domingo, 28 de março de 2010

OS DESCONHECIDOS

Julio Dantas (A Manuel Penteado)


Dois cadáveres — vêde — aguardam o meu córte:
Um homem gigantesco e uma mulher perdida.
Dormem nús, sôbre a pedra, unidos pela morte,
E talvez, sem se vêr, passaram pela vida.

Êle, o morto, na sêca e descarnada espalda
Tem nomes de mulher e várias tatuagens;
Treme de nojo o sol na sua pele jalda
E abrem-lhe a bôca verde uns esgares selvagens.

De torax d’esmeralda, asa tecida d’ouro,
Uma nervosa môsca, em passos indolentes,
Para entrar-lhe na bôca aflora o buço louro
E começa a descer pela escada dos dentes.

Morto há dias, olhai que a rigidez se perde
E que o seu corpo está gelatinoso e elástico:
Suas costelas são como um tèclado verde,
Digno das longas mãos dum pianista fantástico!

Ela morreu de parto: entre as airosas côxas
Que doira como um fruto uma lanugem pouca,
Um féto mostra ao sol as suas carnes rôxas,
Ajoelhado, a rir, sem olhos e sem bôca.

Tem rugas sôbre o ventre, e lembra, cada ruga,
As que a pedra ao cair traça nos verdes pântanos:
Os seus cabelos são dum ruivo tartaruga,
O seu rictus pertuba e o seu olhar espanta-nos.

Bate-lhe em cheio o sol, como losango d’ouro;
Tem no seio listrões de sangue que secou:
E pelo flanco enorme, e pelo púbis louro,
Lembra os ventres brutais que Van Miéris pintou.

Dir-se-ia que o morto a olha, — reparai,
E lhe espreita e deseja as carnes violadas;
D’aí, quem sabe lá se êle seria o pai
Daquele féto rôxo a rir às gargalhadas!



domingo, 21 de março de 2010

DEPRESSÃO



Ela sempre vem,

Sem cor, sem cheiro, sem jeito,

Sem nome ou sobrenome,

Como quem não vai ficar,

E me leva o sono,

o impulso, a vontade,

o despertar,

Ela sempre vem,

Como quem chega de uma longa viagem,

sem nunca ter saído do lugar,

Sem modos ou motivos...

Arrancando de mim um pedaço,

Deixando um oco profundo,

Sem nada, sem ninguém,

Sem número ou endereço,

Sem ter a quem recorrer,

Vazio...

Vácuo... solidão...

Tristeza profunda, sem motivação,

Vontade de sumir dentro de mim,

e não voltar nunca mais,

Vontade de reinventar o azul,

Barulhos estranhos,

Lugares escuros,

Sem medo, sem coragem de sair do lugar,

Me falta o objetivo, me falta propulsão

Me faltam vozes e corações,

Me falta calor humano,

Me falta atenção,

Me falta a quem pedir socorro,

Vontade de ficar aqui, assim, pra sempre...

Vontade de ser esquecida,

De não ser incomodada,

De poder chorar baixinho,

De sentir saudade, de chorar... chorar...

Vontade de voltar,

Mas, ela me rouba as forças,

Me leva o sono, o impulso,

A vontade e o despertar,

Vontade de ser socorrida sem ter de pedir...

Vontade de refazer tudo... sozinha,

Ou não acordar nunca mais...


Vera Celms


domingo, 14 de março de 2010

CRIATURA


A ALIDIA IVANOFF, “SUICIDA” AOS 76 ANOS


Te tenho ainda com ternura,

Tu, que sempre fora um lago de sossego,

Colo que em tantas vezes chorei,

Regaço que tantas vezes busquei,

Tu, que por toda vida foste vida,

Que em tantas amarguras,

te julguei perdida,

Pensei...

Poço de brandura,

Doce criatura,

Tantos anseios...

Que na fuga do abandono,

Buscaste vida,

Que na hora da solidão,

Fugiste da escuridão,

E hoje, com tanta vida vivida,

Entregaste a própria vida,

A força de tuas mãos,

Tu, criatura sofrida,

Não choraste,

E mais de uma vez provaste,

Que não vale tanta força,

Diante de um vilão.

Agora, te encontro fria,

Por sobre a pedra vazia

Declarando solidão,

Tu que não me vês mais, criatura,

Mostre pra mim a figura,

Entregue-me tua espada,

Passe-me a tua bravura,

Pra que eu possa lutar

Me deixe continuar,

Fazer a tua vontade,

Pagar a tua bondade

Por quem jamais lhe deu liberdade

Você, que no fim da jornada,

Não pode esperar a chamada,

e buscou o guardião,

Se ainda estiver por perto,

Deixo meu sonho aberto,

Para qualquer aviso ou decisão

Quero ser o anfitrião dos teus atos,

Quero dos teus desejos fatos,

Quero ser a tua mão

Só não lhe juro vingança,

Pois desta vida sou criança

Mas, se outra mão te levou embora,

Farei da minha uma espora,

E semearei desalento,

Lembrarei teu lamento,

Está é a minha esperança

Que de você trago de herança

E da tua ultima imagem

Meu olhar guardou selvagem,

a marca do sofrimento

Que no seu ultimo momento

Com flores disfarçada

Ainda ficou gravada,

Querida... como te amei...

Vá com Deus!!!


Vera Celms