domingo, 30 de janeiro de 2011

O QUE NÃO ACEITAS, NÃO É TEU...


Te atiço com palavras,

Ásperas, pontiagudas,

Ferinas, ofensivas,

Sei que dói,

Sei que sangra,

Sei que choras,

Mas, pouco me importa,

As palavras são minhas,

Os efeitos são seus,

Lanço-as todas sobre você,

Pouco me importa,

Se lamentas,

Se baixas a cabeça,

Devias brigar, enfrentar,

Defender-se,

Devias devolver-me as farpas,

Mas calas, me devolve assim as palavras,

Não entendo seu silencio,

Preferes chorar escondido,

Preferes me ignorar,

Preferes fazer de conta que nada acontece,

Tão tolo, tão irritantemente humilde,

Te vejo um idiota,

Minhas palavras ficam no ar,

Soltas, procurando você,

E você não as toma

São todas suas,

Isso me deixa tão irritado,

Um bobão,

Nem te provocar vale a pena,

Quer saber do que mais?

Não te darei mais atenção,

Recolho minhas palavras todas

E vou procurar alguém que as entenda,

Que ódio que você me dá!!!

Vera Celms


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A obra O QUE NÃO ACEITAS, NÃO É TEU.. de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 23 de janeiro de 2011

PASSAGEM

Por um momento

O momento parou,

Olhei, fitei,

Gravei no pensamento, fotografei,

Foi a ultima imagem que ficou

A aproximação,

O toque leve na sua fronte,

Em instantes tudo estaria terminado,

O efeito seria rápido,

Talvez um sobressalto,

Talvez um espasmo,

Talvez um olhar mais aflito,

Um pedido, uma súplica no ar

Um arrepio

Em instantes tudo estaria terminado,

Por mais que tentássemos reverter,

Nada mais podia ser feito,

Tudo agora era questão de tempo,

Em instantes o ar seria insuficiente,

Ou pelo menos pareceria,

O sufoco,

Talvez um sorriso contorcido,

Forçado,

Tentativa de amenizar a cena,

Em instantes tudo estaria terminado,

Talvez imagens se formassem ilusoriamente,

Como fantasmas,

Como holografias,

Como rememorações,

Memórias, lembranças,

Arrependimento,

Dores não seriam nem notadas,

Não haveria tempo,

Suspiro, um suspiro,

Foi tudo o que ficou no ar

E a passagem fora feita...

Vera Celms


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A obra PASSAGEM de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 16 de janeiro de 2011

POR COMPAIXÃO AO RIO DE JANEIRO

A chuva castigava aquela terra.

Começara no meio da tarde,

E não parou mais,

Começo da madrugada,

Parte da população dormia,

Parte vigiava preocupada,

De tanto que a chuva castigava,

Lá pelas 3 da matina,

Não dormia João nem Cristina,

As janelas altas não deixavam impressão,

De repente um barulhão,

Vinha lá de fora com certeza,

Era som de coisa caindo,

Que não parava de cair,

E quando João abriu a porta,

Não havia mais nada lá fora,

Não havia jardim, não havia portão,

Não havia rua, nem pontilhão,

Não havia vizinho,

Nem comercio

Nem pra onde fugir,

Era só ruína que se avistava,

Tudo em torno submerso,

Carro, telhado, colchão,

Deu tempo de Cristina dar a mão a João,

E tentar, sob a chuva que não parava,

No meio da escuridão,

Seguir a trilha dos desesperados,

Os poucos que ali estavam

Eram todos fugitivos da desolação,

Da água que derrubava a encosta,

Em turbilhão,

Agora era um “Deus nos acuda”

Era um “salve-se quem e se puder”

Era um não ter mais nada,

Era um contínuo deixar pra traz,

Eram seres humanos, todos na mesma situação

E o País assistindo pela televisão,

Atordoado,

Com desejo profundo de ajudar,

De cada um tirar um de lá,

De oferecer distância segura,

Afinal, todos os assistentes

E os sobreviventes,

Todos em pura comoção,

Com um sentimento único, comum,

A fé...

Deus, por todo esse povo,

pedimos compaixão...

Vera Celms

(chuvas de JANEIRO 2011)

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A obra POR COMPAIXÃO AO RIO DE JANEIRO de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

Morte e Vida Severina - Cena do enterro do sem-terra

CHICO BUARQUE - ODE AOS RATOS

domingo, 9 de janeiro de 2011

POR ELA ENTRAR, POR ELA SAIR

A situação estava complicada, muito complicada.

Maria já estava passando há 8 dias somente a café preto sem açúcar, pois não havia, para poder guardar o pouco alimento que tinha para os dois filhos.

Dois adolescentes de 13 e 14 anos. Bons rapazes, mas após uma separação de seus pais, seu pai simplesmente sumira, desaparecera.

Muito tentou incriminar Maria, com acusações falsas e infundadas, somente para agravar o quadro da separação, diante da justiça.

Com isso pretendia desobrigar-se de pagar pensão alimentícia e então, justificar a situação financeira deplorável em que viviam os três e requerer a guarda dos meninos.

