terça-feira, 27 de dezembro de 2011

SEM RETORNO

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Como é doce
A tristeza que me toma
E me recolhe
E me faz desaguar,
Como geleira que quebra
E navegando sai
Flutuando de cais em cais
Tem caminhos calmos
Quietos,
Nada nem ninguém chega
Nem me atrai
É um passear sob as arvores
Do soturno bosque
Onde as copas das arvores
Me protegem contra invasores
Não há pássaros, nem gorgeios
É o barulho da água da chuva que cai
Sorrateira por entre os galhos
Trovoadas, ventos que me levam mais longe
Nuvens pesadas me garantem
O sossego da caminhada
Continuar aqui,
Andar sem rumo e sem direção
Sem ser lembrada
Eu e Deus...
Sozinhos, nos bosques do meu pensamento
Escondidos
Perdidos
E sem retorno...


Vera Celms
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

NO MEIO DA ESCURIDÃO

Espero você aqui,
Desde que você partiu
Sentada nos cantos do mundo
Escondida no escuro e no vazio
Um lugar para não ser reconhecida
Desde que te vi
Por sobre a fúnebre pedra vazia
Declarando solidão
Desde que entregaste a vida
A força de tuas mãos
Entendi que só o reencontraria
Na mesma porta que usou de saída
Vesti-me de negro
Para que me confundissem com as sombras
Para que fosse, (até que voltasse pra me buscar)
Alguém a se desprezar
Sentei então no canto do mundo
Abracei minha sorte
No topo de meus joelhos dobrados
E deixei que só as lagrimas,
Me dessem algum calor
Só espero que você volte
Senão partirei sozinha
A tua procura, no meio da escuridão

Vera Celms
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domingo, 11 de dezembro de 2011

TEIA AO VENTO

Será assim que se enlouquece?
Solidão,
Soturnas fantasias
Silêncio, introspecção, tristeza
A tão procurada paz
Tem se vestido de negro
É como assistir ao mundo
De uma teia de aranha gigante
Que balança, levada pelo vento
Ao som de trovoadas e sirenes
Tudo tão particular,
Tudo tão só meu...
Não há olhos nem motivos
Não há risos
Olhares que fitam, graves
Sérios
Dores que se replicam
Como sinos,
Como ideias
Será assim que se enlouquece?
Será assim que se anuncia a morte?

Vera Celms

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domingo, 4 de dezembro de 2011

CENTRO GÓTICO

Lugar solitário
Onde as coisas mortas
São espadas de si
E atacam-se
E flagelam-se
E buscam a solitude tão mórbida
Caminhos rasteiros rastejantes
Fugidios e sorrateiros
Espreitam, vigiam
Coisas quebradas,
abandonadas pela energia
Plantas mortas
Flores murchas
Barro nas pegadas dos homens
Que fogem rumo ao nada
Entendendo ser a fuga,
o único movimento
Carregando frágeis ilusões nos braços
No peito a dor da esmurrada vida
Já há tanto foragida
Terreno de invertidas forças
Onde o calor brota do chão
Em labaredas consumido
Abrindo-se em valas flamejantes
Sugando, a tudo e a todos
Para o centro,
Só não se sabe de onde...

Vera Celms

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domingo, 27 de novembro de 2011

DOCES SOBRE A MESA

Doces sobre a mesa
Nunca mais ninguém me esperou assim
Casa arrumada,
Pétalas pelo chão
Caminho de velas até o quarto
Doces sobre a mesa de canto
Incenso,
O aparelho de som aberto,
deixando ver o nosso CD... mudo...
Só ele me espera assim
Olho e não encontro,
Não o vejo,
Chamo, sussurrando,
Talvez durma,
Pétalas sobre a cama,
E sobre o lençol de cetim
Sangue...
A poça de sangue espalhada
por todo lado
Ao lado da cama,
O pequeno punhal
Com que ele abria as cartas
que lhe enviava...

