domingo, 27 de março de 2011

A ROUPA NEM SECOU

Acordar todos os dias

Com o pensamento focado

Na linha do horizonte,

Ao norte,

Poder ver o nascer do sol

E seu poente também

Poder ver a ultima estrela acordada

E a primeira também,

bem no comecinho da noite

Flertar com a Lua

Suar a camisa ao sol

E a noite poder lavá-la

E enquanto a camisa seca no varal

Descansar

Dormir, sonhar, transformar

cansaço em energia

Então Maria,

No começo do dia

Com os olhos já focados

Vai acordar o menino Marcos

Que do seu sono inocente

Já não acorda mais

Frio, inerte, muito pálido

Não conseguiu ver seca no varal

A roupa que o cobriu

E não verá nunca mais


Vera Celms

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A obra A ROUPA NEM SECOU de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 20 de março de 2011

ANTESSALA DO INFERNO

Contei minhas lástimas

A um barqueiro do porto

Encapuzado, sinistro, lúgubre

Não podia ver suas mãos

Não podia ver seu rosto

Escondido em sombras

Em pútridas chagas

No fundo do barco

Flores mortas,

Pisadas,

Entrei no barco lastimosa

Desconfiada

Mas não consegui silenciar

Fui logo contando tudo,

Como se fosse o preço a pagar

Pela viagem, pela travessia

O barqueiro permaneceu de costas

Durante todo o percurso

Silencioso

O cheiro de flores mortas

Se confundia com o cheiro de suor

De sangue, de umidade

Rumamos para dentro do nevoeiro

Denso, pesado,

Como se entrássemos na antessala do inferno

Assim que a nevoa gelada nos abraçou

Vi todos os meus fantasmas abraçados

Ao barqueiro do inferno

Mercador de almas...


Vera Celms

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domingo, 13 de março de 2011

TORMENTA



Quantas emoções
Não se misturam
Num grito de horror
Num olhar assombrado
Numa fisionomia indignada
Marcada
Quantas as dores
Que se resumem
Numa única gota de sangue
Ao lado de um corpo sem vida
No hematoma de uma vitima
No tormento de um alucinado
De um assustado
Ameaçado
Preso, seqüestrado
No medo de uma pessoa
Ameaçada pelo cano de uma arma
Pela violência da enxurrada
Pela devastidão de um maremoto
Pelo pavor de um terremoto
Ou um deslizamento, desmoronamento,
Por mínimo que seja,
Pela sirene que avisa o tormento
Quanto pensamento
Passa pela cabeça
De alguém que recebe um telefonema
Sinistro, oculto, anônimo
Ameaçando a vida de alguém
A troco de dinheiro
Quem já não sentiu pavor
Ao ter sua bolsa roubada,
Sua carteira batida
Seu carro arrombado, levado?
Ao ser seguido de perto por alguém
Na rua,
Sem nem saber por quem
Sem nem saber porque
De um estranho mascarado, armado
Dentro da sua casa
Imagina o horror identificado
Num repente
Por um ato da natureza
Que acaba, aniquila
Leva tudo, por que ruiu,
Na correnteza das águas,
Incendiou, explodiu
Na força dos ventos
O que estava ali num momento
E no momento seguinte,
Nada mais estava lá,
Até a vida,
De quem acabamos de olhar
De falar, de alertar sobre os perigos da vida
Quem não passou, ou viu?
Quem nunca ouviu falar?

Vera Celms

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A obra TORMENTA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, 7 de março de 2011

SEPULTAMENTO COM CHUVA

Escuridão de temporal

Chuva, frio,

E o corpo acaba de descer

a sepultura,

Rodeado por chorosos companheiros

Vestidos de negro e cinza

Pela família inconformada

Guarda chuvas negros

Se misturam a plásticas capas

E a outros igualmente tristes coloridos

Certamente a alma a tudo assiste

Tão próxima,

Tão presente

Invisível, indignada, incrédula

Ladeando o corpo frio, inerte

Pálido, passivo e inexpressívo

O cheiro da terra molhada,

E das flores; coroas fúnebres, tão pálidas

O cimento já pronto para lacrar

descansa ao lado da pá que escavou,

Nesse momento a terra molhada que piso,

se confunde em chuva e lágrimas,

e flores caídas e pisoteadas

Não existe cenário mais mórbido

Mais lúgubre sepultamento

Regado a chuva,

Sonorizado por trovões e soluços

Iluminado por raios distantes

Orações e ladainhas

Alguns choram manso,

Outros anunciam a tristeza

brava e nervosamente

Inconsolável luto

Que acompanhará a todos

Ao que ali dormirá solitária e eternamente

Aos que dali levarão, na lembrança

A única imagem que não queriam ver

Vera Celms

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