domingo, 30 de setembro de 2012

A ROUPA NEM SECOU


Acordar todos os dias
Com o pensamento focado
Na linha do horizonte,
Ao norte,
Poder ver o nascer do sol
E seu poente também
Poder ver a ultima estrela acordada
E a primeira também,
bem no comecinho da noite
Flertar com a Lua
Suar a camisa ao sol
E a noite poder lavá-la
E enquanto a camisa seca no varal
Descansar
Dormir, sonhar, transformar
cansaço em energia
Então Maria,
No começo do dia
Com os olhos já focados
Vai acordar o menino Marcos
Que do seu sono inocente
Já não acorda mais
Frio, inerte, muito pálido
Não conseguiu ver seca no varal
A roupa que o cobriu
E não verá nunca mais

Vera Celms
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domingo, 23 de setembro de 2012

FLORES DEFINITIVAS



Flores, ofereço-as
Como boas palavras
Como mantras mágicos
Flores, recebe-as
Como maldições baratas
Como acontecimentos trágicos
Não juntamos cinzas
Tão rápido como as espalhamos
Nem enterramos o passado
Tão simplesmente quanto o erguemos
Virar a pagina nem sempre é o melhor a fazer
Feche o livro,
Bata-o como a uma ofendida porta
E reconhecerá o sol logo que sair
Proteja os olhos acostumados a dura escuridão
Acostumar-se a primaveras ensolaradas
é um prazer tão simples quanto edificante
Vida que se põe a prova
Coração que se renova
É pra frente que se anda,
Sempre em frente,
e encontrará o horizonte aberto para voar
Só depende do impulso,
Flores, ofereço-as em maços ou buquês
Ainda que, nesse momento,
preferisse vê-las sobre seu peito

Vera Celms
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domingo, 16 de setembro de 2012

DESCULPAS AS CEGAS




Mais uma vez escondida
Sob as vestes da autocompaixão
Ardendo de dó e culpa
Relembrando ponto a ponto,
o que mais queria esquecer
Sei que derrubei todas as cercas
Sei que invadi todos os terrenos
Derrubei todo o cristal
Quebrei as vidraças e lâmpadas
Como também sei,
que nem queres olhar pra mim
Abraçada a tua ausência,
Tento contar pra minha solidão
que terá de me carregar por muito tempo
O caminho será longo,
Árduo, íngreme, sinuoso,
O perigo faz parte do cenário
Em cada despenhadeiro que se oferece isento
Em cada beco que se forma,
como bolsões de choro sob meus olhos
No meu sonho não há mais jardins
As nuvens pesaram e se eletrificaram
O sol saiu a francesa pra não discutir com a tempestade
E começou a ventania
Tirou tudo do lugar
E antes que caia o cenário; d e s c u l p a – m e ...
Ainda que não ouça,
Ainda que jamais me desculpe
Mesmo sabendo que jamais me verá
Só o teu perdão me devolveria o ar...

Vera Celms
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domingo, 9 de setembro de 2012

NA LINHA DA BRUXARIA




Não adianta força,
Não adianta enganação,
Com a vida por um fio,
Magra, sem viço, sem brilho,
Foi um lance de sorte,             
Todos, na madrugada,
Distraem-se, desligam-se,
Dormem...
Não mais do que um momento,
Um estalar de dedos,
E o nome dela estava lá,
Enrolado num papelzinho,
Inocente bilhetinho,
Na boca do indigente,
Que sem saber de nada,
Passou a hospedar a vitima...
Ali, um vinculo criou-se,
A vitima esvaecia,
E o indigente putrefazia,
Paralelamente,
Um morto ligado a vida,
E um vivo a bruxaria,
Ninguém sabia porque,
A moça parecia doente,
E o morto descontente,
Enquanto um secava,
O outro se arrastava,
Dava dó de se ver,
Até um dia que uma alma,
Chegou com toda calma,
E viu logo a situação...
Tirou o nome da viva,
Da boca do indigente,
E cortou o fio que os ligava...
Os dois estavam livres afinal,
A viva voltou a vida,
E o morto ao ponto final...
Desfez-se a bruxaria...

Vera Celms
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domingo, 2 de setembro de 2012

ABANDONOU-SE




Ele escolheu assim
Isolou-se, punindo-se, abandonou-se
Definhando, fugia da própria imagem
Não conhecia mais seu rosto
Não sabia mais de suas fraquezas
Entregara-se ao mundo, ou ao final dele
Esperava todos os dias a visita derradeira,
Da morte, honorável dama da vida
Que rodeava sem tocar
Apoderava-se dele, dia a dia
Conquistava-o, sorrindo pra ele
Sorria ele de volta...
Caminhar já não importava mais
Prostrado, caído num canto
Assistia a vida pelo lado de fora
A passar correndo,
No lombo de cavalo negro
Coiceando e pinoteando
Brigando pela força
Ralhando por pura ira
Vida que vira e vibra
Que um dia vai e não volta
Vai passar ali fora
E vendo-o ali caído,
Vai embora sem levá-lo...

Vera Celms
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