Vera Celms
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domingo, 20 de novembro de 2011

HECATOMBE

Casa vazia
Sombria, sinistra
Tilintam pela casa, velhas intenções
Lembranças mortas
Velhas assombrações, eco
Os vidros quebrados
Manchas de bolor por todas as paredes
Reboco caindo,
Trincas nas paredes úmidas
Tudo tão antigo
As ideias, as pessoas,
Nenhum desejo, nenhuma vontade,
O tempo estagnou
Os fantasmas estão na cozinha...
Sussurrando
Tramando uma nova aparição
Um novo assalto, um novo susto
Assustados, todos permanecerão na casa
Nada pode mudar
Afinal, é a história do casarão,
Ainda que não tivesse paredes
As energias se dispersaram
Tudo ficou guardado
História, objetos, evolução
Nada sai, nada entra
Os visitantes serão afastados
Cães ladinos guardam o lugar
Os cães do mundo, uivam de longe
Sem se aproximar
La dentro, tudo parou
Ca fora, olhando de dentro, o mundo já acabou...

Vera Celms

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domingo, 13 de novembro de 2011

EXPIRADA

Preciso de mais tempo
Depois do por do sol
Depois do fim do show
Depois que acabe a vida
Tantos pontos a rever
Tanto a checar
Preciso ir ao sonho de tanta gente
Eu prometi
Avisar pessoalmente
O momento de sair de cena
De encerrar a musica
De baixar a luz
De fechar as cortinas
De cortar o fio de prata
Prometo voltar antes do amanhecer
Mas não pude dizer mais nada
Minhas lagrimas rolaram todas
Fugiram de meus olhos já parados
Minha pele esfriou e arroxeou
Não escutei mais meu coração
Não pude mexer meu corpo
Num momento era eu
No seguinte aquilo que fui,
ficou ali, parado, estacionado
sem mais valia, sem graça, sem reação
Não houve acordo, nem negociação
ELA chegou de repente,
depois de eu tanto chamar
de eu tanto esperar
Fez o que devia e partiu...
Sem um minuto de atenção
Desligou tudo e me deixou do lado de fora,
Sem os controles, com o ceifeiro pela mão...

Vera Celms

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domingo, 6 de novembro de 2011

MEU FIM...

Era eu
Deitada, rodeada por flores
Vestida solenemente
Podia sentir o cheiro das flores
Tulipas amarelas, miosótis,
Folhagens,
Sobre os cavaletes
Em torno de mim: todos
Ares de oração,
Cerimônia,
Velas acesas e o crucifixo, bem perto
Alguns choramingam
A maioria em silencio absurdo
Ambiente soturno
Tristeza no ar
E eu, nada entendendo
Afinal, como eu assistia a tudo aquilo?
Sentia-me bem, aliás, muito bem
Como há muito tempo não acontecia
Mas, era eu...
Estava ali deitada
Desconhecidos...
rodeavam-me cerimoniosamente
Sentia-me cuidada
Estava eu então, assistindo ao meu velório
Consternação, cuidado
Ao longe, desafetos de uma vida,
Observada... a olhos longos
Afinal, até quando o fio de prata resistirá?
Agora sinto, que a vida continua,
Só não me permitam acordar...

Vera Celms

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domingo, 30 de outubro de 2011

LABÉU

Defendi-o por todo o tempo
Calunias, desditos, difamações,
Tanto descrédito,
Eu confiei, por todo o tempo,
Enfrentei trovoadas, raios,
Ameaças de temporais,
até ventanias... inerte...
Enfrentei cães nervosos
Desentupiria o esgoto transbordante
dos invejosos, sem que me pedisse
Incrédula, me fiz de paisagem,
Um manequim emborrachado
Que usavas como escudo
Quanta lenha!
Apedrejada, por pouco esquartejada,
Envidracei tua imagem
para que ninguém a tocasse,
Você era meu... só meu...
O tempo não foi o bastante,
Os reflexos que vinham de ti,
não me convenceram
Precisei chegar aqui,
Pra reconhecer teu corpo,
Agora livre das culpas, como nunca!
Soube de todos os passos indevidos
De uma só vez, pelos jornais,
Na TV, não se fala em outra coisa
Vejo-te em todas as edições
Televisivas e escritas
Agora sei do quanto eras torpe
O tamanho da tua mácula
Protegi um anjo que eu amava
E reconheci o corpo de um monstro, que ocultava...

