domingo, 30 de dezembro de 2012

DEMITI GALINDA




                                                                                                                                              
Galinda era um ser único, pessoa maravilhosa, ímpar, gentil, educada, solícita, companheira, amiga. Difícil seria enumerar todas as qualidades e características destacáveis.



Tanto quanto maravilhosa também enigmática. Mulher de muitos mistérios, hábitos que nem todo mundo conhecia.



Galinda costumava fazer vigília esperando o aparecimento de OVNI’s, conversava com amigos invisíveis, ou como alguns dizem, imaginários, previsões sobre tudo e todos. Não saía de sexta-feira vestida de preto e vermelho, não saía em dias impares com cores frias e adorava as sextas 13 e vestia branco em todas as sextas.  Gatos pretos tinha 7, criava cobras, gostava de aranhas e dizem alguns que ela criava na casa do sitio um filhote de urubu, mas nada confirmado.



Fazia yoga, era bruxa, astróloga, taróloga, perfumista, alquímica e dizia ver gnomos. No mínimo uma pessoa incomum.



Antes de realizar qualquer negócio, de partir para uma ‘conquista’ ou de sair de casa para assuntos mais delicados, consultava o Mapa Astral, o calendário, mentalizava, meditava, se benzia e só então saía.

Não realizava transações financeiras de terças-feiras pois dizia ser o dia reservado ao seu anjo que não merecia negociações num dia tão único da semana. Aos domingos ia a Missa, pois entendia que não era preciso professar uma religião para assistir ao seu culto e, por via das dúvidas, era bom estar de bem com todas as linhas.



Tão maravilhosa e incomum podia também ser perigosa se provocada. Aliás, a máxima de, quem vê cara não vê coração deve ser  pertinente no caso de Galinda.



Algumas pessoas são francas em excesso chegando a manifestar desagrado em relação às outras pessoas, ou objetivas a ponto de tomar medidas que cerceiem as atitudes, os espaços e até a liberdade das pessoas que agem em desagrado de suas perspectivas. Mas, com Galinda as coisas aconteciam de forma estranha.



As coisas com ela parecem mais ‘invisíveis’. O ‘culpado’ parece convencer-se naturalmente da culpa, expor-se de forma mais intensa ou descuidada, a ponto de deixar sensível, portanto mais fácil de perceber o ponto nevrálgico, e consequentemente as coisas acabam desfechando de forma nem sempre tão suave, porém não menos previsíveis. Mais uma máxima justificada: a corda sempre quebra do lado mais fraco.



Que poderes poderia ter essa pessoa ‘do bem’? Calo exposto e dolorido e o seu mundo é o que gira? 



Galinda sempre entendeu que as pessoas colhem o que plantam e portanto, por fazer todo o possível para ser agradável, amiga, solícita, e todos os atributos já citados, entende que deve colher o mesmo tipo de fruto e não colhendo se dá o direito de derrubar os seus. No entanto, talvez ela não entenda que não é chacoalhando o pé que se colhem frutos.



Eu sou uma dessas pessoas de galhos quebrados, de ramos derrubados. Meus frutos foram ao chão quando trabalhava com Galinda e resolvi, como sua gerente, exercer meu direito, cobrando dela responsabilidades sobre seu trabalho que não vinha sendo exercido com a eficiência oferecida no decorrer do seu processo seletivo.



As coisas não aconteciam bem no setor que ela gerenciava, por falta de competência mesmo,e consequentemente começou a não produzir como deveria.  Tentei de toda forma conversar, realizei reuniões, treinamentos, planos os mais diversos e ao longo dos meses o problema só se agravava. Demiti Galinda.



Após a demissão recebi duas ou três ligações telefônicas em tom constrangedor partidas dela e como nada podia fazer, pedi desculpas e deixei que as coisas se acomodassem no tempo.



Dois meses depois desse evento sofri um desmaio e fui hospitalizada. Descoberto um tumor no intestino. Exames feitos, comecei a quimioterapia.



No retorno da terceira sessão de quimioterapia fui atropelada e fraturei as duas pernas. Estou de cama já há 45 dias com previsão de 60 dias de gesso. É um sacrifício ir ao hospital nessas condições, porém não posso interromper o tratamento. Meu cabelo está caindo incessantemente, minha pele perdeu o viço e sinto dores insuportáveis grande parte do tempo.



Dormir é coisa rara. Sinto-me um robô encadeirado. Meu apetite diminuiu sensivelmente. Emagreci 13 kg.



Galinda veio me visitar outro dia e me trouxe um cesto de rosas lindo. O que me apavorou é que no fundo do cesto, embaixo das flores havia uma cobra... morta.





Vera Celms

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