domingo, 28 de outubro de 2012

SALTO DEFINITIVO





Não me basta saltar

Tenho de tomar distancia,

De saber da altura

Tenho de observar o destino

Da queda, da trajetória, da chegada

Tenho de saber que todos saberão

Ou aqueles que me tenham dado motivos

Se não souberem em tempo do velório

Que saibam em tempo de lástima

Ou de celebração

Se eu saltar tem de ser do alto,

pra longe, pra sempre,

Tem de ser estarrecedor

Inexplicável, inimaginável,

Insondável...

Se saltar tem de ser na onda do vento

Que me leve pra longe,

Contra o penhasco,

Contra o provável

Contra o asfalto

Contra o entendimento de toda gente

ou não salto,

Tem de ser no mínimo, fatal



Vera Celms
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O trabalho SALTO DEFINITIVO de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 21 de outubro de 2012

INCOMUM






- Não entendo de onde vem estas imagens.
- Não é imaginação sua?
- Nnnnnão!!! Claro que não! Acha que tô variando?
- Claro que não!
- Outro dia estava na janela de casa, nenhum movimento naquela rua - você conhece o movimento naquela estradinha; de repente, o caminhão do Tio Geraldo apareceu como se tivesse passado diante de casa e continuou a rua até sumir e em alta velocidade;
- e não passou?
- Nnnnão!!! Claro que não, o caminhão nem deve existir mais! Este é o ponto. É como se ele tivesse saído do nada, de uma nuvem, disparado até o final da rua sumindo da mesma forma; É como se eu estivesse aqui sozinha e de repente você aparecesse, do nada, saindo da sala sem ter vindo de lugar nenhum;
- Para com isso Jussara!
-Eu também estou assustada e garanto que muito mais do que você. Queria entender.Ontem mesmo, estava sentada na espreguiçadeira do jardim, de olhos fechados, quando senti um ventinho, como se alguém tivesse passado e quando abri os olhos vi o Pedro entrando no roseiral e sumir. O estranho é que só vejo gente morta!
- Credo Jussara! Me dá medo isso!!Quanto tempo faz que o Pedro morreu?
- Faz uns 7 anos. Também tenho medo;

Desde criança tenho pressentimentos. Cheguei a prever a morte desse meu tio. Ele esteve em casa no dia do aniversário da minha mãe e quando estava indo embora tive um forte pressentimento ruim e sem que ele soubesse me despedi dele. No dia seguinte a Tia Euripedes ligou informando que ele estava morto.

Quantas vezes, andando dentro de casa sentia medo e chegava a correr para dentro do quarto com a sensação de que alguém me perseguia, e pior...sentindo que seria atacada pelas costas.

Na rua nunca tive medo de andar sozinha e nem tarde da noite. Medo de assalto, nunca tive. Nem mesmo medo de assombração.

Quando era adolescente, liderava as excursões em “aventuras” noturnas. A turma toda resolvia sair pelos pomares ou morros da Fazenda em vigílias freqüentes e era eu quem ‘cuidava’ de todo mundo, inclusive de assustá-los.

Brincadeiras de cunho espiritual sempre fiz. A brincadeira dos copos andantes, a brincadeira da garrafa que responde a perguntas, até simpatias Juninas.  Medo nunca tive, aliás, sempre fui muito curiosa quanto ao desconhecido, mas agora, isso está começando a passar do normal.

Sempre passo pelo pátio na volta do trabalho e de repente comecei a ouvir barulho de crianças brincando. Olhei em torno e nada vi.

No dia seguinte e como sempre, voltei pelo mesmo lugar e volto a ouvir, novamente o mesmo barulho e ao olhar para traz vi como uma imagem embaçada num espelho, varias crianças brincando em corre-corre intenso, gritando, pulando e que num piscar de olhos simplesmente sumiram. 

As vezes penso estar acordando de um sonho durante a noite quando nem dormi ainda ou ao acordar, noto que as imagens estão dentro do quarto ou da minha cabeça pois somem como apareceram, diante dos meus olhos.

Contando ninguém acredita. As pessoas dizem que é a minha imaginação.  Teria eu uma imaginação tão fértil que se materializasse diante dos meus olhos? Imagine! Nem beber eu bebo!

Gostaria que alguém pudesse ver comigo as coisas que vejo para atestar que não tenho alucinações, ou será que tenho?

O caminhão do meu tio não é a primeira vez que vejo, aliás é o que mais vejo, ou se preferir, é a alucinação mais recorrente. Estou na estrada dirigindo e de repente, como que saído do túnel do tempo o caminhão passa embalado me deixando de ‘bocaberta’ sem nenhuma reação ou entendimento. Some da mesma forma que apareceu e custo voltar ao meu normal.

As vezes sinto alguns perfumes que ninguém que está perto de mim consegue sentir. Identifico como perfume de pessoas que conheci com quem perdi contato, outras que sei que já morreram. É assustador!!!

Sonhos os mais diversos assolam minhas noites. Pesadelos horrendos.

Sonho com gente morrendo e acabo sabendo depois de algum tempo que morreram mesmo ou que já estavam mortas. Até casos policiais noticiados nos jornais já tive em sonhos. Serão avisos? Premonições? Ou será isso também minha imaginação?

Não sei, por enquanto vou tentando entender...só sei que...
Neste momento o caminhão passou pela ultima vez e nunca mais ninguém viu ou ouviu noticias da Jussara.

Vera Celms

domingo, 14 de outubro de 2012

CACHECÓIS




Já tive vontade,
de matar e de morrer,

Já tive medo

das duas coisas também,

Hoje ando em paz,

de braço com a nobre anciã

Não me assusta mais

a proximidade,

a visitação,

acho até que já fui consultada,

e respondi sem rodeios,

se hoje tiver de acompanhá-la

vou sem medos, sozinha,

A casa da velha senhora,

deve ser um lugar de aprofundamento,

Reflexão deve ser feita no café da manhã,

No almoço planos,

A tarde descanso na rede do tempo,

E a noite, o sono dos impolutos,

Já, devem temer os culpados;

dizem que estes vêem fantasmas,

aranhas subindo pelas paredes,

insetos voando em torno de suas cabeças,

das lâmpadas, quando houverem,

no chão, cobras impedem o passo,

Os intrigueiros escutam vozes,

Os mentirosos caem em armadilhas,

E os omissos, lá são deixados sós...

Acho que vou comprar mais lã,

pra tricotar cachecóis, com ela...



Vera Celms
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domingo, 7 de outubro de 2012

DECRETO FINAL




Você nunca mais veio aqui
A casa está vazia de você
Assim como meu olhar,
Meus beijos não tem mais gosto
Meus olhares não tem paisagem
Meu peito não tem mais pulsar
Contra o vento, perdi as migalhas pelo caminho,
Cobri as trilhas e incendiei os gravetos
Antecipada a tempestade que inundou o cenário
Teias de aranha encortinam as janelas embaçadas
Pedaços de historia pelo chão, são outras
foram trazidos pelo vendaval
Nada mais a reconhecer
Nada mais a relembrar
Só me resta agora o decreto final
Assinarei afinal... a ponta de punhal...

Vera Celms
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