domingo, 8 de abril de 2012

UMA CRIATURA NA NOITE



Todos dormiam àquela hora, ou pelo menos achava eu que todos dormiam.
Na sala, em colchões postos no chão, dormiam os menores, não crianças, mas os mais novos.
Estava eu inquieta, ouvia ruídos que não conseguia identificar. No sofá marrom de veludo, perto da porta, rolava eu de um lado pra outro, mas os ruídos me incomodavam pelo desconhecido.
Debrucei meu corpo por sobre o braço do sofá para que pudesse olhar na direção do corredor que dava para o restante dos cômodos.
No meio do corredor, pela pouca luz que vinha da cozinha, via uma sombra no chão, algo de uns 30 centimetros ou um pouco mais talvez. Não identificava o que poderia ser.
Alguém acendeu a luz do hall dos quartos/cozinha o que me ajudou a identificar algo parecido com um grande gafanhoto escuro.
Levantei-me sem muito alarde e fui na direção daquele ser desconhecido.
Já a algum tempo, todos os doces/balas que apoiava sobre o buffet  do hall, desapareciam. Claro, culpávamos os meninos por isso, mas ninguém assumia o fato, por mais evidente que fosse.
Me aproximei do presumido gafanhoto gigante, que de imediato fugiu na direção do hall. Achei que ele fosse voar na direção da cozinha, para sair pela área de serviço ou pela janela do banheiro.
No entanto, pra meu espanto, o tal gafanhoto, sobre duas patas, debruçou-se no buffet do hall e gulosamente abocanhava as balas que eu mesma havia apoiado no móvel quando chegara da rua.
Estaria afinal desvendado o mistério do sumiço dos doces, pelo qual ninguém se responsabilizava?
Haviam varias balas ali, no momento seguinte, só haviam os papeis que as embalava, por todo lado. O presumido gafanhoto empreendeu fuga na direção da cozinha. Voando sem esbarrar em nada.
Na cozinha, do lado esquerdo da porta, havia uma mesa com 4 ou 5 cadeiras  e do lado direito, uma mesinha que apoiava a cafeteira, a longa pia, sob a larga janela de correr, seguida do fogão de 6 bocas, onde minha mãe, naquele momento,  fervia água num grande caldeirão.
O nosso personagem  voou intempestivamente e ao invéz de tomar o rumo da porta que dava para a área de serviço, deu de encontro a parede que ladeava o fogão e entontecido, caiu dentro do caldeirão com água fervente.
Debateu-se em molho e logo conclui que morreria fervido. Minha mãe observou que a água logo tingia-se de vermelho. Sangue?
Antes que pudéssemos concluir qualquer coisa, o nosso personagem conseguiu sair de dentro do molho e já sem asas, apresentou-se como um pequeno  espectro, de forma humana.
Era um pequeno esqueleto de forma humana, recoberto por uma pele cinza esverdeada, que se sugeria fria, com grandes olhos arregalados e um crânio bem arredondado. Sentou-se acocorado na mesinha que normalmente acomodava a cafeteira e ali permaneceu por longo tempo, fitando-me com um ar indefeso e assustado que chegava a causar dó.
Por um momento senti-me um monstro, acuando a pobre criatura, mas de forma segura, abri a larga janela de correr oferecendo liberdade àquela criatura. Ainda disse-lhe: Vai, foge...
Sem demora, sob longas e esqueléticas pernas, com a ajuda dos longos e igualmente esqueléticos braços, a criatura saiu pela janela afora, escalando muros e telhados, desaparecendo na noite, sem que conseguíssemos vê-lo mais.
Aquela noite afinal durou tão pouco. Logo amanheceu e ainda estávamos eu, minha mãe e meu irmão, sentados em torno da mesa da cozinha, calados, questionando silenciosos tudo o que presenciamos.

Vera Celms
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