domingo, 16 de outubro de 2011

ESQUECIDA

No quarto escuro
Sem janelas, sem ventilação,
O mesmo cheiro de ontem,
De anteontem,
O mesmo cheiro do tempo guardado
O mesmo cheiro que traz a ânsia
Da liberdade
Da fuga
Da compreensão
Do corpo... a ânsia...
O tempo já havia corrido demais
Para que ela pudesse alcançar
Mensurar
Dimensionar
Chegava a ter saudade de si
Mal lembrava sua identidade
Mal lembrava de onde viera
Onde nascera,
Por que estava ali
Cárcere, masmorra
Tumulo, onde lhe residia a vida
A pouca vida
Sem forças, sem idéias
Sem ideais ou esperanças
Os motivos não sabia
Jamais soube
A mesma roupa, já tão suja
Não sabia mais o que lhe incomodava mais
O cheiro do lugar imundo
Ou seu próprio cheiro
Sentia-se um espectro
Um farrapo
Talvez o que fosse, nada mais
Não podia ter outro nome
Dividia com os roedores o parco alimento
A pouca água da chuva, onde pousavam os insetos
Por que ela? Por que ali? Por que aquilo?
Sair? Já não sabia mais
Nem mais pedia liberdade nas suas orações
E nunca, nem aprendeu a rezar
Conversava com seus deuses,
que habitavam dentro de sua pouca consciência
Impossível existir um único Deus,
Seria desumano culpá-lo
Mas desumano culpar-se
Não sabia dos motivos de estar ali
Agora, só lhe restava pedir, suplicar
A morte...

Vera Celms

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O trabalho ESQUECIDA de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

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