domingo, 25 de março de 2012

BRILHANTES NA ESCURIDÃO


Estrelas vigiam
Guardam as noites
Testemunham namoros, gozos, orgias
Emergências, atrocidades, tragédias
Lua cheia, nova ou  minguante
Bruxaria branca e negra
Feitiçarias, assombrações e magias
Estrelas sempre vigiam
De tudo sabem
Nada contam, tudo vêem,
Confabulam,  brincam, brilham
Circulam, a lua rodeiam
Aos andarilhos norteiam
Solitárias ou em constelações
Reflexos navegam nos mares
Destinos em malabares
Estrelas sempre brilham
Iluminam a vida e a morte
Caminhos de azar ou sorte
De amor e sofreguidão
Estrelas; só brilham na escuridão

Vera Celms
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domingo, 18 de março de 2012

ALÉM DO ESPELHO


Mascaras dos espelhos
Aonde esconderam minhas faces?
Não conheço mais meus olhos
Não vejo mais meus lábios
Minhas defesas bateram no chão
O fundo da minha imagem enegreceu
Hoje vejo a moldura rachada
O espelho craquelado amarelou
Já não há reflexo de sol
Vejo um farol que vem ao longe
Ameaçada me escondo
Agaichada procuro a sombra
Onde sombra não há,
Nada que denuncie minha presença
Permaneço quieta, muda e cansada
Ninguem que me queira ver
Ninguém que consiga me sentir
Não tenho mais pulso,
Nenhum palpitar
Atravesso a vida, anônima,
Já não sei mais nem de onde,
nem porque vim,
Não sei o que faço aqui,
Curiosa, atravessei o espelho,
e não soube mais voltar
Não quero mais,
nem voltar, nem prosseguir,
Se alguém pudesse me contar
Como é partir,
Sem ter onde chegar...

Vera Celms
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domingo, 11 de março de 2012

NUNCA MAIS


De repente o chão foi se abrindo
Deixando o calor escapar
As luzes foram ficando intensas
E o horizonte cobriu-se de brasas
Vivas, incandescentes, vorazes
Num momento a terra era terra
No seguinte, a terra era fogo
Que aquecia o ar
Deixando irrespirável, invisível
As retinas queimadas
A pele ardendo
Num momento eu era uma mulher
No seguinte eu era fêmea
do mais profundo solo
das chamas, do inferno...
Meu pensamento já não era humano
Meu aspecto não era humano
Num momento eu andava sobre a terra
E fugia do perigo
No seguinte, eu desafiava todas as coisas
Em voos rasantes ou rastejando
O ar cheirava a enxofre
O céu agora era uma imensa massa acinzentada
E as densas partículas de lavas
Formavam uma espécie de chuva,
mais parecendo nuvem de insetos
Nada era mais como era
Aos poucos, meus olhos se fecharam
Entregando-se ao profundo sono
E senti-me ser levada por imensos seres alados
Dragões, demônios, não sei...
A Terra, nunca mais...

Vera Celms

domingo, 4 de março de 2012

CORONEL DE TERRA

 Homem de muita terra
De toda razão também
Laçava e chicoteava
Ignorava e pisoteava,
a quem não lhe alcançava o poder
Submisso é submisso
Capataz, matuto, vaqueiro
Ninguém lhe ousava contrariar
Em todo seu poder, mandava matar
A arrogância lhe mandava judiar
De saúde um leão
De maldade um capeta
Corpo fechado e guarda aberta
Um dia adoeceu sozinho
E já que ninguém amava
Ninguém também lhe cuidou
Emagreceu, enfeiou, definhou
Mal podia parar em pé,
Não sabia falar baixo,
Homem de pouca fé,
Chicote e garrucha a mão,
Faca na bota, punhal na cinta
No fundo, sabia que logo ia partir
Foi até a porteira fechar
Virou pra trás pra olhar o que era seu
E ali mesmo morreu
Não se despediu de nada, nem de ninguém
Não houve tempo, foi pro além...
Falta não faz não,
Saudade não deixou também
Deixou uma história triste
Cheia de mágoa e ódio
Homem de muita terra
E pouca fé...

Vera Celms
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