Vera Celms

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domingo, 23 de outubro de 2011

FANTASMAS NÃO EXISTEM

Baixa a névoa sobre a madrugada
Frio... solidão,
Todas as noites, a mesma hora,
Vem a névoa; denso pesar da desistência,
Não adianta resistir, nem tentar...
Lutar nem pensar,
Então me vem a vontade louca de voltar
Pra casa...
Caminho soturna, sob a densa névoa
Sei que a única entrada é pelo jardim
Por entre as tulipas amarelas...
Não adianta gritar, nem espenear
Não adianta relutar
Entrego-me a mordaça do tempo
Relego-me a insignificância que os anos trazem,
Pouco a pouco, passo a passo,
Por espaços que meus passos não mais alcançam,
La fora...
Ninguém vê.... nem eu; só sinto...
E por menos que eu acredite em fantasmas,
Tenho certeza que eles acreditam
e põem fé em mim...
É assim que prossigo...

Vera Celms

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domingo, 16 de outubro de 2011

ESQUECIDA

No quarto escuro
Sem janelas, sem ventilação,
O mesmo cheiro de ontem,
De anteontem,
O mesmo cheiro do tempo guardado
O mesmo cheiro que traz a ânsia
Da liberdade
Da fuga
Da compreensão
Do corpo... a ânsia...
O tempo já havia corrido demais
Para que ela pudesse alcançar
Mensurar
Dimensionar
Chegava a ter saudade de si
Mal lembrava sua identidade
Mal lembrava de onde viera
Onde nascera,
Por que estava ali
Cárcere, masmorra
Tumulo, onde lhe residia a vida
A pouca vida
Sem forças, sem idéias
Sem ideais ou esperanças
Os motivos não sabia
Jamais soube
A mesma roupa, já tão suja
Não sabia mais o que lhe incomodava mais
O cheiro do lugar imundo
Ou seu próprio cheiro
Sentia-se um espectro
Um farrapo
Talvez o que fosse, nada mais
Não podia ter outro nome
Dividia com os roedores o parco alimento
A pouca água da chuva, onde pousavam os insetos
Por que ela? Por que ali? Por que aquilo?
Sair? Já não sabia mais
Nem mais pedia liberdade nas suas orações
E nunca, nem aprendeu a rezar
Conversava com seus deuses,
que habitavam dentro de sua pouca consciência
Impossível existir um único Deus,
Seria desumano culpá-lo
Mas desumano culpar-se
Não sabia dos motivos de estar ali
Agora, só lhe restava pedir, suplicar
A morte...

Vera Celms

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domingo, 9 de outubro de 2011

A CERCA

Com os portões fechados
Difícil ultrapassar a cerca
Eletricidade em toda a extensão
Cães vigiam, furiosos
Talvez famintos, como eu
Nada conseguirá distraí-los
A não ser o mesmo pedaço de alimento
Que me demoveria da idéia de transpor a cerca
Rezar não me acalma o estômago
Talvez se morresse,
Morrer não me acalma a alma
Meio passo entre a valentia e a coragem
Entre o saciar e o ser saciado
Incomodam-me meus pensamentos
No que mais posso pensar,
Que fique entre eu e o inimigo?
Entre nós, a cerca, intransponível
E nada capaz
Nada voraz o suficiente
É deprimente
Sentar e esperar
O tempo passar
O dia acabar
Nenhuma idéia, nenhum plano,
Talvez o inimigo desista
Quem sabe adormeça
Ou eu enlouqueça
Antes de desistir
Ou sucumbir...

Vera Celms

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domingo, 2 de outubro de 2011

CONTA A HISTÓRIA


Sua lembrança, hoje é só história,
De momentos tão amargos do passado
Imagens, que devem doer em ti também
No momento em que devias plantar
Só querias amealhar sementes
De todos os lados, de todas as fontes
Quanta semente não negou aos teus pares?
Guardaste tanto, que teu futuro amanheceu mofado
Não houve braço suficiente para carregar vida a fora...
Te importaste tanto em ter!
O futuro foi ficando para amanhã...
e para amanhã de novo...
Foram tantos adiamentos, que tempo não houve mais,
Tua história hoje é lição,
Conta-se de um homem,
Que não construiu, nem abrigo nem celeiro
Que não plantou, nem pro seu próprio sustento
Que usou seu tempo, só pra acumular tempo
E que morreu, pobre, triste e avarento...
Assim, conta a história...