Maria foi acusada injustamente por estelionato, ameaça de morte (a ele) e violência ao idoso. Quem a conhece sabe que isso seria IMPOSSÍVEL.

Todas essas situações foram imaginadas por José, com ajuda de sua advogada e amante Neide.

Maria, sem ter o que comer em casa, telefonou para José pedindo que mandasse algum dinheiro e ele usou esta ligação para acusá-la de ameaçá-lo de morte. Alegou que sua sócia estaria na extensão telefônica e poderia testemunhar a ameaça.

Maria já havia entrado na Justiça gratuita, com uma ação, pleiteando o pagamento de pensão alimentícia regularmente e todas as atrasadas, que já eram muitas.

Por este motivo, e só por este motivo, José não compareceu ao depoimento marcado em função do Inquérito Policial em que se transformou a acusação (boletim de ocorrência) de ameaça de morte - o processo foi arquivado, por medo de ser preso, já que sua prisão já havia sido determinada pelo Juiz.

Ainda assim, sem recursos nem para alimentação nem para locomoção, Maria teve de comparecer ao local do depoimento para então descobrir a covardia estratégica de José.

As coisas estavam determinadamente duras.

Luis e Henrique, se deslocavam até a escola para aula, numa distancia de uns 5 km, a pé e a mesma distancia de volta.

Os tênis que usavam, já se rompiam. Os uniformes da escola eram a salvação da vestimenta.

Em dias de chuva intensa os meninos não iam a aula, a menos que tivessem prova. Quantas não foram as vezes que amiguinhos da escola emprestavam, ou melhor, davam uns trocos para condução, para que não faltassem a aulas importantes ou provas.

Não demorou para que o rendimento escolar de Henrique caísse drasticamente.

A saúde de Maria, até por falta de alimentação, decaía visivelmente; imunidade baixa, estresse, fome, desesperança, desemprego, depressão.

Luis via a situação piorar em todos os sentidos todos os dias, dia a dia pior.

Maria chorava por não poder oferecer uma condição melhor a seus filhos e a si mesma.

Moravam num apartamento alugado por José, em nome de sua mãe – afinal, segundo ele, ninguém despejaria uma velha de quase 80 anos.

A situação se manteve por 3 anos aproximadamente. As cobranças de aluguel e condomínio eram direcionadas todas para o endereço de José, pois o pagamento destas despesas, diante da Justiça, fariam parte da pensão alimentícia, além da parte em dinheiro que garantiria alimentação e tudo o mais.

Depois de algum tempo, Maria conseguira um emprego onde ganhava menos de R$ 400,00, R$ 360,00 pra ser bem preciso.

Entretanto, José pagou regulamente por 10 meses a parte financeira (alimentação) e a moradia por mais 2 meses somente. A partir daí, nada mais fora pago, durante aproximados 3 anos.

Maria soube dessa falta de pagamento, quando o Oficial de Justiça veio ao prédio onde morava, entregar a citação da Ação de Despejo, lhe dando 5 dias para deixar o imóvel.

Maria conseguiu prorrogar por mais 10 dias, junto aos advogados do proprietário, perfazendo 15 dias.

Durante esse período, Maria ralava muito e havia conseguido uma promoção no trabalho. Passou a receber R$ 728,00.

Como uma louca, procurou um imóvel, quase um porão, há aproximadamente 100 metros de onde morava e conseguiu fazer a mudança num veículo Saveiro, do pai de uns amigos dos meninos, que também moravam no prédio.

O que não foi possível levar na Saveiro, foi levado em carrinho de mão, pela rua, de um endereço ao outro por Luis, Henrique e os amigos cujo pai ajudara com o carro e mais um menino.

Eram 5 adolescentes carregando coisas pela rua.

Mudaram-se. Pagavam R$ 450,00 de aluguel e R$ 300,00 para alimentar aos 3, pagar luz e água, além de condução e remédios.

Foram 7 meses até que Maria foi demitida por corte - contenção financeira da Empresa.

Durante esses 7 meses, Henrique havia abandonado a escola, pois já havia sido reprovado por 2 anos consecutivos e as primeiras notas do novo ano – terceira vez que cursava a mesma série escolar – eram vermelhas.

Não teve coragem de contar a Maria para não decepcioná-la ou por medo que ela o obrigasse a voltar a escola Ele já sentia-se incapaz. Passava o tempo da escola numa LAN HOUSE, ajudando nos serviços em troca de poder usar os computadores para jogar.

Luis sabia de tudo, mas manteve-se leal ao segredo do irmão, pedindo a ele que contasse a mãe, sem coragem dele mesmo contar, pelos mesmos motivos.

Luis não se conformava com a situação deplorável que viviam. Se alimentavam muito mau ou mal se alimentavam. Não tinham o que vestir, senão roupas que haviam ganho de amigos, ou da avó materna muito antes da separação, em tamanhos maiores dos que usavam na época. Coisas compradas em brechós ou os próprios uniformes de escola.

