domingo, 10 de abril de 2011

FUGIDO

Era um assunto que vinha povoando meus pensamentos nos últimos dias.

Não via mais saída, não via mais horizonte possível. Tudo estava perdido.

Não é fácil perder o respeito das pessoas que mais amamos. Era o que eu via, todos me evitavam o tempo todo. A única que ainda se preocupava minimamente comigo era Maria, que ainda se lembrava em pelo menos reservar-me um pedaço de pão.

O estomago não calava. Doía, roncava e fazia-me lembrar do passo a passo que me trouxe até aqui; a beira do precipício.

Perder o emprego a esta altura da vida, com a saúde precária. Era de se imaginar que este seria o mapa final.

As crianças magras, Maria não reclamava, mas podia-se ver seus ossos, no rosto, no tórax, nos ombros.

Era cruel ver a vida definhar, sem ter o que fazer. O pouco que conseguia pedindo não era o suficiente. Vez ou outra uma graça recebida de uns poucos vizinhos, um trabalhinho aqui e ali, não nos dava opção.

A situação era desesperadora. Via minha família definhando como o tempo que me restava.

Afinal, seria uma boca a menos, mas também, uma mão a menos. Também, de que vale uma mão doente, sem força, sem disposição, sem esperança. Talvez melhor não ter.

Essa era uma idéia constante. Precisava de um pouco de coragem, de algum distanciamento, de algum desapego, que não conseguia. Como era duro morrer.

Alem de toda a briga que travava comigo mesmo, ainda me debatia com as convicções religiosas. O que seria de minha alma se desse fim ao corpo?

O que seria de Maria e dos meninos?

Ensinei-os a lutar, mas não me lembro de ter dito que seria possível vencer. Afinal, a esperança de cada um é a esperança de cada um.

Precisava dormir, pois enquanto dormia não sentia o estomago a roncar. O que assombrava no sono eram os pesadelos, tão intensos, tão recorrentes.

Sempre a mesma fuga, a mesma corrida inglória, sempre os mesmos obstáculos e nunca chegava a ver o final da história, sempre acordava antes. Jamais soube se naqueles sonhos chegaria vivo ao final, ou se morria dignamente.

Nada mais parecia digno, nem possível. Precisava tomar coragem e acabar logo com isso.

Hoje, será hoje. De hoje não pode passar. Tempo demais cozinhando uma só idéia. Não é possível que nem pra isso eu seja capaz.

E o que vão fazer comigo depois? Velório, enterro? Não temos recursos nem pra comer, nem pra viver, que dirá pra morrer.

Preciso dar um jeito de não dar trabalho pra ninguém, nem preocupação.

E se eu me internasse um hospício publico? Teria de cometer algo muito grave e não posso por a vida de ninguém em risco.

Não, não posso mexer com ninguém. Eu, só eu.

Amanheci naquele dia, como sempre, roendo minha própria fome. O estômago doendo, a cabeça doendo, um gosto de desespero na boca. Os cabelos desgrenhados e sem corte, a barba por fazer há dias.

Olhei no espelho; era um espectro.

Andava de um lado pra outro sem encontrar respostas, nem saída. Mais novo não iria ficar e nem mais saudável. Afinal, sem alimentação definha-se.

Milagre, só um milagre poderia reverter a situação. Comecei a rezar, mais não conseguia me concentrar. As palavras se embaralhavam, não me lembrava de nenhuma oração até o final, estava confuso.

Acho que Deus não liga se eu não souber rezar. Pai nosso, que estais no céu... san... san... santi...que estais no céu... ai meu Deus.

Pai, estou aqui, olha pra mim!

Devo ter pecado demais – mas, não conseguia me lembrar de algo tão grave que tenha feito a vida toda pra merecer um destino desses. Mas, dizem que a gente paga até pelas vidas passadas... Ai meu Deus, o que eu faço?

De repente veio a minha frente uma imagem, parecia um anjo, mas tinha a cara da minha mãe. Devo estar ficando louco...

Minha mãe já morreu há tanto tempo! Sumiu...