Vera Celms

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domingo, 25 de setembro de 2011

LOUCA

Aberta a alcova do silencio
Profundo recanto escondido, escuridão
Masmorra de emoção
Calabouço do prazer
Cenas passando pelos meus olhos
Slow motion, transe, embriaguez,
Tudo tão confuso
O mundo inteiro, num minuto
Difusão de sensações
Confusão de sentimentos
Tudo o que eu imaginava certo
Num repente mudou de lugar
Tão difícil me encontrar
Impossível entender
Estroboscópio, éter, alucinação,
Estremeço, aconteço, enlouqueço,
Aberta afinal, a alcova do silencio,
Óculos lunares, armaduras medievais
Mudos robôs, loucos samurais,
Bucólicas lembranças, viagens siderais,
Dualidade de momentos, instantes irreais
Mas, do silencio, em todos os compartimentos
De saudade, apertado, ainda batia um coração...

Vera Celms

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A obra LOUCA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 18 de setembro de 2011

CHORA MADRUGADA


Vento de tempestade
Aliciando a noite calma
Sussurros, se formam entre as folhas
Que secas, caíram do outono
Os galhos se envergam a cada lufada
Trazendo urgência a madrugada
Vento de tempestade
parece puxar pra perto,
A manhã, que o temor empurra pra longe
Ouço-o uivando pelas frestas
Na ânsia de varrer o sossego
Ribombam trevosos trovões
Rasgam o céu. cortantes raios
Que sob os próprios holofotes
Desafiam a coragem,
deixando ver, impunes,
A madrugada descabelada e atônita,
Vento de tempestade
Acelera meu peito
Ofega minha respiração
Encharcam minhas mãos de transpiração
Levo meu pensamento pra longe
E depressa, a força do vento, o traz bem perto
Ou tampo os olhos ou os ouvidos
Cubro os espelhos
Afasto-me dos metais
A tempestade vem chegando
A chuva aos poucos vai molhando
Chega como uma cortina
Fechando, isolando a madrugada
Que chorando, não consegue acabar...

Vera Celms

domingo, 11 de setembro de 2011

GRITO NA MADRUGADA


Madrugada fria silenciosa
Sussurra pela janela um psiu mansinho
Espreita, olha pra dentro, se insinua
Como se montasse tocaia,
O ar frio da noite entra pela fresta da janela
Estapeando o rosto como um chicote
As mãos e os pés gelados,
Arrepios percorrem o corpo, calados
Fazendo com que quase abrace a mim mesmo
A rua está vazia,
A exceção do guarda noturno, tão sofrido
De repente um gato pula de um telhado para outro
Do décimo terceiro andar, como intrusa
Flerto com a lua, deixando-a me ver
Tudo calmo, muito calmo,
De repente, um grito horrendo corta a madrugada
Um grito de horror, um grito de tamanha dor
Que sinto um calafrio percorrer-me a coluna
Olho para todos os lados, nada vejo
Tudo continua inerte,
A rua permanece vazia,
E agora aquele grito fica ecoando nos meus ouvidos
Como se fosse um eco da noite
Aquilo era mais que um grito de dor,
Parecia um grito de morte
Nas redondezas os cachorros uivam,
Como lobos famintos,
Outros latem, ladrando sem parar
Não sei o que esperar
De imediato fecho as cortinas
Como se de aço fossem
Na parca ilusão de que tranquei a realidade pra fora,
Sem demora vou me deitar,
Cubro até a cabeça, como se me escondesse
Ilusão! Não consigo dormir
Fico na cama, virando de um lado pra outro
Até o amanhecer,
Saio do prédio bem cedo
E assim que dobro a esquina,
Está lá um corpo ensangüentado,
Estendido no chão, coberto por jornais
Na fria manhã de inverno,
Confessando solidão,
Puro anonimato...
Ninguém sabe, ninguém viu,
Logo virá o rabecão
Enquanto isso, os policiais tentam,
Afastar os curiosos...
Ninguém se afasta, todos querem saber
De quem era aquele corpo,
Agora gelado, ensangüentado,
Coberto ali, isolado do mundo,
Já sem culpa, já sem história,
Sem nenhuma explicação...
O dono de mais um  grito na madrugada...

