima, lua cheia parcialmente coberta. Noite de Eclipse, após 50 minutos lua cheia totalmente coberta. Fechei os olhos e quinze minutos após a lua volta a aparecer ainda tímida. Olho em torno de mim e tudo normal como se nunca tivesse havido nada.
Ainda sem entender rigorosamente nada me levantei entrando no Metrô rumo à minha casa.
No relógio, 08:30 hs.

Vera Celms

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