domingo, 11 de setembro de 2011

GRITO NA MADRUGADA


Madrugada fria silenciosa
Sussurra pela janela um psiu mansinho
Espreita, olha pra dentro, se insinua
Como se montasse tocaia,
O ar frio da noite entra pela fresta da janela
Estapeando o rosto como um chicote
As mãos e os pés gelados,
Arrepios percorrem o corpo, calados
Fazendo com que quase abrace a mim mesmo
A rua está vazia,
A exceção do guarda noturno, tão sofrido
De repente um gato pula de um telhado para outro
Do décimo terceiro andar, como intrusa
Flerto com a lua, deixando-a me ver
Tudo calmo, muito calmo,
De repente, um grito horrendo corta a madrugada
Um grito de horror, um grito de tamanha dor
Que sinto um calafrio percorrer-me a coluna
Olho para todos os lados, nada vejo
Tudo continua inerte,
A rua permanece vazia,
E agora aquele grito fica ecoando nos meus ouvidos
Como se fosse um eco da noite
Aquilo era mais que um grito de dor,
Parecia um grito de morte
Nas redondezas os cachorros uivam,
Como lobos famintos,
Outros latem, ladrando sem parar
Não sei o que esperar
De imediato fecho as cortinas
Como se de aço fossem
Na parca ilusão de que tranquei a realidade pra fora,
Sem demora vou me deitar,
Cubro até a cabeça, como se me escondesse
Ilusão! Não consigo dormir
Fico na cama, virando de um lado pra outro
Até o amanhecer,
Saio do prédio bem cedo
E assim que dobro a esquina,
Está lá um corpo ensangüentado,
Estendido no chão, coberto por jornais
Na fria manhã de inverno,
Confessando solidão,
Puro anonimato...
Ninguém sabe, ninguém viu,
Logo virá o rabecão
Enquanto isso, os policiais tentam,
Afastar os curiosos...
Ninguém se afasta, todos querem saber
De quem era aquele corpo,
Agora gelado, ensangüentado,
Coberto ali, isolado do mundo,
Já sem culpa, já sem história,
Sem nenhuma explicação...
O dono de mais um  grito na madrugada...

Vera Celms

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