domingo, 22 de janeiro de 2012

ALMA SOCORRISTA


Quitéria tinha gostos estranhos.
Acordava sempre de bom humor. As vezes, mas só as vezes, sentia tristeza, e não sabia porque, nada acontecia que justificasse, mas era uma tristeza de sentir dó de si mesma.
Quando estava assim, procurava caminhar, sozinha.
Adorava dias nublados, prenúncios de tempestade, ambientes sinistros, cemitérios, velórios, hospício, enfim, gostava de tudo o que afasta normalmente as pessoas.
Quando estava triste, procurava por esses lugares, parecia aprofundar-se, sentir as coisas mais amplamente, como se viajasse para lugares densos e distantes...
Certo dia, resolveu entrar num velório. Chovia lá fora, trovejava, o dia estava frio. Sentou-se num cantinho e acabou cochilando. Acordou e notou que estava sonhando com o morto.
Era um sonho tão real. O morto, cujo nome era Adélio, perguntava porque ela estava tão triste, e ela contava a ele que também não sabia, que sentia-se assim vez ou outra e que, apesar de tudo, gostava de sentir-se assim, por isso procurava ficar sozinha.
Adélio então disse que sabia o porque isso acontecia, pois acontecia com ele também. Ela tinha uma ligação muito forte com o mundo dos mortos, da mesma forma que ele, e toda vez que alguém morria sozinho, abandonado, ou triste, ela recebia essa mesma tristeza e acabava por procurar lugares lúgubres, onde essas almas encontravam nela companhia e um certo alento.
Ela sentia que isso podia ser real, pois sentia-se tão bem em lugares como esses e quando ia embora, não se sentia mal, mas com a sensação de missão cumprida, e dia seguinte, acordava muito bem. Os dias que se seguiam era de uma felicidade grande, meio incontida, uma espécie de gratidão.
Nunca acontecera de adormecer num lugar assim, e muito menos, acordar com a lembrança clara e fresca de um sonho. Sentira como se tivesse sido descoberta, como se todos ali presentes a observassem.
Dias depois, sonhou com Adélio, que agradecia muito pela oportunidade que tivera de conhecê-la, de conversar com ela, pois ninguém lhe dava atenção, todos só choravam, como se ele não existisse.
Na sua casa também, não recebia mais atenção de ninguém. Estava tão preocupado, achando que todas as pessoas estavam tão bravas com ele, e ele não havia feito nada a ninguém. Precisava entender o que estava acontecendo. Adélio estava bastante triste e inconformado.
Quitéria, durante o sonho lhe contou o que havia acontecido. Que havia entrado num velório, que o corpo que estava sendo velado ali era o seu e que sonhara com ele enquanto cochilara, ou seja, que se encontraram pela primeira vez durante um sonho ocorrido no seu próprio velório.
Adélio, bastante assustado, começou a chorar copiosamente, dizendo que começava a entender o porque das coisas, mas que não sabia até então que havia morrido. Não se lembrava como morrera, nem o que havia acontecido, mas que contava com a ajuda dela a partir de então, para encontrar o caminho. Quitéria então acordou.
Pela primeira vez ela sentiu medo dos seus momentos tristes, entendendo que fazia o papel de socorrista dos mortos. Tinha medo de adormecer de novo, de sonhar de novo, de conversar de novo com os mortos, mas entendia ser uma capacidade que nem todo mundo tem e por isso, fugir, não seria uma opção.
Os sonhos continuam acontecendo normalmente, conversa com pessoas desconhecidas durante o sono, entende que talvez sejam pessoas mortas. Nos momentos de tristeza agora, vai aos mesmos lugares ainda, consciente agora do que deve fazer, do que deve dizer, de qual é o seu papel.
Além de todos os lugares que costumava ir, procurou também um Centro Espírita, sabedora da sua possibilidade de amparar almas tristes e aflitas. Só não se apercebeu, ou nunca se perguntou, de que lado dessa história ela se encontra?


Vera Celms
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