domingo, 31 de março de 2013

A LOUCA


Para quem não conhece, posso afirmar que a madrugada é cheia de sons. Cheia de lembranças, cheia de saudade, cheia de fantasias e povoada pelos mais diversos seres.
Renata era assim, meio bruxa, meio alquímica, meio demente. Quando bebia algo mais forte, as vezes com os amigos, voltava pra casa e via coisas que todos diziam serem imaginárias. Escutava vozes, assuntos completos. Poderia dar palestras usando como material o fruto do que chamavam: “alucinações” alcoólicas.
Ouvia coisas estranhas acerca de outros mundos, de seres de outras galáxias, de outras dimensões. Ouvia tratados sobre guerras, ataques nucleares, revoluções as mais Dantescas.
Via seres estranhos, deformados, gosmentos, assustadores, horripilantes. Quantas vezes deitada em sua cama, sentia o quarto todo girar a centenas de kilometros horários. Viajava de um século a outro em instantes, de um planeta a outro em segundos, conhecia culturas as mais estranhas, socorria pessoas, provocava verdadeiras hecatombes.
Quantas vezes dormia num lugar e acordava em outro, completamente perdida, desolada, sozinha, em lugares surreais.
Ouvia sons que vinham de dentro de seu próprio corpo, que falavam com ela, sons aero-aquáticos, que mais pareciam manifestações do outro mundo. Dentro da sua cabeça, ouvia tiros, aviões, pássaros desesperados, cães uivando solidão, gatos miando em tons monstruosos.
Era cercada por imensos ursos negros, por legiões de seres transparentes que a encarceravam, em celas imensas, algumas vezes sozinha, outras com animais ou com homens rudes como na Idade da Pedra, amarrando-a em câmaras de tortura, em cruzes ou postes imensos, pelos punhos e tornozelos, penduravam-na de cabeça para baixo, sozinha, em florestas fechadas. Renata não sabia quando era sonho, quando era alucinação ou imaginação.
E a cada vez que passava por essas experiências cruéis, voltava com algum tipo de sintoma ou sentido alterado. As vezes ouvia os sons muito altos, como se o volume de todas as coisas estivesse amplificado em no mínimo 10 vezes. Ouvia sons repetitivos, como mantras, como músicas enlouquecedoras.
Outras vezes sentia a pele arder, como se estivesse queimada pelo sol, e o contato do vento, da água, do sol passava a ser insuportável, torturante. O próprio tato aumentado, como se não houvesse pele em seus dedos, o toque era doloroso e sacrificado.
Enfim, a cada experiência alucinatória uma nova experiência de sofrimento e dor.
As alucinações passavam agora a ser mais freqüentes, não era mais só em situações de alcoolismo, mesmo porque Renata não bebia mais. Tinha medo dos efeitos e passou a evitar até de fato parar completamente de beber. Só que as alucinações não deixaram de acontecer e agora de forma mais duradoura e freqüente.
Tinha distúrbios de visão, de audição, de tato, de olfato. Só não tinha distúrbios de paladar, pois não conseguia mais se alimentar, nem água conseguia ingerir quando estava assim. Tinha muitos medos. Sentia-se sufocar com o ar, com água. Sentia que estava enlouquecendo, ou morrendo.
Isso tudo já estava levando tempo demais. Renata pedia para morrer. Tinha esperança de que a morte fosse a sua libertação.
Vez ou outra, lembrava-se de sua mãe, sentia saudade. Seu pai era uma lembrança da qual fugia, pois acreditava que tudo tinha começado com as agressões que sofria dele.
No começo sentia raiva, mas tanta raiva, que chegava a desejar que ele fosse atropelado, ou que incendiasse, ou que se afogasse. Depois, tudo o que desejava a ele passava a ser o fruto das suas alucinações mais apavorantes.
Com o tempo, começou a sentir medo dos seus sentimentos em relação ao pai, e começou a evitar de pensar nele. Tanto que mal se lembrava de seu rosto e quando lembrava era em pesadelos tão reais que acordava chorando.
