segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

NA MIRA

Lanço um olhar sobre a vida
Tangenciando pontes
Entre o passado e o presente
Não acredito em deuses
Não confio na providência
Nem em coincidência
Não vejo o mundo como saída
Mas, o meio de um grande conflito
Um campo de guerra
Onde negras forças dominam
Pensamentos
Movimentos
Argumentos
Onde os otimistas
São lutadores sem armas
Em meio a um tiroteio
Não há onde esconder-se
Proteção é divina
Num mundo sem deuses
Só acreditar é pouco
É necessário mais
Imaginação
Criatividade
Talento,
Ainda que seja para fingir-se morto
Para simular jogos
Para não subjugar o inimigo
Para não parecer tão forte
Afinal, para ser rei numa terra comum
Não é preciso muita coisa
Um só olho
Um só dente
Uma só estratégia
Uma só saída
E tudo estará perdido
Na linha do tiro


Vera Celms
Licença Creative Commons
O trabalho NA MIRA de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 22 de janeiro de 2012

ALMA SOCORRISTA


Quitéria tinha gostos estranhos.
Acordava sempre de bom humor. As vezes, mas só as vezes, sentia tristeza, e não sabia porque, nada acontecia que justificasse, mas era uma tristeza de sentir dó de si mesma.
Quando estava assim, procurava caminhar, sozinha.
Adorava dias nublados, prenúncios de tempestade, ambientes sinistros, cemitérios, velórios, hospício, enfim, gostava de tudo o que afasta normalmente as pessoas.
Quando estava triste, procurava por esses lugares, parecia aprofundar-se, sentir as coisas mais amplamente, como se viajasse para lugares densos e distantes...
Certo dia, resolveu entrar num velório. Chovia lá fora, trovejava, o dia estava frio. Sentou-se num cantinho e acabou cochilando. Acordou e notou que estava sonhando com o morto.
Era um sonho tão real. O morto, cujo nome era Adélio, perguntava porque ela estava tão triste, e ela contava a ele que também não sabia, que sentia-se assim vez ou outra e que, apesar de tudo, gostava de sentir-se assim, por isso procurava ficar sozinha.
Adélio então disse que sabia o porque isso acontecia, pois acontecia com ele também. Ela tinha uma ligação muito forte com o mundo dos mortos, da mesma forma que ele, e toda vez que alguém morria sozinho, abandonado, ou triste, ela recebia essa mesma tristeza e acabava por procurar lugares lúgubres, onde essas almas encontravam nela companhia e um certo alento.
Ela sentia que isso podia ser real, pois sentia-se tão bem em lugares como esses e quando ia embora, não se sentia mal, mas com a sensação de missão cumprida, e dia seguinte, acordava muito bem. Os dias que se seguiam era de uma felicidade grande, meio incontida, uma espécie de gratidão.
Nunca acontecera de adormecer num lugar assim, e muito menos, acordar com a lembrança clara e fresca de um sonho. Sentira como se tivesse sido descoberta, como se todos ali presentes a observassem.
Dias depois, sonhou com Adélio, que agradecia muito pela oportunidade que tivera de conhecê-la, de conversar com ela, pois ninguém lhe dava atenção, todos só choravam, como se ele não existisse.
Na sua casa também, não recebia mais atenção de ninguém. Estava tão preocupado, achando que todas as pessoas estavam tão bravas com ele, e ele não havia feito nada a ninguém. Precisava entender o que estava acontecendo. Adélio estava bastante triste e inconformado.
Quitéria, durante o sonho lhe contou o que havia acontecido. Que havia entrado num velório, que o corpo que estava sendo velado ali era o seu e que sonhara com ele enquanto cochilara, ou seja, que se encontraram pela primeira vez durante um sonho ocorrido no seu próprio velório.
Adélio, bastante assustado, começou a chorar copiosamente, dizendo que começava a entender o porque das coisas, mas que não sabia até então que havia morrido. Não se lembrava como morrera, nem o que havia acontecido, mas que contava com a ajuda dela a partir de então, para encontrar o caminho. Quitéria então acordou.
Pela primeira vez ela sentiu medo dos seus momentos tristes, entendendo que fazia o papel de socorrista dos mortos. Tinha medo de adormecer de novo, de sonhar de novo, de conversar de novo com os mortos, mas entendia ser uma capacidade que nem todo mundo tem e por isso, fugir, não seria uma opção.
Os sonhos continuam acontecendo normalmente, conversa com pessoas desconhecidas durante o sono, entende que talvez sejam pessoas mortas. Nos momentos de tristeza agora, vai aos mesmos lugares ainda, consciente agora do que deve fazer, do que deve dizer, de qual é o seu papel.
Além de todos os lugares que costumava ir, procurou também um Centro Espírita, sabedora da sua possibilidade de amparar almas tristes e aflitas. Só não se apercebeu, ou nunca se perguntou, de que lado dessa história ela se encontra?