Vera Celms

domingo, 4 de setembro de 2011

DOCE CRIANÇA

Resolvi te buscar,
Afinal buscamos a tantos desconhecidos
Encontramos outros tantos,
que nem procuramos
Te procurei em lares iluminados,
Em escolas edificadas
Em obras edificantes
Procurei-te pelos parques,
Atravessei campos de futebol,
Quadras de esportes, piscinas,
E não te encontrei
Atravessei Museus, Bibliotecas,
Cinemas e teatros,
Buffets, clubes, discotecas,
Também não te encontrei
Atravessei pomares, sítios, fazendas
Palácios, mausoléus, monumentos,
Perguntei então a varias pessoas,
Influentes, até autoridades...
Vereadores, deputados, prefeitos,
Governadores, diplomatas, senadores, presidentes,
Mas, ninguém soube nada dizer,
Ninguém soube, ninguém viu...
Atravessei cidades, estados, países...
Cruzei Sinagogas, Igrejas, Templos,
E lá, me falaram de orfanatos,
Mas, estavam todos vazios
Encontrei lá, caixas e mais caixas fechadas,
com um cheiro forte de deterioração,
Nada, nem ninguém mais...
Então, parei, fechei os olhos, orei,
Pedi forte ajuda ao Céu...
Abri os olhos e diante de mim uma estrada se abriu
Pus o pé a passo
E ao longo da estrada te encontrei...
CRIANÇA, quanta CRIANÇA!!!
Deitadas sobre a poeira do tempo
Deixadas pelo caminho
Uma ou outra cuidada por magras,
tão magras mãos maternas
Vigiada por olhos tão fundos
Apoiadas por paternas faces tão encovadas
Por corpos judiados, calejados e feridos
Dividindo espaço com insetos
Voadores e rastejantes seres
Disputando com eles até a umidade do olhar
Até o rarefeito ar não bastando a todos,
até por carregar pesadas pútridas partículas
A esperança por um fio, já roído
E o tempo, o único que ainda se move,
Ameaçando parar a qualquer momento
Passo, vejo e não consigo acreditar
Não quero, não posso e não vou aceitar...
A fé, vai de corpo em corpo, incansável,
Derramando uma única gota d´agua,
na língua da franzina vida,
Sou um fantasma correndo pelos caminhos
Incrédulo, estupefato, indignado, horrorizado
Não sinto ter o direito nem de chorar,
Não tenho nas mãos nem a água, nem alimento,
Que me garantiram, chegarão amanhã, (...)
Trouxe aqui, somente as coisas
Que todos aqueles que cruzaram meu caminho até aqui,
Não puderam reter para entregar de uma só vez, (...)
Minha humanidade, minha fé,
Minha palavra, em poesia e oração,
Minha energia vital,
Que dôo total e francamente ao plano espiritual
Para que os Socorristas usem como remédio,
curativo, alimento das almas tão cansadas,
por interseção de Deus...
Deixo também, minha promessa franca,
de que tudo farei, para que haja pelo menos respeito,
Por tudo aquilo que a ti não veio,
Não vamos atribuir culpas,
Mas buscar a responsabilidade, de quem possa,
Ainda que não resolver, mas indicar o caminho
Que permita reencontrar teu olhar...
Já tão distante, tão ausente, que tanto implora...
Deus, tende piedade!!! São só CRIANÇAS!!!

Vera Celms

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A obra DOCE CRIANÇA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.


domingo, 28 de agosto de 2011

PROFANOS BARALHOS

Quem mais recorre a sorte
Aos profanos baralhos?
Senão os desesperados
No ato de ensandecer
Sedentos das palavras
Que perdoam
Que relevam
Que decretam
Um insano sem futuro
Um demente sem destino
Um loquaz delirante
Com quantas palavras faz-se um conselho?
Com quantas cartas traça-se um caminho?
Com quantas promessas um arrependido?
Holofotes não permitirão ver
Sacrifícios não perdoarão
Esconderijos não protegerão
O mal feito, o mal será pago
Cobrado quinhão a quinhão
Moeda a moeda,
Passo a passo...
Olho a olho, dente a dente,
Quando o barqueiro está aportado
O destino já foi traçado...

