domingo, 30 de outubro de 2011

LABÉU

Defendi-o por todo o tempo
Calunias, desditos, difamações,
Tanto descrédito,
Eu confiei, por todo o tempo,
Enfrentei trovoadas, raios,
Ameaças de temporais,
até ventanias... inerte...
Enfrentei cães nervosos
Desentupiria o esgoto transbordante
dos invejosos, sem que me pedisse
Incrédula, me fiz de paisagem,
Um manequim emborrachado
Que usavas como escudo
Quanta lenha!
Apedrejada, por pouco esquartejada,
Envidracei tua imagem
para que ninguém a tocasse,
Você era meu... só meu...
O tempo não foi o bastante,
Os reflexos que vinham de ti,
não me convenceram
Precisei chegar aqui,
Pra reconhecer teu corpo,
Agora livre das culpas, como nunca!
Soube de todos os passos indevidos
De uma só vez, pelos jornais,
Na TV, não se fala em outra coisa
Vejo-te em todas as edições
Televisivas e escritas
Agora sei do quanto eras torpe
O tamanho da tua mácula
Protegi um anjo que eu amava
E reconheci o corpo de um monstro, que ocultava...

Vera Celms

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domingo, 23 de outubro de 2011

FANTASMAS NÃO EXISTEM

Baixa a névoa sobre a madrugada
Frio... solidão,
Todas as noites, a mesma hora,
Vem a névoa; denso pesar da desistência,
Não adianta resistir, nem tentar...
Lutar nem pensar,
Então me vem a vontade louca de voltar
Pra casa...
Caminho soturna, sob a densa névoa
Sei que a única entrada é pelo jardim
Por entre as tulipas amarelas...
Não adianta gritar, nem espenear
Não adianta relutar
Entrego-me a mordaça do tempo
Relego-me a insignificância que os anos trazem,
Pouco a pouco, passo a passo,
Por espaços que meus passos não mais alcançam,
La fora...
Ninguém vê.... nem eu; só sinto...
E por menos que eu acredite em fantasmas,
Tenho certeza que eles acreditam
e põem fé em mim...
É assim que prossigo...

Vera Celms

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domingo, 16 de outubro de 2011

ESQUECIDA

No quarto escuro
Sem janelas, sem ventilação,
O mesmo cheiro de ontem,
De anteontem,
O mesmo cheiro do tempo guardado
O mesmo cheiro que traz a ânsia
Da liberdade
Da fuga
Da compreensão
Do corpo... a ânsia...
O tempo já havia corrido demais
Para que ela pudesse alcançar
Mensurar
Dimensionar
Chegava a ter saudade de si
Mal lembrava sua identidade
Mal lembrava de onde viera
Onde nascera,
Por que estava ali
Cárcere, masmorra
Tumulo, onde lhe residia a vida
A pouca vida
Sem forças, sem idéias
Sem ideais ou esperanças
Os motivos não sabia
Jamais soube
A mesma roupa, já tão suja
Não sabia mais o que lhe incomodava mais
O cheiro do lugar imundo
Ou seu próprio cheiro
Sentia-se um espectro
Um farrapo
Talvez o que fosse, nada mais
Não podia ter outro nome
Dividia com os roedores o parco alimento
A pouca água da chuva, onde pousavam os insetos
Por que ela? Por que ali? Por que aquilo?
Sair? Já não sabia mais
Nem mais pedia liberdade nas suas orações
E nunca, nem aprendeu a rezar
Conversava com seus deuses,
que habitavam dentro de sua pouca consciência
Impossível existir um único Deus,
Seria desumano culpá-lo
Mas desumano culpar-se
Não sabia dos motivos de estar ali
Agora, só lhe restava pedir, suplicar
A morte...

Vera Celms

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domingo, 9 de outubro de 2011

A CERCA

Com os portões fechados
Difícil ultrapassar a cerca
Eletricidade em toda a extensão
Cães vigiam, furiosos
Talvez famintos, como eu
Nada conseguirá distraí-los
A não ser o mesmo pedaço de alimento
Que me demoveria da idéia de transpor a cerca
Rezar não me acalma o estômago
Talvez se morresse,
Morrer não me acalma a alma
Meio passo entre a valentia e a coragem
Entre o saciar e o ser saciado
Incomodam-me meus pensamentos
No que mais posso pensar,
Que fique entre eu e o inimigo?
Entre nós, a cerca, intransponível
E nada capaz
Nada voraz o suficiente
É deprimente
Sentar e esperar
O tempo passar
O dia acabar
Nenhuma idéia, nenhum plano,
Talvez o inimigo desista
Quem sabe adormeça
Ou eu enlouqueça
Antes de desistir
Ou sucumbir...

Vera Celms

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domingo, 2 de outubro de 2011

CONTA A HISTÓRIA


Sua lembrança, hoje é só história,
De momentos tão amargos do passado
Imagens, que devem doer em ti também
No momento em que devias plantar
Só querias amealhar sementes
De todos os lados, de todas as fontes
Quanta semente não negou aos teus pares?
Guardaste tanto, que teu futuro amanheceu mofado
Não houve braço suficiente para carregar vida a fora...
Te importaste tanto em ter!
O futuro foi ficando para amanhã...
e para amanhã de novo...
Foram tantos adiamentos, que tempo não houve mais,
Tua história hoje é lição,
Conta-se de um homem,
Que não construiu, nem abrigo nem celeiro
Que não plantou, nem pro seu próprio sustento
Que usou seu tempo, só pra acumular tempo
E que morreu, pobre, triste e avarento...
Assim, conta a história...

Vera Celms

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