Vera Celms
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domingo, 15 de janeiro de 2012

GUARDANDO O PASSADO


Ruidos da minha alma
Rangidos das portas
Caminhos antigos, já impedidos
Olhares ressentidos guardados nos cantos
Cantos obscuros
Histórias impróprias
Incontáveis fatos
Lembranças já destruídas
Erros consentidos
Toques proibidos
Não vou prosseguir
Não vou conseguir
A luz as minhas costas
Me permite ver só minha sombra
Curvada, escondida, distorcida
Não há mais caminhos
Não há mais porquês
Depositei em teus olhos meu ultimo olhar
E você o cegou
Despeço-me então do presente
Para guardar nosso passado,
ainda que seja na história


Vera Celms
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domingo, 8 de janeiro de 2012

FORÇAS OCULTAS

Há muito mais camuflado
Escondido entre as flores
até de um funeral
Há tantas palavras rudes
Entre mil bajulações
Entre cordialidades aparentes
São tapas,
Ainda que disfarçados por luvas de pelica
Forças do mal são ofensas
Maledicências,
Acusações, vociferações
Picuinhas e falar demais, é sempre demais
Manter aparências apesar de bem não querer
Força do mal é inveja,
Força do mal é morder o pé
Enquanto a cauda balança
Força do mal é fazer caridade,
com chapéu alheio...
ou só pra “inglês ver”...
Força do mal é berrar quando se devia uivar...


VERA CELMS
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

PASSANDO PELO TEMPORAL

Fim de noite,
Meus passos, ouço-os sozinhos,
Na alameda deserta, sem rumo,
O vento corre atrás de meus pés,
Ameaçando pegá-los
E brincalhão os ultrapassa no caminho
As folhas e um papelzinho perdido
Brincam de pegar rua acima
Num instante, as luzes publicas que divertiam-se
com as cenas tão infantes
Se fecham carrancudas,
Fazendo-me notar que a chuva se aproxima
Na escuridão, apressada
Uns clarões de raios se apresentam prontos
Travando entre si, um murmurinho nervoso
que amedrontador se intensifica
sem aceitar argumentação
O vento então ameaçado,
inicia uma corrida nervosa e tensa
Tudo voa pelos ares, descontroladamente
A tempestade é iminente
É um salve-se quem puder
Em todas as direções
Os poucos seres que até agora estavam ocultos
Passam a fazer parte da rota de fuga
Sem mais adiamentos,
Os primeiros avisos da chuva começam a cair
Grossas gotas de chuva,
Caem como tapas sobre a pele e a calçada...
No momento seguinte,
A chuva desaba como uma avalanche
Que escondida, se apresenta valente
A falta de luz, os clarões de raios,
Formam um conjunto assustador
O que antes era um nervoso resmungo
Já é uma gritaria de cá e de lá,
Sem nenhum controle
Os raios cortam os céus, luminosos e barulhentos
Um parece ter caído logo ali, tamanho o estrondo
Outro parece ter caído na direção oposta
Já não sei mais se procuro me esconder
Ou se procuro correr em qualquer direção
Tudo parece perigoso
De repente sinto um tranco
Acordo caída no chão,
Roupa toda encharcada, entontecida
O temporal passou
E parece ter passado por dentro de mim
A pulsação descompassada, a tontura
Mostram que fui um alvo da fúria da natureza...
Ainda sobre os escombros de mim... desabada...


VERA CELMS
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