segunda-feira, 26 de abril de 2010

ANTI REFLEXO


Quem pensa ser?

A verdade, ilusão?

é negligência...

Acaso pensa ser Deus?

quem quer que eu pense ser,

quem quer que qualquer um pense que você é,

nada vai mudar,

não é alguém acima do bem e do mal,

não é impune,

também não é ninguém,

que possa carregar o peso do mundo nas costas

ou a quem seja atribuída culpa, ou a falta dela,

é tão suspeito quanto qualquer um

posso carregar meu próprio peso,

posso decidir o que fazer,

posso ter certeza do que é melhor pra mim,

neste momento,

o melhor é que me deixe por minha conta,

sei conduzir meu barco,

sei qual o melhor caminho a tomar,

sei quem é você,

e quem sou eu também,

sou o piloto dessa nave incandescente,

a que chamo vida,

e você, não é nem o reflexo,

no vidro, pelo lado de fora...

Vera Celms

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O ESPELHO



A casa era grande demais.

Desde de que sua mãe morrera, Tama vinha dizendo a seu irmão para que vendessem a casa, mas apegado as coisas materiais como era, nunca concordava.

Ela ficava a maior parte do tempo sozinha em casa. Conhecia cada um dos sons produzidos por todo aquele espaço desocupado. A tábua do assoalho que estalava, os pombos no forro da casa, ratos no porão, as unhas do ruivão se coçando no quintal, o fogão estalando na madrugada, a geladeira uivando o tempo todo.

Todos os barulhos lhe eram familiares e não assustavam mais. O que assustava era o silêncio, o som do silêncio zunindo nos seus ouvidos já tão sensíveis a tudo.

Durante o dia já não era fácil. Tantas lembranças, uma vida inteira de recordações espalhadas pela casa. O vaso que seu pai ganhara dos patrões, a tapeçaria bordada por sua mãe, as toalhas tão alvas que sua mãe sempre fez questão de manter, bem como os lençóis. A louça sempre foi a mesma, desde criança. Nada mudou, nada mudará.

Vender a casa tão grande, já seria um bom começo, mudar de ares, lugar menor, menos coisas a guardar e a lembrar. Não precisava ser um lugar tão bom, mas um lugarzinho sossegado, sem fantasmas do passado e velhas recordações.

Artur não admitia vender a casa da família, pois apostava na segurança de um lugar seu, de um lugar tão conhecido, tão familiar, e era exatamente o que Tama queria esquecer.

Tama procurava um sem numero de atividades fora de casa. Além do trabalho de meio período no correio, ocupava suas tardes com aulas de pintura, de musica, de artesanato, fazia visitas as suas amigas de sempre. Tudo era tão repetitivo, previsível, nada acontecia que pudesse alavancar sua vidinha tão pacata.

Resolveu um dia comprar um computador para poder bater papo com as pessoas pelo mundo afora. Comprou um de segunda mão, muito básico e com o pouco que sabia de informativa, aprendido na escola, começou a se interessar por diversos assuntos que até então só via nas aulas ou em livros e revistas.

Viajou o mundo sem sair de casa, aliás, sem sair de seu quarto.

Artur costumava viajar a trabalho com frequência, e o computador afinal, lhe era uma boa companhia, fez novos amigos, aprendeu novos assuntos, se interessou por muita gente afinal.

A pratica lhe era cada vez mais prazerosa. Navegava horas e horas, se esquecendo até de dormir, chegando comumente no trabalho com olheiras de cansaço, por ter dormido pouco. Mas, não se importava.

Um dia Artur voltou de viagem e lhe trouxe afinal o espelho de corpo inteiro que tanto Tama havia pedido. Uma bonita peça artesanal de moldura e pendurou na porta do quarto dela. Quando Tama voltou para casa do trabalho, deparou-se com aquela peça maravilhosa na porta de seu quarto.

Ficou tão feliz! Afinal, Artur havia se lembrado do espelho, depois de tanto tempo. Olhou, olhou, olhou... enamorava-se de si mesma diante daquele espelho. Olhava-se enquanto se arrumava, antes de sair de casa para mais um retoque, voltava da porta e olhava-se de novo, constatando o que já havia visto. Voltava pra casa, olhava-se de novo, como que para conferir que estava bem ainda e logo entrava no quarto em busca de seu computador.

Por algum tempo, Tama parecia ter esquecido a monotonia, a mesmice de sempre. Afinal, agora tinha atividades o tempo todo. Escrevia, conversava, viajava, pesquisava, buscava por coisas novas, curiosidades, afinal, seu mundo agora era outro. A nova Tama e seu espelho maravilhoso.

O que não notava era que tinha se adaptado a uma nova rotina. Levantava-se pela manhã, preparava-se para o trabalho, sempre diante do espelho, olhava, voltava, olhava mais uma vez e outra. Pronta! ops, peraí, o cabelo assim fica melhor, a blusa por dentro da saia? Por fora ficou bem também. Chegava a porta, já em cima da hora e voltava pra ver mais uma vez... e acabou sendo prisioneira da própria imagem no espelho.

Não se dava conta do quanto era vaidosa, ou do quanto tinha se tornado exigente com sua própria imagem.

Aquilo estava se tornando uma neurose, uma mania insuportável. Onde estava procurava um espelho, ou o vidro de uma vitrine. Achava-se linda, perfeita, maravilhosa e cada vez mais exigente, comprava sempre novas roupas ou adereços, ou cosméticos.

Começou a observar de forma negativa as outras pessoas, as outras moças que não tinham o mesmo cuidado que ela com a própria aparência. Não podia comprar coisas caras, mas o que comprava era sempre muito mais do que precisava, até deixar de comprar coisas imprescindíveis para casa para comprar a ultima novidade em acessórios.

O que Tama não podia imaginar, é que Artur havia comprado o tal espelho num antiquário mágico.

Ali, todas as peças tinham poderes especiais ou guardavam alguma maldição. A moldura do espelho de Tama, era de lâminas do tronco de uma arvore centenária, da floresta Goldsmith no norte da Irlanda.

Proximo daquela floresta, vivia um povoado, gente simples, mas muito rica, que no intuito de expulsar uma colônia de bruxas, mandou derrubar a floresta e utilizou a madeira daquelas arvores na construção de moveis, casas, adornos e tudo o mais possível.

Sabe-se que muitos anos depois, o povoado foi dizimado por um incêndio e as peças que haviam sobrado foram vendidas em leilões promovidos pelo governo local, para recuperação da área de floresta devastada e nunca mais nada foi construído no lugar daquele povoado.

Alguns dizem que foram as bruxas responsáveis pelo incêndio que dizimou o povoado. Outros que, a madeira que fora utilizada pelos colonos estava amaldiçoada. Enfim, são várias as lendas e tantas outras histórias.

Contam que as peças remanescentes viajaram o mundo todo e estão espalhadas pelos quatro cantos. Este antiquário, seria um dos muitos que guardam ainda as tais peças amaldiçoadas.

Conta a lenda, que a principal maldição fora contra a riqueza e a ostentação, contra a vaidade excessiva e seus efeitos.

Todo aquele que visse sua imagem refletida naquele espelho, com olhos de riqueza e ou ostentação e que utilizasse dessa imagem contra quem quer que fosse, sofreria um castigo.

Tama, cada vez mais cega por sua beleza e requinte, não sabia o que lhe esperava.

Ela era agora uma outra pessoa, muito diferente daquela moça simples que vivia amuada pelas lembranças e fantasmas do passado. Seu computador no seu quarto, agora representava um novo mundo, um referencial estranho a sua vida, mas apaixonante e cada vez mais envolvente.

Quando entrava em seu quarto, não notava, mas entrava através do espelho. Olhava-se quando chegava, e através do espelho entrava num mundo irreal, cheio de fantasia, brilho, luxo e riqueza. Por menos condições que tivesse de ostentar riqueza, o espelho lhe dava isso.

Seu quarto, era o antigo sótão da casa velha, que com o tempo foi desativado e que simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse havido.

Tama chegava em casa e ia para o NADA... ali entrava e permanecia por horas e horas e horas, completamente esquecida do mundo e das coisas que lhe eram tão conhecidas.

Artur pouco ficava em casa e quando não via a irmã, entendia que estava numa de suas atividades fora de casa e não se preocupava com ela.

Agora Tama era outra pessoa. Costumava ser arrogante e cruel. Tratava as pessoas como lixo, humilhava e ofendia as pessoas em qualquer lugar que discordassem dela.

Naquele dia, Artur chegara em casa alguns momentos antes de Tama, que chegou enraivecida com alguma coisa que acontecera na calçada. Quando Artur abriu a porta, encontrou Estela, a melhor amiga da vida inteira de Tama, aos prantos, contando que havia sido humilhada e esbofeteada por ela, verdadeiramente desconsolável.

Artur, que antes de abrir a porta viu a irmã subindo as escadas, levou a moça para a sala, a fim de auxiliá-la e foi atrás dela.

Não mais a encontrou. Procurou por todos os quartos, banheiro, enfim, por toda a casa e não mais encontrou a irmã. No final do corredor, o espelho embaçado, no mesmo lugar onde o havia colocado, não refletia mais nada.


Vera Celms


domingo, 11 de abril de 2010

MALHA DO TEMPO



Grossa a malha do tempo,

Cobrindo a extensão da vida,

Forte resistência,

mantém inerte,

Passa o tempo, o temporal,

Passa a neve, a tempestade

De neve, de areia,

Já cobre, o sal,

Dunas formadas pelo tempo,

por sobre a malha,

Colunas sedimentadas,

Como estatuas, como monumentos,

Como edificações monumentais,

Nada arreda, nada mina,

Mas as pequenas explosões da vida,

Dinamitam o que não teve alicerce,

O que só remontou,

O que se formou,

O que sobrou de uma história,

Tão sóbria

Tão obvia,

Tão pobre,

Nenhum enredo sobrou do seu personagem,

Um vazio dilacerante talvez,

Um lugar onde algo deveria ter se formado e passou,

Um lugar que foi ocupado pelas tralhas do vento,

Pelo lixo,

Pelos restos, pelas farpas,

Pelas poucas barbas,

Pelo embaçamento dos óculos,

Pelas marcas das correntes,

não pelos dentes,

pelas marcas dos dedos,

não das unhas,

não das cordas,

nem dos braços,


Vera Celms


domingo, 4 de abril de 2010

PEDRA



Abri a porta e ele estava lá.

Magro, o rosto encovado,

Cabeludo e barbudo como um primata,

Não estava sujo,

Mas não estava bem cuidado,

Tentou sorrir,

Lhe faltava um dente,

Os óculos embaçados,

Pelo tempo ou pelo descuido,

As mãos trêmulas e maltratadas,

Parecia doente,

Bem doente,

Vi naquele olhar por sobre as lentes,

algo de familiar;

esquisito, mas familiar,

A mesma arrogância,

A mesma pouca flexibilidade,

A pouca crença na vida,

Não disse nada,

Faltou palavras,

Faltou coragem,

Faltou motivo,

Faltou presença,

Simplesmente virou-se e partiu,

Como quem veio, foi...

Não sei a que veio

Não sei porque foi...

Horas depois encontrei-o caído,

No caminho,

No meu caminho,

Como sempre foi...

Só que dessa vez era pra sempre...


Vera Celms