domingo, 29 de maio de 2011

NOBREAK ANTIPÂNICO


Todos temos em nós,
Uma fenda de luz muito fraca
Opaca, embaçada, obscurecida
É uma pequena fenda,
Que usamos como luz de vela
Como farolete de fracas pilhas
Como um fósforo, meio úmido e emergente
Que acende involuntário
No exato momento em que a cegueira
nos encontra por detrás das lágrimas compulsivas
No exato momento em que a noite nos flagra
ao final do dia, atrás da densa neblina
No exato momento em que a razão
nos falta por detrás da crise da desconhecida loucura
Ela está lá, pequenina, fraca,
Como um só vagalume
na imensidão da noite nublada e enevoada
Perdida, lúgubre como no óleo uma lamparina
Como a vela no trabalho na encruzilhada
Que saúda, reverencia a entidade
Fechada em sangue e carne morta
Em panos pretos, terra,
Em caminhos truncados
Em desejos mórbidos e rancorosos
Agonizando, pelo vento
Que teima, destemido, em cruzar a encruzilhada
Onde o medo impõe respeito e distância,
E a vingança a relevância
Ao transpor a encruzilhada,
até o vento veste luto
E sopra largo, denso,
Fazendo se esconderem os bichos
Os insetos, as aranhas e as borboletas
E se recolherem os humanos
Cabisbaixos, mudos, mansos
Focados na pequena fresta de luz
Que cada um trás por dentro, bem fundo
Escondida, como um “nobreak antipânico”
Sabendo que ali, o comando intangível
é das Trevas...

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra NOBREAK ANTIPÂNICO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 22 de maio de 2011

FLORESTA DO ESQUECIMENTO



Calabouço em si mesmo

Masmorra profunda

Esquecida, soterrada

Culpa, medo, arrependimento

Nada é capaz de resgatar

Alguém que pereceu em vida

Alguém que esqueceu-se dos valores

Do perdão, do rogo, da fé

Alguém que deu as costas

A ultima oportunidade

A chance que pareceu acaso

Que veio de repente

De não sei onde

A corda que caiu do céu

Do meio das nuvens de temporal

E ainda assim, deixou o medo

Cobrir-lhe o corpo

Esconder-lhe o rosto

Enterrar-lhe a fé

Alguém que desviou os olhos

Na presença da luz

E correu para as trevas

Para a densa e negra floresta

do esquecimento,

Fechada, sem luz, sem atalho

Sem saída e sem perdão

E pereceu em si mesmo


Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra FLORESTA DO ESQUECIMENTO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 15 de maio de 2011

CORAGEM ENFRENTADA


Paro diante da velha casa
Onde o medo se escondia
Atrás das velhas cortinas
Rasgadas, encardidas, mal fechadas
Alguém sempre espreita
atrás das velhas cortinas
Ainda hoje estão lá
Cortinas, espreitas e medos
Inquieta, penso em novamente fugir
Mas o tempo passado me faz enfrentar
Reconheço o frio no estômago
A sudorese nas mãos e pés
O olhar fixo
E a atenção a qualquer ruído
A qualquer movimento
Mas, de alguma forma
A velha casa parece convidar
Portões abertos
O jardim tomado pelo mato
E o ambiente sinistro
Parecem convidar ao enfrentamento
De um lado o enigma
Do outro, curiosos audazes
Teias de aranhas por todo lado
Galhos secos, flores mortas
Até o lixo parece afastar-se
levado pelos redemoinhos de vento
que correm rasteiros
Parado diante do portão
Sinto-me diante de um impasse
Na cena de um filme de horror
E a imaginação faz o resto
Ouço o vento uivando,
Passos no assoalho rangente
Portas batendo, maçanetas emperradas
Velhas venezianas quebradas
Vidros quebrados pelo chão,
sujos de sangue
Roupas, ali abandonadas
Gritos, choro, pavor em cada cômodo
Um corpo pútrido nas escadas
Paro na esquina, olho de longe
Mais uma vez, a cena foi abandonada
A respiração ainda presa,
Peito acelerado, dificulta o passo
Quem sabe, até nunca mais...

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra CORAGEM ENFRENTADA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 8 de maio de 2011

A ALMA POR UM MOMENTO


Momento de ausência
Instante de esquecimento
Um tapa é o botão DELETE
Onde tudo e todos perdem a razão
Perdem o vulto e a importância
Perdem a noção
O ausente olha tudo e nada vê
Nada ouve, nada sente, nada quer saber
É um vago sorridente deletado
postado em guarita pseudo segura
Sem contato, sem aderência, sem conexão
É um não querer mais, nem menos, nem talvez
Covarde, descomprometido, despreocupado
Apertado, vaza pelo lado errado
Correndo o risco de não mais voltar
Vende a alma por um momento
E ainda vende a prestação...

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra A ALMA POR UM MOMENTO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 1 de maio de 2011

MEDO DE TEMPORAL (poesia sem a letra U)


Cidade de alamedas e travessas
Arvores e lâmpadas,
Claridade artificial
Sombras na noite
Movem-se pela ação dos ventos
da tempestade
O medo hospeda-se
atrás de cada janela embaçada
e manifesta-se pelo ofegar
lançado contra o vidro
Clarões de tempestade
Cortam a noite de fora a fora
Rasgando a abóboda enegrecida
Deixando ver os personagens da noite
Insones, amedrontados
Postados em vigília em seus aposentos
Agarrados as cortinas
Pelos cantos, apavorados
Sobre as camas escondidos sob as cobertas
Sob as camas, escondidos, de olhos apertados
Temporal sem fim
Noite sem fim
Medo sem fim
E o temporal agarrado a noite
E a noite agarrada ao medo
Torcendo para amanhecer

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra MEDO DE TEMPORAL de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.