domingo, 25 de setembro de 2011

LOUCA

Aberta a alcova do silencio
Profundo recanto escondido, escuridão
Masmorra de emoção
Calabouço do prazer
Cenas passando pelos meus olhos
Slow motion, transe, embriaguez,
Tudo tão confuso
O mundo inteiro, num minuto
Difusão de sensações
Confusão de sentimentos
Tudo o que eu imaginava certo
Num repente mudou de lugar
Tão difícil me encontrar
Impossível entender
Estroboscópio, éter, alucinação,
Estremeço, aconteço, enlouqueço,
Aberta afinal, a alcova do silencio,
Óculos lunares, armaduras medievais
Mudos robôs, loucos samurais,
Bucólicas lembranças, viagens siderais,
Dualidade de momentos, instantes irreais
Mas, do silencio, em todos os compartimentos
De saudade, apertado, ainda batia um coração...

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra LOUCA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 18 de setembro de 2011

CHORA MADRUGADA


Vento de tempestade
Aliciando a noite calma
Sussurros, se formam entre as folhas
Que secas, caíram do outono
Os galhos se envergam a cada lufada
Trazendo urgência a madrugada
Vento de tempestade
parece puxar pra perto,
A manhã, que o temor empurra pra longe
Ouço-o uivando pelas frestas
Na ânsia de varrer o sossego
Ribombam trevosos trovões
Rasgam o céu. cortantes raios
Que sob os próprios holofotes
Desafiam a coragem,
deixando ver, impunes,
A madrugada descabelada e atônita,
Vento de tempestade
Acelera meu peito
Ofega minha respiração
Encharcam minhas mãos de transpiração
Levo meu pensamento pra longe
E depressa, a força do vento, o traz bem perto
Ou tampo os olhos ou os ouvidos
Cubro os espelhos
Afasto-me dos metais
A tempestade vem chegando
A chuva aos poucos vai molhando
Chega como uma cortina
Fechando, isolando a madrugada
Que chorando, não consegue acabar...

Vera Celms

domingo, 11 de setembro de 2011

GRITO NA MADRUGADA


Madrugada fria silenciosa
Sussurra pela janela um psiu mansinho
Espreita, olha pra dentro, se insinua
Como se montasse tocaia,
O ar frio da noite entra pela fresta da janela
Estapeando o rosto como um chicote
As mãos e os pés gelados,
Arrepios percorrem o corpo, calados
Fazendo com que quase abrace a mim mesmo
A rua está vazia,
A exceção do guarda noturno, tão sofrido
De repente um gato pula de um telhado para outro
Do décimo terceiro andar, como intrusa
Flerto com a lua, deixando-a me ver
Tudo calmo, muito calmo,
De repente, um grito horrendo corta a madrugada
Um grito de horror, um grito de tamanha dor
Que sinto um calafrio percorrer-me a coluna
Olho para todos os lados, nada vejo
Tudo continua inerte,
A rua permanece vazia,
E agora aquele grito fica ecoando nos meus ouvidos
Como se fosse um eco da noite
Aquilo era mais que um grito de dor,
Parecia um grito de morte
Nas redondezas os cachorros uivam,
Como lobos famintos,
Outros latem, ladrando sem parar
Não sei o que esperar
De imediato fecho as cortinas
Como se de aço fossem
Na parca ilusão de que tranquei a realidade pra fora,
Sem demora vou me deitar,
Cubro até a cabeça, como se me escondesse
Ilusão! Não consigo dormir
Fico na cama, virando de um lado pra outro
Até o amanhecer,
Saio do prédio bem cedo
E assim que dobro a esquina,
Está lá um corpo ensangüentado,
Estendido no chão, coberto por jornais
Na fria manhã de inverno,
Confessando solidão,
Puro anonimato...
Ninguém sabe, ninguém viu,
Logo virá o rabecão
Enquanto isso, os policiais tentam,
Afastar os curiosos...
Ninguém se afasta, todos querem saber
De quem era aquele corpo,
Agora gelado, ensangüentado,
Coberto ali, isolado do mundo,
Já sem culpa, já sem história,
Sem nenhuma explicação...
O dono de mais um  grito na madrugada...

Vera Celms

domingo, 4 de setembro de 2011

DOCE CRIANÇA

Resolvi te buscar,
Afinal buscamos a tantos desconhecidos
Encontramos outros tantos,
que nem procuramos
Te procurei em lares iluminados,
Em escolas edificadas
Em obras edificantes
Procurei-te pelos parques,
Atravessei campos de futebol,
Quadras de esportes, piscinas,
E não te encontrei
Atravessei Museus, Bibliotecas,
Cinemas e teatros,
Buffets, clubes, discotecas,
Também não te encontrei
Atravessei pomares, sítios, fazendas
Palácios, mausoléus, monumentos,
Perguntei então a varias pessoas,
Influentes, até autoridades...
Vereadores, deputados, prefeitos,
Governadores, diplomatas, senadores, presidentes,
Mas, ninguém soube nada dizer,
Ninguém soube, ninguém viu...
Atravessei cidades, estados, países...
Cruzei Sinagogas, Igrejas, Templos,
E lá, me falaram de orfanatos,
Mas, estavam todos vazios
Encontrei lá, caixas e mais caixas fechadas,
com um cheiro forte de deterioração,
Nada, nem ninguém mais...
Então, parei, fechei os olhos, orei,
Pedi forte ajuda ao Céu...
Abri os olhos e diante de mim uma estrada se abriu
Pus o pé a passo
E ao longo da estrada te encontrei...
CRIANÇA, quanta CRIANÇA!!!
Deitadas sobre a poeira do tempo
Deixadas pelo caminho
Uma ou outra cuidada por magras,
tão magras mãos maternas
Vigiada por olhos tão fundos
Apoiadas por paternas faces tão encovadas
Por corpos judiados, calejados e feridos
Dividindo espaço com insetos
Voadores e rastejantes seres
Disputando com eles até a umidade do olhar
Até o rarefeito ar não bastando a todos,
até por carregar pesadas pútridas partículas
A esperança por um fio, já roído
E o tempo, o único que ainda se move,
Ameaçando parar a qualquer momento
Passo, vejo e não consigo acreditar
Não quero, não posso e não vou aceitar...
A fé, vai de corpo em corpo, incansável,
Derramando uma única gota d´agua,
na língua da franzina vida,
Sou um fantasma correndo pelos caminhos
Incrédulo, estupefato, indignado, horrorizado
Não sinto ter o direito nem de chorar,
Não tenho nas mãos nem a água, nem alimento,
Que me garantiram, chegarão amanhã, (...)
Trouxe aqui, somente as coisas
Que todos aqueles que cruzaram meu caminho até aqui,
Não puderam reter para entregar de uma só vez, (...)
Minha humanidade, minha fé,
Minha palavra, em poesia e oração,
Minha energia vital,
Que dôo total e francamente ao plano espiritual
Para que os Socorristas usem como remédio,
curativo, alimento das almas tão cansadas,
por interseção de Deus...
Deixo também, minha promessa franca,
de que tudo farei, para que haja pelo menos respeito,
Por tudo aquilo que a ti não veio,
Não vamos atribuir culpas,
Mas buscar a responsabilidade, de quem possa,
Ainda que não resolver, mas indicar o caminho
Que permita reencontrar teu olhar...
Já tão distante, tão ausente, que tanto implora...
Deus, tende piedade!!! São só CRIANÇAS!!!

Vera Celms

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