Sua mãe era a lembrança confortadora. Tinha saudade de suas irmãs, de alguns amigos que sempre a acompanhavam, até começar todo esse desespero. Renata foi internada para desintoxicação duas vezes, numa dessas clinicas que se ouve falar. Fora amarrada a cama, tomava remédios que não sabia o que eram. Talvez aí tivessem começado as visões que só evoluíram com o tempo, transformando toda a sua existência.
Andava pela rua como um Zumbi. Como se estivesse andando no meio do trânsito desordenado, ouvindo buzinas, motores, escapamentos, freadas, cambaleando e titubeando o passo. A confusão mental era tão grande que não conseguia distinguir mais nada, nem ninguém.
Aos poucos, a mente de Renata começou a criar defesas contra tantas agressões, perdia a capacidade de ouvir, perdia os reflexos, perdia a visão. Eram momentos de ausência de sentidos não simultâneos, ora lhe faltava um, ora outro. Ora lhe faltava a consciência totalmente, ora tinha a consciência e lhe faltavam sentidos.
Andava sem parar, na maioria das vezes em círculos, o que fazia com que ela não se afastasse muito das pessoas que a conheciam. Não sabia o que era pior, se a proximidade de todos para alguma proteção ou cuidado que sabia que não iria aceitar, ou se para a comiseração das pessoas.
Aos poucos Renata ia perdendo a capacidade de distinguir qualquer imagem. Tudo o que ela olhava, na sua confusão mental, virava um borrão cinza chumbo, como que tomado de sujeira, de lama da sarjeta, negra e mal cheirosa.
Circulava as vezes no meio do transito e era como se não visse nenhum carro, tudo era um imenso borrão, que ela tangenciava cambaleante sem sequer esbarrar. Os veículos desviavam dela, outros buzinavam loucamente. Aos poucos foi também perdendo a distinção auditiva. Quando o barulho era muito intenso, era como se desligasse um interruptor e deixasse de ouvir o que a incomodava.
E assim, na redondeza todos a conheciam como A LOUCA. Aos poucos passou a fazer parte do cenário, da paisagem local. Uns poucos se preocupavam com ela, procuravam tirá-la do asfalto, mas ela se debatia e voltava. Usava um vestido, que um dia havia sido branco, mas que agora tomara a cor das ruas, descalça, o cabelo “tosado” de qualquer jeito lhe deixava ainda mais com aparência de louca. De vez em quando chorava sozinha enquanto andava, deixando transparecer lá do fundo, um quê de tristeza ou desespero, ou só descontrole. As vezes ria desmedidamente, talvez só como sentimento contrário ao choro, sem nenhum motivo aparente. Discutia bravamente com alguém invisível às outras pessoas, as vezes se escondia, como se alguém a ameaçasse. As vezes se encolhia como se sentisse frio debaixo de sol quente, outras vezes, andava debaixo de chuva em dias frios como se estivesse embaixo do sol.
Era realmente estranha a realidade de Renata. Ninguém a não ser ela mesmo, era capaz de entender, ou pelo menos de sentir o que ela sentia. Impossível colocar-se no lugar dela. Impossível encontrar uma realidade próxima.
Naquela sexta feira de agosto, dia 13, Renata amanhecera quieta demais. Houve quem tivesse visto ela sentada na calçada, chorando desamparada, triste e desolada. Ninguém ousava se aproximar para tentar saber o que se passava, ela era sempre muito arredia.
Por volta do meio dia, ela andava na calçada, nos seus costumeiros devaneios, pintando tudo e todos de cinza chumbo, quando de repente de lançou para o asfalto, num movimento brusco que mais parecia uma fuga; chorava copiosamente, soluçava as vezes, um carro freou bruscamente para não a atropelar e ela saiu automaticamente para o lado oposto.
Parou, arregalou os olhos, abriu os braços e gritou:
- MAMMMÃÃÃÃE!!!!!!!!!
De repente, voltou a ficar apática como sempre como se a figura que visse houvesse sumido, ou quem sabe tivesse sido pintada também de cinza chumbo e com os braços ainda abertos, se chocou contra um caminhão enorme, caindo no asfalto ainda viva, chorando e dizendo baixinho:
- ma...ma...ma.mãe!!!
E com os olhos arregalados ainda, parou de respirar, enquanto sua ultima lágrima ainda corria pelo seu rosto sujo da rua que por tanto tempo a abrigou...
Vera Celms

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