segunda-feira, 30 de agosto de 2010

CABEÇAS

Pouca gente sabe,

Outras tentariam ignorar,

Se ao menos, soubessem

Ou jamais fitariam com naturalidade,

Um manequim,

Fosse de que tipo fosse...


Reza a lenda,

que manequins de loja,

de ateliês, de escolas,

até de laboratórios,

ou de museus,

têm vida própria quando chega a noite,

Quando as luzes se apagam,

E as portas se fecham,

Enquanto as pessoas merecidamente descansam,

após um dia de trabalho...


Assim aconteceu certa vez,

Num laboratório do sono.

Havia, em andares diferentes,

A cabeça de um manequim masculino,

E em outro andar,

a cabeça de um manequim feminino,

usadas para mapeamento em aulas,


Certa noite os faxineiros desavisados,

Encontraram as duas cabeças,

A conversarem nas escadas,

Entre o décimo terceiro e o décimo quarto,


Uma se dizia infeliz,

O outro injustiçado,

E entre uma baforada e outra de cigarro,

Um procurava consolar o outro,

Ora inflamavam suas razões,


Eram assuntos desconexos,

De duas cabeças desconectadas,


Os faxineiros amedrontados,

Se recusavam a limpar as escadas,

Nas madrugadas assombradas,

Mas todos juram,

Que pela manhã,

Tudo voltava ao seu normal,

As cabeças voltavam a ser mapeadas,

Sem reclamar,


Reza a lenda, que naquele laboratório,

os mapas jamais foram exatos,

E os estagiários jamais aprenderam bem,


Afinal, em cabeças assombradas,

Nenhuma medida pode ser exata...


Vera Celms


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

INSANIDADE



Amplo ambiente

De cadeiras vazias,

Brancos pés direito infindáveis,

Nenhum quadro,

Nenhuma imagem,

Nenhuma mancha de uso,

nas paredes tão alvas,

Nenhum som ambiente,

Silêncio absoluto,

Da absoluta solidão

Não há janelas,

Não há ventilação,

O cheiro de morte toma o lugar,

O eco, ensurdecedor e tão longínquo,

Arrebatador,

Nada se move,

Somente um par de olhos esbugalhados,

De movimentos lentos e assustados,

Desconfiados,

Assustadores, nada fitam,

Tornozelos e tronco atados,

Por correias de couro,

De largas fivelas,

Braços cruzados,

que envolvem o próprio corpo,

Atados pela grossa e alva camisa,

Cujas mangas costuradas nas pontas,

Terminam em fitas

Que amarradas entre si, nas costas,

impedem qualquer movimento dos membros,

A cabeça também imobilizada

por outra correia de couro,

presa a prancha gelada por sobre a maca,

com largas fivelas que lhe marcam a fronte,

Ao lado da maca,

Uma mesinha de aço,

Onde repousa a bandeja de inox,

com alguns aparelhos cortantes,

uma seringa já usada,

e ao lado, a dura ameaça

de um aparelho de eletro choque,

Impossível permanecer impassível àquela cena,

Assustadora, apavorante,

Respiração difícil, espasmos involuntários,

Tremores e suores,

Nos olhos, talvez imagens desconexas,

Nenhum pensamento lógico,

Palidez,

Na face, o medo estampado,

Tudo tão involuntário, tão irracional,

Tanta solidão,

Tanto vazio,

Nenhuma atenção,

Nenhuma explicação,

Nada lógico,

Nada crível,

Nenhuma fé,

Nenhuma razão,

Nenhuma palavra,

E nada mais a fazer.

Vera Celms


domingo, 15 de agosto de 2010

PORTAL DO IRRACIONAL


As portas separam ambientes,

Pessoas, momentos,

Privacidade,

Guardada por um espelho,

Pendurado pelo lado de fora na porta,

Que quando fechada,

Reflete na porta a imagem aquém porta,

Difícil imaginar o que acontece além,

Difícil imaginar que exista um além ali,

ou alguém,

ou um enredo,

ou uma história,

quem permanece aquém da porta,

cria imagens próprias,

histórias imaginarias,

O que ocorre além da porta,

Nasce aquém, no imaginário,

Nas possibilidades criativas de cada um,

Que aqui fora,

Vaga pela imagem do espelho,

Quem brinca com o imaginário solitário,

Brinca com imagens assustadoras,

Pessimistas, pesadas,

De pouca ou nenhuma razão,

A viagem é irreal, surreal,

Quem viaja do lado de fora,

Viaja por ambientes abandonados,

Escuro, frio, mórbido,

Por gritos e gemidos,

Por ausências, demências,

Por manchas de sangue,

Que invadem, lá de dentro,

No imaginário, aqui fora,

Na falta de ruídos,

Na falta de sono,

Na falta de equilíbrio,

De quem se esconde atrás do espelho,

No papel, na caneta que assina,

A carta suicida,

De quem não voltará mais,

Na solidão sofrida e perene,

Na vida além da vida,

Na morte,

Na solidão desesperada,

Nas drogas lícitas,

ou ilícitas,

No abandono lícito,

ou ilícito,

Um espelho na porta,

Muda o cenário,

Muda o imaginário,

A disposição,

A visão, a rotina,

A atitude e a razão,

ou a completa falta de razão,

Um espelho na porta,

Seria só um espelho na porta,

Não fosse o portal do irracional.

Vera Celms


domingo, 8 de agosto de 2010

MALAS PRONTAS


Brincar ninguém ousa,

Duvidar muito menos,

Quando é chegada a hora,

Pois mais que se postergue,

A Honorável Dama da Vida virá,

Chegará silenciosa,

Sorrateira, misteriosa,

Inspecionará primeiro o local,

E a menos que o fio de prata,

ainda esteja forte,

Impiedosa ela levará consigo,

o ancião ou o menino,

Aquele que tanto espera,

Sem espernear,

Ou aquele que nem imagina,

Aquele que deitado espera,

Ou que descuidado tropeça,

A fé liberta,

Como a vigília segura,

Não sofisme, não relute,

Malas prontas, na mão da Senhora,

E será uma questão de tempo,

Um suspiro, ou um vento,

E tudo terá mudado de lugar...

Vera Celms