Vera Celms

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A obra PROFANOS BARALHOS de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.


domingo, 21 de agosto de 2011

VOYEUR DE SILHUETAS

Não quero imagens
Nem cenas
Quero sugestão
Idéias a completar
Quero acompanhar as silhuetas
Atrás das cortinas
Na penumbra das janelas nuas
Olhar o formato dos corpos
e de seus atos e movimentos...
De fantasias, não suas, minhas
Quero olhar para o não evidente
E criar meus próprios enredos
Dar vida ao meu submundo
Poder sujar o casto, vê-lo imundo
Transformar descuidos em pecados
Deslizes em afrontas e pesadelos
Quero olhar as silhuetas e dar-lhes rostos
Ainda que os cubra
Por fantasia ou decreto
Na lente do meu binóculo
Uma legião de sombras marginais, desfila impune
Se esconde ou sabe-se desejada e imune
Brincam as sombras,
Brinco eu... de deus...
Invento enredos, decreto finais
O poder dos destinos no meu imaginário
Imaginem quantos não morrerão
Quantos não matarão
Quantos serão somente ignorados
Suas vidas não me importam
Me importam as oportunidades visuais
Aquilo que a lente flagrar
e a imaginação puder reinventar
Importam-me as silhuetas, nada mais...

Vera Celms

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A obra VOYEUR DE SILHUETAS de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.


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domingo, 14 de agosto de 2011

MADRUGADA NAS RUAS

Homem que é homem não chora
Não, homem que é homem,
não acha graça da vida
Seja sóbrio – serio - meu filho, seja sóbrio...
Apaixonado? Isso não é coisa de macho
Não se garante não?
Palavra de homem não volta atrás
Dá moral não...
Deixa que elas corram atrás
Olhai ó!!! Só anda com macho
Daqui a pouco vai dizer que o cara é bonito
Tem é que andar com mulher...
Muita mulhé
Onde já se viu, roupa colorida,
Macho que é macho usa preto, branco e cinza
E isso lá é profissão de hómi?
Da moleza não!!!
Mete a mão...
Toda vez era assim...
O sangue subia, fervia...
Dava um branco, um profundo branco;
Não vi mais nada na minha frente
E quando acordei... a figura já tava aí,
Caído, todo ralado...
Sei lá o que aconteceu...
Não conheço a figura não, cara,
Por aqui? Sempre não... tô sempre sozinho.
Bravo, limpou as mãos e vazou...
Na madrugada com a cabeça sempre a milhão...

Vera Celms

imagem colhida na NET sob título HOMOFOBIA
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A obra MADRUGADA NAS RUAS de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 7 de agosto de 2011

A MENINA INSONE




A menina chorava
Todas as noites a hora de dormir
É dor de barriga, é fome, é manha
Mas, todas as noites a hora de dormir
A menina chorava
Apagavam as luzes
E a menina do sono acordava
E como a menina chorava!
Ninguém sabia explicar, nem resolver
No escuro, nem o sono encontrava
Muito tentavam; ela não conseguia adormecer
Dormia, da mamãe no colinho
Ia a menina para o berço e começava o chorinho
Diziam que era manha
Diziam que era medo
E a menina acordada, olhava pra todo lugar
Parecia alguém procurar
E não parava de chorar
Numa noite qualquer a menina não mais chorou
E todo mundo estranhou
E quando chegaram no quarto
Ao lado do seu berçinho
Havia um cachorrinho
Branquinho todo emplumado,
Enquanto a menina dormia,
vigiava, olhava pra todo lado
Todas as noites aparecia
No resto do tempo, sumia o danado
Ninguém sabia de onde vinha
Muito menos pra onde ia
Um dia, alguém ficou na espreita
Achando aquilo uma coisa suspeita
E pouco antes do clarear do dia
O cachorrinho levantava e sorrateiro saía
Seguido então, aumentou o grande mistério
O cachorrinho sumia, bem diante do portão do cemitério...

