domingo, 28 de abril de 2013

LUZES DO ESGOTO






Noite alta
Céu escuro
A rua deserta
Ninguém vem, ninguém vai
Frio cortante,
Medo constante
Difícil superar o medo
Difícil andarilhar
Perder-se no mundo
Perder-se de todos
Os barulhos da madrugada
Os barulhos da rua
Ninguém se acostuma
Sobressalto caminha conosco
Perigo espreita na esquina
Em toda esquina um susto
As luzes da rua, se acesas, ajudariam ...
Se o estômago não roncasse tanto,
Nem chuva pra matar a sede
Nem um cachorro magro abandonado
Ninguém com quem trocar palavra
Noite alta
Céu escuro...
Escuro é o destino
Escura é a chance
De repente, das bocas de lobo
Todas da rua... luzes...
A noite em luzes amareladas,
claras, vindas do esgoto...
Nenhum som... muda noite...
Nenhum dom... puro açoite...
Sentado sobre um monte de lixo,
o mundo é uma rasa limitada planície
As luzes piscam
Acendem, apagam, acendem,
Espetáculo ruidoso
Olho cuidadoso...
De repente um estrondo,
 tudo se apaga
Tudo se cala
Agora, atirado ao chão,
Só o movimento do coração que bate...

Vera Celms

domingo, 21 de abril de 2013

A ARREPENDIDA







Acreditei,
Fiz promessa,
Pra todo santo rezei
Fiz o santo sinal,
em todo cruzeiro,
Diante de toda igreja
A cada palavra maldita
A cada mentira desfeita
Pedi pra todos os santos
Evoquei em todos os cantos
Ajuda do outro mundo
Acendi velas
Fiz mandingas
Oferendas com sangue quente
Corações ainda pulsantes
Acolchoados bonecos espetei
Tudo fiz pra não morrer
Mas lá dentro,
O sangue fervia vivo
A carne putrefata roia
Os órgãos todos paravam
As ideias caladas sumiam
A vida, tão pouca, fugia
O tempo ia parando
E eu ia morrendo
Pensei que meu santo era forte
Mas nem santo eu tinha
Tinha uma lástima guardada
Uma tristeza malvada
Uma mágoa danada
Uma dor corroída
Uma vida inteira errada
E um resto dela, já meio apagada,
Pra me arrepender...

Vera Celms
Licença Creative Commons
O trabalho A ARREPENDIDA de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 14 de abril de 2013

TRIGÉSIMA NONA VÍTIMA



Fotografia de Giseli Mohacsi de Campo Limpo Paulista em 08/01/2008.


