domingo, 27 de maio de 2012

JURO



Madrugada silenciada
Pelos passos no corredor
Subindo escadas
O medo atento, frequenta o quarto
Esconderijo amordaçado
A oração pede socorro
E a voz pede ausência
O chicote, o cano duplo, a bofetada
O estômago faz ronco ecoado
Na garganta árida
Olhos estalados não dormem
A dor sangra latejando
Madrugada silenciada
Por memórias recentes
A tocaia, o flagrante encapuzado
Mascarado valente armado
Amordaçada, encapuzada
Porta-malas, mãos pra trás amarradas
Pés atados ou doem, ou dormem
Algoz sem rosto, sem voz,
Se um dia sair do cativeiro,
Eu juro...  (se ainda souber jurar)
Que vou chorar...

Vera Celms

domingo, 20 de maio de 2012

SIMULAÇÃO DA VIDA


Pra onde vou,
Quando baixo as pálpebras?
Em que mundos ando
Onde todas as coisas acontecem,
que não acontecem aqui
Lá, atravesso incêndios, enchentes,
Maremotos, cataclismo
Aqui, não passo um dia sem chorar
Sem sentir pena de mim
Sem querer para Casa voltar
Lá, tenho todos os amigos
Os que penso ter aqui e os que já tive
Aqui estou sempre tão só
Aqui minha coragem permite
somente atravessar os dias (no meu caso noites)
Cortinas cerradas, paredes mudas,
Soltando a mão das lembranças,
não sei onde sairei
Não sei se há futuro além das portas
Aqui não há.
Reinvento a cada dia um mundo novo,
só meu...
Não aprendi ainda a recriar vozes,
Nem calor, nem pulsar,
Vivo um mundo de faz de conta,
Uma simulação da vida, em vida...

Vera Celms
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domingo, 13 de maio de 2012

ARISTIDES ELETROCUTADO



Pele ainda quente chamuscada
Veia murcha, escura, ressecada
Olhar esbugalhado, fixo na estrada
Historia conhecida por toda mulherada
Contava a história que o fio chicoteava
Noite escura, tempestade; ventava
Rompido fio, caiu na via movimentada
Aristides, gaúcho valente, de medo não se dobrava
Bebia de dia e de noite; o macho cambaleava
Não exitou, sabia que algo fazer precisava
Tirou do bolso um lenço e a mão enrolara
Decidido foi rumo a esquina da encruzilhada
Protegeu o rosto com a mão levantada
Abaixou-se e certeiro parou do fio a chicoteada
O que veio a seguir, se contasse, ninguém acreditava
A carga elétrica seu corpo atravessara
Sua língua desenrolada,
mais parecia uma gravata
E ali mesmo ficou, com sua valentia estrebuchada,
Tudo parou, cessou o perigo, de vida mais nada
Prostrado herói, corpo ressequido fumegava,
Compaixão, choradeira, multidão estupefata
Ninguém acreditava,
Aristides, gaucho valente, se eletrocutara...

Vera Celms
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domingo, 6 de maio de 2012

SEM CERTEZA

 

Pensamento distante
Desconforto no peito
Respiração difícil
Movimentos confusos e acelerados
Olhar espelhado e nervoso
O sangue tomando as orbitas
Inquietude, ansiedade
É sempre assim... é assim que me sinto
E quando acordo, tudo é sangue e sêmen,
Mãos cansadas e armadas
Nenhum traço de lembrança
Nenhum sentimento de culpa
Nenhum arrependimento
Ninguém se arrepende do que não sabe fazer
Cabelos entre os dedos,
Gosto de sangue na boca
Minhas roupas sujas, espalhadas pelo chão
E a languidez, o torpor
Dizendo-me saciado
Não sei como cheguei
Nem sei como sair
Ninguém por perto que possa contar
Quem sou eu entre o antes e a saciedade
Um profundo nada
E o desejo de nada ser
Confuso me visto e saio,
Rumo a deriva,
Procurando nitidez, sensatez, lucidez,
Mas, como sempre, só amanhã...
Dor, vazio, e nenhuma certeza...

Vera Celms
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