domingo, 29 de abril de 2012

MUNDO DAS SOMBRAS



Novamente tentando dormir
Insone, inquieta, preocupada
Todos os carneirinhos há haviam pulado
Todos os anjos já haviam cansado
E eu continuava acordada
Lembrando de tudo
Imaginando saídas,
Entradas secretas
A penumbra do quarto
A luz indireta do abajur da sala
De repente escuridão
Anoiteceu,
A energia acabou
Entraram todas ao mesmo tempo
Juntas, com barulho de açoites
cortando o ar, em todas as direções
Fechei os olhos
Não conseguia deixar de ouvir
Elas invadiam minhas pálpebras
Enormes, gigantescas
Cheiravam a acido
Ardiam-me as narinas e os olhos
Queimava-me o peito
Nem o travesseiro sobre a cabeça
Impedia-me de ouvir
Não era sonho, nem imaginação
Aquilo estava mesmo acontecendo
Misto de alucinação e pesadelo
Ignoravam minha presença
Passavam através de mim
Podia sentir o contato gélido
Era um frio de morte
Sussurravam coisas
que eu não podia entender
Noite afora, por todo tempo
Aquilo durou tempo demais
E agora, do mundo das sombras
não consigo mais voltar...

Vera Celms
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domingo, 22 de abril de 2012

CONQUISTADA?


Tenho em mim
Todos os olhares
Desejos, venenos, salivares,
Entregas e viagens
Ardo conforme a musica
Toco-me com a mesma mão
Exponho-me, desejada
Não me basta a tua libido
Não me movem tuas imoralidades
Ainda que doces, ofensas
Preciso, na mesma intensidade,
sentir, ofegar, querer
Faz-me, por um momento,
unicamente necessária
Não gosto de chavões,
mas atitudes
Ajo conforme a reação
Sopre veneno no ar,
com mágico perfume
(a inocuidade é sua)
Inocente inalarei, indefesa
Fugida, fera ferida
Inoculado será,
Antídoto meu, fortalecido e letal
E teu fim será real...

Vera Celms
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segunda-feira, 16 de abril de 2012

QUERENDO VOLTAR



Eu prometo
Chorar menos,
Sentir menos
Olhar mais
Conversar mais com a lua
Sonhar mais com a rua
Espreitar a noite pela janela
Nem que eu surgisse agora
no meio da praça
Cheia de graça
Não seria vista
Ao longo do tempo,
numa insuportável impessoalidade
Penso, só penso
Em como seria bom caminhar
Como seria bom volitar,
Como seria bom abraçar e beijar
Como seria bom voltar
Amigos e amores a voltar
Sonhos e planos a voltar
Voltar a viver lá fora
Voltar a desejar
Viver,
Lutar,
Superar,
Mas hoje, só quero voltar pra casa,
do Pai...

Vera Celms
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domingo, 8 de abril de 2012

UMA CRIATURA NA NOITE



Todos dormiam àquela hora, ou pelo menos achava eu que todos dormiam.
Na sala, em colchões postos no chão, dormiam os menores, não crianças, mas os mais novos.
Estava eu inquieta, ouvia ruídos que não conseguia identificar. No sofá marrom de veludo, perto da porta, rolava eu de um lado pra outro, mas os ruídos me incomodavam pelo desconhecido.
Debrucei meu corpo por sobre o braço do sofá para que pudesse olhar na direção do corredor que dava para o restante dos cômodos.
No meio do corredor, pela pouca luz que vinha da cozinha, via uma sombra no chão, algo de uns 30 centimetros ou um pouco mais talvez. Não identificava o que poderia ser.
Alguém acendeu a luz do hall dos quartos/cozinha o que me ajudou a identificar algo parecido com um grande gafanhoto escuro.
Levantei-me sem muito alarde e fui na direção daquele ser desconhecido.
Já a algum tempo, todos os doces/balas que apoiava sobre o buffet  do hall, desapareciam. Claro, culpávamos os meninos por isso, mas ninguém assumia o fato, por mais evidente que fosse.
Me aproximei do presumido gafanhoto gigante, que de imediato fugiu na direção do hall. Achei que ele fosse voar na direção da cozinha, para sair pela área de serviço ou pela janela do banheiro.
No entanto, pra meu espanto, o tal gafanhoto, sobre duas patas, debruçou-se no buffet do hall e gulosamente abocanhava as balas que eu mesma havia apoiado no móvel quando chegara da rua.
Estaria afinal desvendado o mistério do sumiço dos doces, pelo qual ninguém se responsabilizava?
Haviam varias balas ali, no momento seguinte, só haviam os papeis que as embalava, por todo lado. O presumido gafanhoto empreendeu fuga na direção da cozinha. Voando sem esbarrar em nada.
Na cozinha, do lado esquerdo da porta, havia uma mesa com 4 ou 5 cadeiras  e do lado direito, uma mesinha que apoiava a cafeteira, a longa pia, sob a larga janela de correr, seguida do fogão de 6 bocas, onde minha mãe, naquele momento,  fervia água num grande caldeirão.
O nosso personagem  voou intempestivamente e ao invéz de tomar o rumo da porta que dava para a área de serviço, deu de encontro a parede que ladeava o fogão e entontecido, caiu dentro do caldeirão com água fervente.
Debateu-se em molho e logo conclui que morreria fervido. Minha mãe observou que a água logo tingia-se de vermelho. Sangue?
Antes que pudéssemos concluir qualquer coisa, o nosso personagem conseguiu sair de dentro do molho e já sem asas, apresentou-se como um pequeno  espectro, de forma humana.
Era um pequeno esqueleto de forma humana, recoberto por uma pele cinza esverdeada, que se sugeria fria, com grandes olhos arregalados e um crânio bem arredondado. Sentou-se acocorado na mesinha que normalmente acomodava a cafeteira e ali permaneceu por longo tempo, fitando-me com um ar indefeso e assustado que chegava a causar dó.
Por um momento senti-me um monstro, acuando a pobre criatura, mas de forma segura, abri a larga janela de correr oferecendo liberdade àquela criatura. Ainda disse-lhe: Vai, foge...
Sem demora, sob longas e esqueléticas pernas, com a ajuda dos longos e igualmente esqueléticos braços, a criatura saiu pela janela afora, escalando muros e telhados, desaparecendo na noite, sem que conseguíssemos vê-lo mais.
Aquela noite afinal durou tão pouco. Logo amanheceu e ainda estávamos eu, minha mãe e meu irmão, sentados em torno da mesa da cozinha, calados, questionando silenciosos tudo o que presenciamos.

Vera Celms
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domingo, 1 de abril de 2012

HINO DE MORTE


Agora o cristal estilhaçado
Está por todo lado
Cacos de confiança perdida
Ninguém passa ileso pela violência
O soco dado no ar, desloca o ar
O grito vibra solto, ainda que calado
A ofensa arde na alma e nos ouvidos
A morte desfila fria e solene
Pronta a abraçar e levar
Os bolsos andaram cheios demais
De todas as coisas deixadas pra lá
Na garganta a mão ainda prende a palavra
E os dedos deixam marcas arroxeadas
Não dá mais pra negar hematomas
Visiveis e presentes,
As cores da vida são pintadas a mão,
Se não há atalhos,
Não conhece outros caminhos
Cante...  entoe mantras...
até inventar um hino, de morte
E continue cantando até fazer a passagem.

Vera Celms
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Spiritual Flute: The Beauty of Nature

O amor e o poder (Como uma deusa) - Rosana Fiengo