Viruhanna, figura quase lendária para aqueles lados de Mitoroh.
Contam os moradores mais antigos, que a cidade ganhou esse nome por causa das aparições fantasmagóricas em dias de longas e cruéis tempestades.
O povo olhava para o céu, para aquelas nuvens carregadas e logo sabiam que ela ia voltar a aparecer. Mal começava a chuva pesada, raios, o ribombar dos trovões, o zunir do vento, granizo, o céu cinza chumbo arroxeado e as crianças principalmente, se escondiam na esperança de não serem descobertas por ela.
A ventania forte fazia com que as portas batessem, as janelas balançassem, e a natureza começava a se descabelar, lançando folhas pra dentro das casas e por todos os lados. Em seguida, a poeirada subia e com ela já se podia ver as longas saias de Viruhanna, bailando pelos ares. Era assustador!
Por onde ela passava, deixava um cheiro de lavanda pelo ar, meio ardido, que dificultava até a respiração.
A lenda local conta, que Viruhanna tinha uma fixação muito grande por dias de chuva forte.
Quando começava a ventania, ela corria excitada e extasiada de um lado para outro, como criança que ganha um presente prometido há muito tempo, ou que vê o Papai Noel pela primeira vez na vida. Chegava a perder o ar, corar e quase levitar.
Só que num desses dias de tempestade, Viruhanna saiu descalça correndo pela relva e foi colhida por um raio que a matou instantaneamente. Só que ao contrário da maioria das pessoas que morrem por descargas elétricas, Viruhanna morreu sorrindo, como se estivesse feliz. As pessoas que viram a cena de sua morte contam, que ela corria feliz, como se soubesse do seu final, como se fosse de encontro ao raio.
Dizem alguns moradores mais antigos da região, ainda ver Viruhanna nos dias ou nas noites de tempestade. Outros, mais medrosos ou sugestionáveis juram ter ouvido sua risada, visto o vulto em pleno vôo ou até mesmo terem sentido o cheiro de lavanda pelo ar.
Só que o que nem todos sabem, é que quando Viruhanna aparece, leva alguém da redondeza consigo, ainda que seja um animal de estimação. Todas as mortes ligadas a ela tem o mesmo traço, todas tem sempre, pelo menos uma expressão sorridente ou um sorriso leve no rosto. Isso nunca ninguém soube explicar.
Já havia praticamente dois meses que chovia forte na região, sempre nos finais de semana, sexta feira, sábado ou domingo, as vezes nos três dias, e ela não aparecera pra ninguém que se soubesse. Só que o que não lembravam é que, segunda feira sendo feriado, não escaparia da conta do final de semana, prolongado.
Naquele feriado, dia 31 de outubro, a cidade toda sofreu estragos. Casas caíram, postes tombaram, encostas desabaram, animais foram soterrados, gente morreu afogada, acertadas por raios ou eletrocutadas. Foi uma total catástrofe.
A chuva já se anunciava devastadora. Mas ninguém imaginava tamanho desmando da natureza. Justo naquele dia era aniversário de 39 anos de morte de Viruhanna, e de certo, ninguém havia se lembrado disso.
Houve quem dissesse depois, que tinha sido a ira de Viruhanna que devastara a região, porque ninguém se lembrava mais dela, o que não era verdade, mesmo porque todos temiam ainda a figura assombrosa nos dias de tempestade, ainda que muitos denominassem lenda.
Um pouco antes de começar a chover, ainda durante a fortíssima ventania, a cachorrada do local uivava como lobos famintos, pareciam conversar entre si, os gatos bramiam desesperados contra tudo o que se movesse a sua frente, os cavalos coiceavam o ar e relinchavam sem parar como que enlouquecidos.
As crianças, ninguém mais as viam. As roupas nos varais pareciam bandeiras tremulando largamente, e algumas peças se perdiam na ventania. As janelas das casas batiam sem parar até serem fechadas. A cena toda era assustadora, horripilante. Os raios cortavam os céus avassaladores, de um extremo a outro, e a noite chegou mais cedo. Parecia alta noite as 5 horas da tarde; e choveu por horas.
Haviam utensílios flutuando na água, e Jaqueline abrigou-se da chuva no alto da escadaria da Igreja, e assistiu impassível, a passagem de seu cachorro na enxurrada.
O desespero era flagrante. Quem estava na rua naquele momento, assistia a tudo em completa desolação.
Quando a chuva parou a maioria da população dormia. A eletricidade havia sido interrompida, as ruas pareciam rios correntes e os poucos moradores acordados, tentavam socorrer suas casas que sofriam com as inundações.
Algumas famílias, com certeza absoluta não dormiram durante toda a noite. Aqueles que puderam dormir, acordaram sobressaltados pela inundação dentro de casa. Moveis, aparelhos, colchões, geladeiras, sofás, fogões... todo tipo de utensílio, tudo agora fazia parte do mesmo cenário devastado.
Aos poucos os moradores começavam a ganhar as ruas e então começaram a contabilização das vitimas, muitas delas fatais.
Pelos quintais, vários animais domésticos não sobreviveram. Jardins e hortas devastados, arvores caídas, postes tombados deixavam caídos os fios de eletricidade nas ruas, partidos, descascados. Muros, cercas e alambrados derrubados. Varias casas destelhadas e algumas parcialmente ruídas.
A primeira morte divulgada foi a do Padre Argílio, que amanheceu na calçada, há um quarteirão da Igreja, provavelmente eletrocutado pela fiação da rua. Alguns moradores de rua tiveram o mesmo fim na entrada da Igreja, talvez afogados ou eletrocutados da mesma forma, e entre esses, duas crianças de 11 e 13 anos.
A igreja evangélica do local ruíra completamente, soterrando vários fieis que deviam estar no local no momento em que se iniciou a tempestade. Enfim, foi efetivamente uma catástrofe que assolou a cidade de Mitoroh e arredores.
Aos poucos foram se somando os estragos materiais e as perdas de tantas vidas. Em vários pontos de Mitoroh, sabia-se de vitimas e estragos. No final do bairro Valete, três casas ruíram completamente, soterrando famílias inteiras. Ao todo, 13 adultos e 9 crianças.
A construção da Escolinha veio toda abaixo, bem como o Posto de Saúde. Os mortos estavam sendo recolhidos e no Hospital permaneciam para que os familiares os procurassem.
Ao todo, em toda a cidade eram 38 mortos, todos reclamados e velados por seus familiares, a exceção de um corpo, encontrado por último, completamente carbonizado, próximo ao Campo de Futebol, sem nenhuma possibilidade de identificação e sem nenhuma família reclamante.
Era o corpo de uma mulher magra, de aproximadamente 1,80 m, com a roupa chamuscada, podendo-se entretanto, identificar um longo vestido de seda vermelho de gola e punhos preto, com botões dourados. No dedo da mão esquerda um anel de ferro, gravado por dentro Viruhanna seguido de um pentágono e do numero 39/2008.

Vera Celms
Licença Creative Commons
O trabalho TRIGÉSIMA NONA VÍTIMA de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

DESMASCARAR





Viver um sonho
Cumplicidade, lealdade
Estar junto,
Dividir, somar, multiplicar
Tudo o que consegui
Foi perder ao dividir
Somar desilusões
Multiplicar dúvidas
Foi alastrar e expandir a solidão
O beijo não vem da boca
Só passa por ela
Assim como o grito
Assim como a expressão de dor
Assim como as palavras pontiagudas
A boca é só o canal
Assim como a mão é só um instrumento,
entre intenção e gesto
Seja qual for a intenção,
Seja qual for o gesto,
O vilão está acima, muito acima,
E transita entre dois mundos
Invisível e voraz
A alma carrega o ócio e o desejo
Carrega o ódio e o ensejo
Carrega a têmpera,
exata, perfeita, necessária
O equilíbrio, a dose certa,
Paira como nuvem
Atravessa como lança
Fere como punhal
Faz-se indiferente, como a própria sombra,
Com sol a pino,
Somos todos iguais
Iluminados e aquecidos
Lembrados ou esquecidos
É gente que se vai sem ter ido
Sem jamais pretender voltar
Até que a mascara caia
E nem a punição mais, será justa...

Vera Celms
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