Não tinham dinheiro para um doce, para um pedaço de carne, para um yogurte. Tinham dívida no mercadinho. A conta de luz era sempre paga com atraso.

Moravam praticamente num porão, com outras pessoas no quintal – pessoas com quem era muito difícil o convívio. O banheiro era fora da casa.

A saúde de Maria não melhorava. Lutava feito louca para viver em tamanha necessidade.

Luis não agüentava mais ver sua mãe chorar, sofrer, deixar de se alimentar tantas vezes.

Maria dormia no sofá da sala, cheio de molas soltas e buracos. Chorava durante parte da noite. Levantava-se muito cedo pra trabalhar.

Precisava. Luis sentia que precisava fazer alguma coisa. Foi quando ele e seu amigo da escola, Luciano, conheceram Adriano que fazia pequenos furtos, nas ruas. Roubava carros, assaltava pessoas nas ruas, assaltava pequenos comércios.

Adriano os incentivava a fazer o mesmo, com promessa de dinheiro grande e rápido. Muito conversavam, trocavam idéias temerosos.

Adriano estava para realizar mais um trabalhinho e os incentivava a participar.

Luis, com muito medo, se encorajava pensando na situação em que viviam. No tanto que via sua mãe chorando e se sacrificando.

Emprego antes dos 16 anos não conseguiria. Era o momento.

Passava noites em claro, imaginando, sonhando, planejando como faria.

Luciano passava por situação semelhante em casa, por motivos semelhantes.

Encorajados, Luis e Luciano, marcaram para a noite seguinte o tal trabalhinho com Adriano.

Luis chegou em casa completamente mudo, pois tudo aconteceria no dia seguinte.

Não temia por si, sentia que não teria nada a perder e ainda tiraria sua mãe daquela situação inacreditável em que viviam.

Naquela noite não pregou o olho. Rezou, pediu ajuda aos amigos espirituais. Pedia sinais ao céu. Estava morrendo de medo, mas não por si, mas medo de morrer durante o ato e ainda decepcionar sua mãe mais ainda.

Luis sabia que seria cruel demais com sua mãe se algo ocorresse.

Quanto ele rezou... se apegou a sua própria fé. Pediu muito.

Ninguem além dos 3 envolvidos sabia dos planos. Não tinham coragem de contar a ninguém. Luis não queria ser julgado, muito menos condenado por quem quer que fosse. Os motivos eram seus.

Na manhã do fatídico dia, foi para a escola pela manhã, como todos os dias, sem ter descansado um só momento durante toda a noite.

Chegou a escola como se o mundo fosse de carona sobre suas costas. O peso do medo, da responsabilidade, a necessidade de fazer alguma coisa eram agora um globo terrestre que carregava sem mal conseguir andar.

Mais uma vez, como tantas, tantas outras, o estômago roncava de fome, os olhos ardiam pela noite em claro.

Encontrou Luciano assim que chegara ao portão. Completamente pálido, apavorado.

Perguntou ao amigo o que havia e então quem empalideceu e perdeu o movimento das pernas foi ele.

- Pois é Luis, a situação não vai rolar. Miou.

- Como assim? Nada disso. Chegamos até aqui, vamos até o fim

- Não cara, o Adriano foi preso na casa dele agora de manhã e

baleado quando tentava fugir, atingido no joelho.

Luis não acreditava no que ouvia.

Juntou as mãos a frente do peito em oração e agradeceu o sinal do céu que tanto havia pedido. Reconheceu a placa no caminho e desistiu.

Meses depois, durante uma madrugada confessora, contou a sua mãe todo o plano, do começo ao final, sem nada omitir.

- Pois é mãe, por você pensei em entrar para o crime e por você

deixei. Tive medo, não por mim, nem pela minha vida, mas de

decepcionar você.

Algumas semanas depois tiveram de deixar o porão onde moravam e foram morar no interior, na casa da mãe de Maria, após sua demissão da empresa onde trabalhara por quase 3 anos, por falta de recursos para pagar o aluguel, cujo contrato estava no nome da mãe de Maria, para que não fossem despejados novamente.

Pensavam ficar por uns 3 meses, mas a necessidade os obrigou a permanecer por 3 anos e meio.

Mas esse é assunto que não precisa ser lembrado, pois infelizmente não acabou aí.

Pouco tempo depois Luis arrumou um emprego em S.Paulo e viajou durante dois anos, de trem (subúrbio) diariamente, ida e volta.

Levantava as 5 horas da manhã e chegava em casa por volta das 22 horas.

Isso ocorreu em 2006 e até hoje ele trabalha na mesma empresa.

Henrique arrumou emprego e fez o supletivo em 2008 e hoje trabalha, já pelo segundo ano na mesma nova empresa, onde já foi promovido pela 2ª. Vez.

Luis entrou para a falculdade em 2010, após 6 anos de inatividade escolar e Henrique aguarda resposta do vestibular ainda para este mês.

Maria luta contra sua falta de saúde até hoje.

Vera Celms


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