De novo, e dessa vez era mesmo, a cara da minha mãe, e parecia mesmo um anjo, uma Santa, ou algo assim e me disse:

- Filho, não precisa fazer o mal a ninguém, basta só não fazer nada. Não fazer algo, por mínimo que seja, não oferecer a mão ao próximo, é o mesmo que fazer o mal. Estás entendendo agora o que sentem as pessoas que te pedem um sorriso, uma palavra, um gesto de respeito e não recebem. Tente se lembrar dos teus dias, dos teus bons dias.

Lembra-se de como ignoravas os demais quando tinhas o suficiente? Achavas que tinha pouco e que não podia ajudar ninguém.

Nunca te lembraste do afago, da atenção, do aperto de mão, do sorriso, de um cumprimento. Tantos, no teu caminho, precisaram de ti!!!

Verdade, pensei silenciosamente, assim mesmo eu era. Achava mesmo que se não podia oferecer nada material, nada mais podia oferecer. Hoje sofro do mesmo mal. Todos me evitam, ninguém me sorri, ninguém me cumprimenta. Sinto-me um fantasma vivo.

Meu Deus, é verdade!

Sempre fui um insensível, um ignóbil. Realmente não mereço perdão e reconheço que tudo o que estou passando é merecido.

Não tem mesmo outro jeito, está decidido, de hoje não passa.

Passei pela cozinha, tentando não ser percebido. Maria varria o quintal, não seria difícil.

Na passagem peguei a faca na cozinha, coloquei na cintura, pelo cós da calça e fui para o quintal. Passei como um fantasma, exatamente como pretendia.

Peguei a pá e a enxada e comecei a cavar no fundo do quintal.

Não demorou para que Maria me perguntasse o que estava fazendo.

- Nada Maria, vou fazer algum movimento, vou escavar um pouco, pra ver se me mantenho um pouco mais disposto.

Maria entrou na cozinha e logo me chamou:

- Zé, vem, guardei um pedaço de pão pra você. A dona Dita deu pros meninos hoje de manhã e separei um pedaço que dividi com você. Vem comer.

Não achei boa idéia tirar o que podia alimentar minha Maria, sendo que pra onde eu ia não precisaria de alimento do corpo, e continuei escavando sem responder.

Maria tornou a chamar e eu a não responder.

As lagrimas teimavam em cair, misturadas ao suor do rosto. Não podia deixar que a Maria visse, pois uma palavra sua e tudo estaria perdido; a pouca coragem que reunira teria sido em vão.

Escavei uma cova funda, igual a que vira no cemitério. Dentro dela eu entrei, peguei a faca que estava na cintura, pedi perdão mais uma vez, por aquilo e por tudo o que podia me lembrar, e cravei de um só golpe a faca no meio do peito.

Uma dor lancinante, um imenso clarão foi me roubando a visão, as forças, a consciência. O sangue, de imediato foi tomando minha roupa e então não senti mais nada.

Podia ouvir por algum tempo os gritos desesperados de Maria, gritando pelo meu nome.

Aos poucos foi ficando tão longe aquela voz que tanto amava. E de tão longe foi sumindo.

Acordei no meio da lama. Um lugar fétido, escuro, frio. Sozinho podia ouvir agora outras vozes, gritando como eu, pedindo socorro. Açoitado de repente, entendi que devia estar mesmo morto para aquela vida, mas vivo no que imaginei ser o inferno, ou muito perto dele.

Gritei, gritei por muitos dias e noites. Tantos que perdi a conta e as forças. Afinal entendi, que o que vivia junto de Maria e dos meninos, ainda tinha saída, precisava só de um pouco mais de paciência. Juntos teríamos lutado e ainda que não tivéssemos vencido, teria tido a oportunidade de ajudá-los. Mais uma vez fui egoísta, fugindo da guerra, fugindo da vida.

Agora neste vale de lágrimas e sofrimento, preciso entender que não vou passar impune, nunca mais. O destino de um suicida não pode ser bom.


Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra FUGIDO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário