domingo, 16 de maio de 2010

SOB O IMPACTO DA LUZ




Sete anos. Fazia sete anos que Laura não se movia.

Uns diziam que era choque pós traumático, outros que era coma, outros que era coisa do oculto.

A explosão até hoje não fora explicada. Como mágica, todos em volta da mesa, jantando, e de repente aquela explosão na sala de jantar, seguida de um enorme clarão.

Quem viveu aquela cena jamais esqueceu. Parecia que haviam jogado uma bomba pra dentro da sala. Mas, por onde, de onde, como?

A sala de jantar era o ultimo cômodo da casa, e o terreno acabava num muro de arrimo de 6 metros de altura. Nem se quisessem, poderiam ter jogado uma bomba, que acertasse uma janela estreita daquelas, semi aberta, sem que a tivessem estraçalhado completamente.

Somente os vidros estilhaçaram com a explosão, a janela permaneceu intacta. Difícil acreditar.

Parecia mesmo coisa do oculto, pois nenhum vestígio de explosivo fora encontrado no local. Era como se uma bomba de luz, de forte impacto tivesse detonado aquele local. Todos foram lançados a distancia. Laura fora a única a permanecer sentada, junto da parede, e nunca mais se mexeu.

Sete anos. Sim, isto aconteceu há sete anos, e seu quadro não sofrera nenhuma alteração desde então.

Aquela bomba parece ter tido o efeito paralisante somente nela. Todos os demais, após cicatrizados os ferimentos, voltaram a vida normal. Se é que alguém pode permanecer normal depois de um acontecimento desses.

Laura sofreu ferimentos como todos os outros, somente as marcas permaneceram, como de queimaduras mal curadas.

Varias foram as tentativas, vários os médicos, os exames, os tratamentos. Somente à luz Laura reagiu, como demonstrando medo.

Dr.Clemente disse, que a luz provoca em Laura, a mesma sensação do acidente, gerando sombras que somente ela é capaz de observar.

Como se tivesse ficado presa numa caverna muito escura, com luz indireta pelas costas, gerando sombras numa parede. Somente àquelas sombras existe algum tipo de reação, como se ela observasse pessoas ao invés de sombras. Como se aquelas sombras fossem os habitantes do novo mundo particular de Laura.

É assustador assistir as reações que ela apresenta as luzes. Seus olhos parecem seguir e observar pessoas que se movimentam lentamente em todas as direções. Sua expressão varia da indiferença ao medo e novamente a indiferença.

Os médicos não sabem diagnosticar seu caso. Somente identificam como provável choque pós traumático e que pode se reverter ou não e a qualquer momento.

Certa vez chamaram Asdruben, um bruxo ou mago, ou feiticeiro, que provocou um transe, e durante esse transe descrevera exatamente a situação de muitas, muitas sombras no lugar onde ela estaria presa, como a tal caverna escura descrita pelo medico.

O transe de Asdruben durou aproximadamente 30 minutos, e quando retornou, narrava imagens disformes e grotescas. Nenhum som, como se a situação, fosse apenas uma alucinação muda.

Foi a única aproximação daquela situação havida durante esses sete anos. Medicamentos, muitos medicamentos, que controlam ou fazem aumentar as alucinações de Laura, ninguém sabe ao certo.

Sua mãe é quem mantém a vida dela em certa regularidade. Banhos, alimentação, roupas, cabelos, leituras, cuidados, carinho. E as reações por enquanto permaneceram nulas, ou bem próximo disso.

Até a madrugada de 31 de outubro. As 3 horas da manhã, a casa toda acordou de sobressalto, com uma gritaria enorme que parecia estar vindo do quarto de Laura.

Todos correram para saber o que estava acontecendo e a encontraram com a luz do abajour acesa, em pé, diante do espelho grande do quarto, que ficava exatamente do lado oposto a cama, na mesma parede.

Era como se ela houvesse se assustado consigo mesma diante do espelho, com a luz indireta bem atrás de si. Por um momento, pareceu a representação do ambiente descrito por Asdruben e pelo médico, só que diante dela, no espelho do quarto.

Sua expressão era de profundo pânico. Completamente empalidecida, com os olhos arregalados de medo, completamente ofegante, descabelada, ali parada diante de si mesmo.

A reação de todos foi de medo e de surpresa. Afinal, depois de sete anos, Laura estava fora da cama, esboçando uma reação, por estranha que fosse.

Dna.Drica, não sabia se abraçava a filha de felicidade ou se a acolhia fazendo-a voltar para a cama. Optou por acolhe-la.

No momento em que a tocou, uma luz saltou de seu olhar e Laura agrediu a mãe violentamente, deixando caída no chão do quarto, sem vida.

Tentaram impedi-la de sair dali, mas foi inútil. Laura fugiu dali como um animal encurralado e sumiu sem deixar pistas.


Vera Celms


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