domingo, 7 de fevereiro de 2010

MALMORADO


Guntar, mau humor 98% do tempo.

Nunca vi... é inexplicável. Deve ser uma pessoa de mau com o mundo, consigo mesmo.

Comum é sair chutando as pessoas. Não literalmente, é óbvio, é um chato, mas louco ainda não é.

Guntar acorda de manhã e logo grita com o travesseiro porque perdeu a hora de novo. Levanta e grita com o espelho, escova os dentes com tanta força que chega a sangrar as gengivas. Não toma o café, engole o café como que com raiva do que tem ou do que não teve para aquela manhã.

Pelo olhar dele sua mãe já sabe como será o dia do primeiro a cruzar o seu caminho.

- Bom dia Guntar!!!

S I L Ê N C I O !!!...

Ninguém passa impunemente pelo mau humor dele.

Costuma dizer, nos poucos momentos de bom humor, que existe um clone, um sósia dentro dele, um outro ser, homônimo e transparente que o chuta ainda dormindo e toma o seu lugar.

Explicável? Sim. isto até poderia explicar o estado de Guntar.

Um dia. passava pela rua e um senhor, magrinho, grisalho, barbudo, com ares de mago, de feiticeiro olhou e ousou interromper sua caminhada, lhe dizendo:

- perto de você mora um bruxo, ao seu lado – e continuou andando, sem maiores explicações.

Guntar saiu daquele lugar tentando lembrar de cada vizinho, de cada amigo, conhecido, enfim e não lembrou de ninguém que se encaixasse na descrição de um bruxo.

Pensava ele – as vezes é um bruxo do bem, por isso não deve ter cara de bruxo e nem aparência de bruxo – desconsiderou aquela análise e logo entrou em estado de mau humor novamente e saiu chutando até a idéia.

Varias foram as vezes que Guntar passava pelo mesmo lugar procurando aquele senhor, tão simpático e corajoso que ousou cruzar seu caminho, e o pior, a para-lo para dizer TAMANHA ASNEIRAAAAAAAAAAA, pensava ele...

Um dia passava pelo mesmo lugar e teve a impressão de ver aquele senhor e perseguiu a figura.

- Desculpa senhor...

- Sim, bom dia, como vai meu filho?

- Filho??? Lembra-se de mim?

- Sim, aquele com quem o bruxo habita...

- Como assim? Estou tentando entender isso desde o dia que me disse isso e não consigo lembrar de ninguém que possa parecer com um bruxo que more perto de mim.

- Meu filho, desculpe, modo de dizer. Como é seu nome?

- Guntar, o meu nome é Guntar...

- Prazer Guntar, sou Belkin.

- Prazer Sr.Belkin, pode me explicar isso? – já impaciente...

- Claro Guntar, o bruxo não mora perto de você, como um vizinho. Ele mora com você...

- Moro com minha mãe somente, deve haver um engano...

- Não, não entendeu, vejo ele agora mesmo acompanhando você, aí do seu lado, como se fosse uma sombra sua.

Guntar olhou precipitadamente para os lados, como se pudesse ver o tal bruxo olhando rapidamente.

- Não, não o verá como eu. Sou um mago e por isso tenho a capacidade de ver algumas coisas que a maioria das pessoas não enxergam.

- Quer dizer que eu tenho alguém que me acompanha direto? Que besteira!!! – e saiu andando a passos brutos, mas voltou logo em seguida e procurando conter seu mau humor. Sentiu que seria a única possibilidade que teria de saber detalhes disso, ainda que não fosse verdade.

- Guntar, algumas pessoas tem acompanhantes invisíveis, ou melhor, a maioria das pessoas tem, só que não vêem. Por isso tem atitudes inexplicáveis ou perfis inexplicáveis. Você é nervoso NE?

- Sou, quer dizer, minha mãe diz que sou mau humorado de nascença, mas é claro que isso é um exagero!

- Não creia ser um exagero, é verdade. Este que te acompanha é um bruxo negro, é um bruxo do mal... por isso se sente sempre assim, ranzinza, mau humorado... deve ter a ver com os astros no momento do seu nascimento...

- Ah não!!! Agora vai querer jogar essa de mapa astral em mim?

- Não quero jogar nada em você. Não precisa acreditar em nada do que eu digo, mas quem veio me procurar foi você. Eu jamais teria te abordado pela segunda vez.

Belkin se virou para sair caminhando quando Guntar o abordou novamente.

- DESCULPE... NÃO QUERIA SER GROSSEIRO...

- mas foi...

- JÁ PEDI DESCULPA! Des cul pa ...

- Claro. Sei que não deve ser fácil. Ninguém acompanhado de um bruxo negro pode ser completamente pacifico o tempo todo. Mas creia, tem como apaziguar isso tudo.

- Verdade? Me diga como?

- Precisa de informação – entregando um cartão a Guntar saiu simplesmente, sendo abordado novamente em seguida...

- NÃO PENSE QUE VAI SAINDO ASSIM, ME ENTREGA UM CARTÃO E PRONTO?

- sim, é o que tenho a fazer, posso oferecer a mesma ajuda que tive.

- Quer dizer que o senhor também tem o mesmo problema que eu?

- Digamos, que não tão grande, mas tive sim e foi nesse lugar que consegui entender de forma correta e consegui digamos, domar um pouco o que me fazia tanto mal.

No cartão havia o nome e o endereço de uma espécie de irmandade, que trabalhava com Bruxos, bruxos brancos, com poderes para o bem e para orientar todo o mal.

Guntar guardou o cartão. Procurou pelo lugar dias mais tarde e passou a entender o que mantém perto de si.

Como se fosse um Guardião, só que é uma figura muito, mas muito forte, que não faz o mal, mas é de uma força indomável sem ajuda. Guntar é uma das tantas e tantas pessoas que carregam consigo, amigos invisíveis que projetam forças que nós seres comuns não entendemos e muitas vezes temos de conviver com eles.

Algumas pessoas, por outro tipo de orientação, pode chamar de encosto, ou de amigos invisíveis, com quem não falamos, mas temos de conviver. Existem varias explicações, inclusive para pessoas que se entendem loucas, até mesmo internadas em manicômios por falta de ajuda. Pessoas que julgam serem esquisofrênicas ou psicóticas ou até mesmo pessoas más simplesmente, capazes de crimes, barbáries ou atitudes de toda sorte ruim.

As vezes é preciso uma orientação correta, uma ajuda avalizada para que tudo isso se explique e ou até se trate.

Guntar hoje, tem lapsos de mau humor como a maioria das pessoas tem normalmente, mas nunca mais se julgou um psicótico, como imaginava. Só mesmo em momentos certos e em lugares certos, dá vazão àquele que o acompanha, usando toda a sua força.


Vera Celms


Nenhum comentário:

Postar um comentário