domingo, 26 de junho de 2011

LINHA DE CHEGADA

Sentado ao longo da via
Não sei por que me toma
Tão enorme, agigantada tristeza
Tento me lembrar de cada momento
Me situar,
Mas o que me lembro são fragmentos confusos
Não de momentos,
Mas de uma vida toda
Vejo risos, comemorações
Vejo chegadas e partidas
Vejo gente, lugares,
Por que choro tanto?
Compulsivo... incontrolável,
Descontrolado como o turbilhão de imagens
Que giram desordenadamente na minha visão
Vejo gente rindo, mas vejo gente morta
Morrendo
Vejo lugares lindos, mas vejo escombros mal definidos
Ruindo
Um coquetel de sensações, emoções, sentimentos
A dor é incontável, imensurável,
O único rosto indecifrável,
Deve ser o meu
Sinto meu rosto encharcado entre as mãos
Copioso é meu choro,
Afasto as mãos para olhar em volta
E vejo que meu pescoço e peito estão molhados
De sangue,
Estou encharcado de sangue
Tudo em mim
A minha volta,
O sangue está por toda parte
Já não consigo mais coordenar nem as lembranças
As imagens se confundem
São flashes que pululam incessantes
Olho em volta e entendo,
Meu corpo preso as ferragens, sangra
De encontro ao poste de luz
Meu rosto indecifrável,
É uma massa irreconhecível,
De carne e sangue, que repousa inerte
Contra o volante
E eu, sentado ao longo da via,
Em choro compulsivo, assistindo a tudo
Desolado...

Vera Celms

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A obra LINHA DE CHEGADA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 19 de junho de 2011

VULNERAVEL


Choro compulsivo
Que relaxa por cansaço
E conforta, e acalma
Enquanto dorme
Não se sabe por que, mas
A vida por um triz
Tudo corre perigo
Olhares medrosos
Atitude pouca
Exclusão
Situação de medo
De angustia
De sofreguidão
A ameaça ronda constante
Mas, do que se ameaça um inocente?
Alguém que se sente transparente
Senão pela exposição,
Pela vulnerabilidade
Fracos contra fracos
Quem se impõe acha que pode
Afinal, quem sente que pode, acaba podendo,
E quem pode mais, chora menos
Choro compulsivo
Que relaxa por cansaço...

Vera Celms

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A obra VULNERAVEL de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MORTO VIVO


A respiração já é fraca
Ofego, procuro ar e não encontro
Agonizo, desespero
A luz que era pouca
Rareia embaçada e úmida
A voz não ajuda
Chamo, e nem eu me ouço
Sussurro, cochicho
Ninguém pode ouvir
o chamado de um morto
Que se sabe vivo
Mas não pode contar ao mundo
No subterrâneo, no submundo
Encardido, sujo, imundo
A densa neblina encobre meu corpo
Gelado, quase inerte, duro
Já não posso ver,
Já não posso ouvir senão o zunido
O som do próprio silencio
Que teima se sobrepor
E eu, encarnado por um fio
Sinto a tesoura do tempo
Rompendo laços, contato,
As forças, já não encontro mais
Quem sabe se ficar quieto
Consigo morrer sem notar

Vera Celms

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A obra MORTO VIVO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 5 de junho de 2011

SEU VAMPIRO




Vigio sua janela até a chegada da hora escolhida
Sedento do justo momento em que te possuirei
Sabes que te desejo muito mais que a minha vida
Me acolhe, apaixonado de tanto amor te morderei

A mesma lua mãe de prata é por mim observada
Sentindo a força da tua sensualidade a me buscar
Minha respiração toca seu corpo de leve como beijo
E a brisa traz a mim o feromônio da mulher amada
Que enlouquece de mim o faminto macho a transpirar
Escondo na capa a louca excitação que regará teu desejo

Sorvo nos teus lábios a cor do vinho a me embriagar
E arrebato teu corpo na cama na tentativa contigo voar
Minhas presas enroscam tuas vestes durante o beijo
E no roxo ninho enlaço-te lascivo até o gótico delirar
Encontro nas tuas veias o puro elixir que nos fará levitar
E bebendo gota a gota sua entrega apaixonada já prevejo

Nossos olores nus tomam, vasculham a madrugada
E os animais noturnos entoam harmonias de amor
E os lobos excitados uivam nosso ato, segunda lírica voz
A loucura da nossa entrega já não se abranda por nada
E transformados transcendemos carregados de torpor
Meu veneno é tão doce que letal o desagüei em tua foz

Meu perigo é então massageado pelo poder da sua fêmea fatal
Que se oferece em doce sacrifício, deitada em manto sepulcral
Vou afinal levar-te por todos os mundos, de agora a eternidade
E dormiremos nus celebrando em nossos corpos doce maldade

Vera Celms

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A obra SEU VAMPIRO (em dueto com Eduardo Eugênio Batista) de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.