segunda-feira, 24 de maio de 2010

ESPREITA


Pontes e fumaça,

Disfarce ideal,

momento soturno,

Um longo corredor vazio,

Repleto de portas batidas,

Silêncio da noite,

Entrecortado por passos masculinos,

De botas de couro pesado,

Com largas fivelas,

Sujas do barro já ressecado das estradas,

Nas mãos um chicote,

E as ferragens cortantes de armadilhas,

Da caça,

Nos olhos, o brilho raso

Da perda,

Da falta,

Da presença indesejável,

Da morte, de um amigo,

Corredores de um Hospital,

na madrugada fria,

Vez ou outra um gemido,

um grito,

uma porta batendo,

E as duras botas caminham,

Procurando o corpo sem vida,

Daquele que há poucas horas ria,

Com um copo na mão,

Com a sentença de morte quase vazante,

Na garganta,

Sabiam que não deviam,

Mas era irresistível,

Era mais forte que eles,

Comemorar uma vitoria,

E sair em montaria,

Noite fria, enfumaçada,

O cheiro do canavial queimado por todo lado,

E a morte espreitando sorrateira,

O cavalo empinou, chacoalhou,

Estremeceu quando viu a “tocaia”,

no rolo de fumaça,

Lançou o peão pra cima,

Rodopiou no ar e jogou no chão,

Não houve tempo nem de pensar,

E a espreitante levou o espreitado no colo,

Pescoço quebrado,

E ao amigo, de longe, na procura,

O brilho raso da dor...

Ela sempre sabe o que quer.

Vera Celms


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