domingo, 26 de fevereiro de 2012

A SOLITUDE DO SOZINHO



Gostava da sombra
De dias nublados
Negras nuvens
Carregadas de eletricidade
Excitava-se com a tempestade
Ventania, raio, trovão
De dia dormia
Vagava na noite
Gostava da solitude
Como estado alma
Andava sozinho
Vivia sozinho
Amava-se sozinho
Aprendeu que ser sozinho
não é ser solitário
Uma noite acordou sem voz
E nem notou
Outra noite acordou sem ver
E voltou a dormir,
Achou que sonhava
Trancou as portas de casa
Fechou as janelas
Puxou o plug da tomada do mundo
com o pé, sem querer,
e nem viu
Como nada mais via, dormiu
Sentia o peito pesado
O coração calado
Mas como não via
o aço da armadura não lhe cabia
Esbarrou sem querer na clava
Sem nem saber da sua companhia
Doeu-lhe, mas sangue não mais saía
Estranhou, olhou,
Aceitou a condição, só não sabia
Há quanto tempo morria...

Vera Celms
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O trabalho A SOLITUDE DO SOZINHO de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

SEM PERDÃO


Trago nas mãos
o sangue de tantas historias
Tantos gritos de socorro
ainda estão nos meus ouvidos,
que deste mundo nada conhecem
Tantas visões sangrentas
assombram minhas noites
Memórias que preciso esquecer
Não conto a ninguém meus horrores
Permaneço em silencio
Todo o tempo
Foram ceifadas minhas palavras
Fecho os olhos para não ver
Mas o que me cercam são pesadelos
Meus olhos foram cegados
Jamais saí do meu leito,
mas minhas digitais estão por todo lado
Todos se compadecem de mim
Tratam-me por isento
Entendem-me em semi-coma
Nada vejo, não escuto,
Não me movo
Não posso me perdoar
Já que não me foi dado o direito
de esquecer, de apagar,
tudo o que em outras vidas fiz...
Fui algoz, torturador,
Assassino, chicoteador,
Fui eu que tantas vezes soltei a lâmina
Em torno de mim,
Tantas cabeças me olham
Pedem clemência,
Pedem perdão...


Vera Celms
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domingo, 12 de fevereiro de 2012

O SONO DE JOÃO E MARIA


 
Tantos perigos
Tantos decretos da vida
As tragédias se espalham
Por todo lado
Por tantas famílias
Tantos amores separa
A estiagem, o frio e o calor
A seca, um horror
A chuva que cai abundante
chegando pra ficar,
Cobre de água todas as coisas
As casas, as rotas de fuga
Tudo levado na correnteza
No barro, na enxurrada,
E afogado, o coração
Faz desfalecer Maria e João,
Que só queriam se amar
O fogo toma outro  barraco
De outros, João e Maria
Dos barracos que brotam
na necessidade, por todo lado
Sem água e sem luz
Joãzinho com medo de escuridão
vela acesa espanta o monstro
Que sai debaixo da cama
E pula pela janela
Fazendo vento, que tomba a vela
Lançando a chama que tudo toma
Berço, cortina, colchão
E tudo o mais que encontrou pelo chão
E no fogo ficaram dormindo
João, Maria e Joãozinho...
Todos agora acordarão no céu...

Vera Celms

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

ESTEREÓTIPO DO MAL


Pagã, idolatra,
Tenho um deus
Varias crenças
Acreditar?
No claro e no escuro
Não cubro meus espelhos
Não escondo as imagens
Não negligencio meu altar
Não nego a mão
Não ofereço colo,
Meu ombro é farto
e pode ser fatal
Não sou alguém que se busque
Não tenho um conselho pra dar
Meu exemplo é falho
Segura, assertiva, confiável
Franca
Não conheço palavras gentis
As que ofereço não recomendo
Vago nua nas madrugadas insones
Meu oficio é fixar as placas,
não decodificá-las, nem revelá-las
Amar, me faria vulnerável
Minhas coxas já foram visitadas
Minhas entranhas não
Conhecem a sensação não a emoção
Meu sangue arde venoso
Meu beijo é letal
As velas na encruzilhada,
apago-as com a mão
Sou o estereótipo do mal
No meio do nada...

Vera Celms
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