domingo, 18 de julho de 2010

INIMIGO DESCONHECIDO

Tanto a lembrar,

Dos últimos momentos de mim

Dor, pouco ar, indignação,

Tanto tempo sem sentidos,

Tudo sentia,

Intenso, mudo, resignado,

Tanto tentei dizer,

Contar o que sentia,

Quanta dor,

Mas nenhuma palavra consegui,

Nenhum mínimo som,

Nem um soluçar,

As imagens frescas na memória,

As agressões, os açoites,

Imobilizado,

Nunca entendi porque eu,

Nem porque tanto,

Jamais soube dos motivos

De alguém que pudesse

Manter-me amarrado,

Pernas e braços atados,

A dormência,

Seguida de dores lancinantes,

O sangue que ressecava

Seguidas vezes

E voltava a verter,

Após cada golpe,

Jamais entendi onde estava,

Aquele Deus que sempre acreditei,

Pra quem sempre orei,

Incansavelmente,

E que inabalável me esqueceu,

Tudo durou enquanto podia chorar,

Estremecer e me contorcer,

Praguejar, odiar com intensidade,

Manter o sangue vívido no olhar,

Se soubesse, teria esmorecido mais cedo

Teria entregado as forças,

Teria abandonado a fé

Teria deixado minha alma fugir,

Não mais se incomodar,

Não mais resistir, nem revidar,

Teria poupado meu sangue,

E até a força do inimigo,

Indomável, incompreensível,

Inabalável,

De quem nunca conheci nem o rosto,

Porque meu Deus, porque?

Vera Celms


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