Vera Celms

Licença Creative Commons
A obra A MENINA INSONE de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 31 de julho de 2011

O VAGABUNDO E A APAIXONADA

Os olhinhos brilhavam
O coração galopava largo
Difícil controlar a respiração
As mãos suadas se agitavam
Seu corpo inquieto estremecia
Uma flor no cabelo
Uma boneca ainda nas mãos
Com a boca seca, não sabia o que dizer
Da noite ao amanhecer
Pensava nele e um frio tomava seu estômago
Um calor tomava seu peito
Não tinha pernas que a movesse
Paralisada, presa ao chão
Aquilo era demência, não razão
No rastro de seu perfume
A menina levitava, suspirava, transcendia
Aquilo era paixão
E ele, sabedor do que causava
Simplesmente passava
Ela cá suspirava fundo
Pelo belo vagabundo
Sabia que ela o adorava
Mas não podia suportar
Um dia se aproximou
E num beijo, a menina arrebatou
Tomou-lhe um beijo, e o coração levou
No chão, ao lado do menino corpo ensangüentado
Descansava uma faca de cozinha
Descalçou a luva e a rua subiu,
O vagabundo, sumiu!!!

Vera Celms

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A obra O VAGABUNDO E A APAIXONADA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 24 de julho de 2011

DA FÁBRICA


Meu mundo é mudo
Não pode falar
Não consegue nada ouvir,
Com sensações redobradas
A flor da pele
Vibrações e trepidações assustadoras
Movimentos curtos
Reações largas,
Batendo boca com o passado
Intrometido passado
Que teima em estar presente
Aqui, no centro de mim
Uma multidão dorme
Inerte, ocupa espaço
num coração que só trabalha
Povoa sonhos
Pensamentos
E nada me contam
Remotamente, alguém acorda,
Mas, longo some, volta a dormir...
Já inaugurei um cemitério no meu peito
Mas, ninguém se habilita
Grito, grito, e ninguém pode ouvir, ou
Ninguém quer ouvir
E eu, atada, amordaçada e vendada
Não consigo encontrar ninguém
Meu tato não é longo
Meus passos não me levam mais
Guardo muito bem os cheiros
Minha alegria tem cheiro de defensivo agrícola
Era o cheiro que exalava a fabrica
No bairro onde morava,
No tempo em que era feliz...

Vera Celms

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A obra DA FÁBRICA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

domingo, 17 de julho de 2011

QUEM SOMOS NÓS?


Que monte de verdades,
cabe na concha de nossa mão,
que mantemos perto do ouvido?
Fontes mentirosas
Buscas curiosas
Quem somos nós?
Quando olvidamos fatos
Quando ouvimos boatos
Quem somos nós?
Senão um bando de sagüis treinados
Pulando saltitantes de galho em galho
Trocando o certo pelo duvidoso
Agarrando o fugaz ao prazeroso
É nadar em água rasa
Mergulhar em poças d´agua
Construir jangadas ou barcos
pra navegar, e atolar,
De tanto remar, acabar cavando
Saltar do barco pra desencalhar
E por um lapso, um descuido
Da vala a correnteza,
E lá se vai o barco, sozinho,
e você, atolado,
na correnteza a se afogar
Trocamos tudo por nada
Pagamos um preço absurdo
Damos a volta ao mundo num minuto
Pra quê?
Afinal, quem somos nós?

Vera Celms

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domingo, 10 de julho de 2011

LÚGUBRE CAMINHADA

Passeio por entre as tumbas

Cemitérios em dias de inverno!

O sol brilhante, frio gélido

E a paz dos corpos adormecidos

Arrebatados pela Honorável Dama da Vida

Colhidos pelo ceifeiro de plantão

Uma moeda em cada pálpebra

E é feita a travessia

As flores a confundir o ar

Que com o vento, não sabe o que levar

Das flores frescas o olor

Das flores mortas o odor

A chama agonizante das sóbrias velas

Que queimam juntas, em maços, todas elas

Solene ambiente

Que o silencio vigia

Mudo e eloqüente

Fazendo denso o dia

Caminhar entre os iguais

Levados por tempo expirado

Cantado em versos madrigais

Por lembranças contemplado

Assim, contam-nos todos, os seus finais...

Vera Celms

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A obra LÚGUBRE CAMINHADA de Vera Celms foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.