domingo, 21 de fevereiro de 2010

MEDO LÁ DE FORA



A chuva lá fora, caía desesperada.

O vento grasnava, enquanto se cortava por entre as folhas assustadas das palmeiras, que assistiam a tudo impassíveis.

Lucas era o único morador em muitos kilometros. Sobre o telhado, a chuva se espatifava sem dó. O barulho, era de uma hecatombe, e o incessante som da água correndo nas calhas acabava em grossas goteiras pelas placas de flandres que cobriam os viveiros.

Raios, trovões, clarões assustadores, sombras trazidas pela imaginação, silhuetas formadas pela natureza sempre tão silenciosa e mansa, transformavam aquela paisagem, vista pela janela, num espetáculo dantesco...

A luz de dentro de casa estava apagada por medo de descargas elétricas. A luz de fora, ficou acesa por esquecimento e, pelo embaçamento dos vidros formavam-se arcos de luz deformados, ganhando a imaginação de Lucas, que procurava, sem sucesso, não pensar em nada.

Há tanto tempo não chovia tanto. Os animais se escondiam da chuva, e a água corria insana pelo terreiro. Olhando pela janela, via-se a plantação deitar no chão e os canteiros se confundirem com os rios que se formavam entre eles.

Aos poucos seu pensamento foi se perdendo pela própria vida. A esposa grávida recém falecida num acidente, seus pais tão distantes, seu irmão que partira sem ao menos se despedir depois da briga.

Solidão, só solidão... dura, triste, esmagadora. Não tinha como voltar para a casa de seus pais e perder tudo o que construíra a duras penas antes da morte de Lisete.

Agora era tocar a vida, quem sabe encontrar outra esposa, quem sabe trazer seu irmão de volta, fazer as pazes... trazer seus pais para viverem com ele. Nesse momento, tudo passava de uma só vez em sua cabeça tão confusa.

Um raio forte, como que o acordou dos devaneios tão profundos fazendo-o retornar a realidade de seu medo desmedido, daquela tempestade maldita.

Pensava na criação, na plantação... no estrago, no prejuízo...

O desespero o assolava cada vez mais... num crescente sem fim... Lucas era moço ainda, 30 anos, mas as vezes sentia como se tivesse 70, tamanho o seu desolamento.

Era triste viver só... era cruel... o destino estava sendo cruel demais. Aquilo foi tomando conta de sua razão e se transformando em revolta e finalmente em raiva. Sentia seu rosto queimar, sentia-se injustiçado pelo destino e por Deus.

- Deus, porque permite que isso aconteça comigo? Me esqueceu aqui sozinho nesse mundão? Quanto tempo espera que eu agüente essa situação calado? Vou destruir tudo isso aqui, vou mandar as favas todo o negocio e o que já trabalhei aqui e vou voltar para a casa dos meus velhos. Lá eles devem precisar mais de mim...

Resolveu ligar o radio, ainda que o medo fosse maior do que estivesse suportando. E pra aumentar seu desespero, ouviu que a cidade de Mato Dentro estava sendo assolada também pela tempestade e que já haviam mortos.

- Meu Deus, perdoe... perdoe tudo o que disse. Esquece Senhor, prometo que se meus pais estiverem bem, vou tentar trazê-los pra morar comigo... eles estão velhinhos e não podem mais tocar a fazenda por lá... permite Senhor que eles estejam bem!

Agora o sentimento era de tristeza e de incerteza.

O descontrole foi tomando conta, o choro compulsivo foi evoluindo, até que de cansaço, acabou por adormecer.

Sonhou com a água carregando terra pra todo lado, deslizamentos, desmoronamentos, mortos. Não via rostos, não sabia de identidades, mas todos de repente pareciam ter o rosto dos seus.

Dentro daquele sufoco, daquele desespero, dormiu até o amanhecer, agitado, nervoso... farto da solidão, das incertezas.

Levantou-se bem cedo e ao abrir a porta deu com a plantação dizimada, animais mortos pelo pasto, nos viveiros. Cercas derrubadas pela fúria dos ventos. Era desolador.

Sentou-se ao pé de uma arvore, com a cabeça entre as mãos, chorando, querendo noticias de seus pais e irmão, quando de repente ao longe, viu um cavalo surgindo, com um homem, que não reconheceu a distancia.

Quando chegou bem perto, reconheceu seu irmão com a fisionomia bastante abatida, mas se alegrou por um instante, em revê-lo.

Thiago apeou do cavalo com uma calma quase soturna. Lucas imaginou imediatamente que as noticias que chegavam não eram das melhores.

Aguardou o irmão se aproximar, levantou-se cauteloso. Pra sua surpresa foi recebido pelo irmão com um abraço acolhedor, longo e não menos desesperado.

- Lucas, meu irmão, as noticias não são boas... a tempestade acabou com tudo, o Pai e a Mãe estão desaparecidos depois da chuva. A casa deles e de mais alguns colonos foi levada pela chuva e são muitos os desaparecidos, na verdade são uns 150, entre adultos e crianças. A criação foi dizimada, a plantação não existe mais.

Entre os desaparecidos, minha esposa e dois filhos pequeninos. Preciso que venha comigo, que me ajude a encontrá-los, quem sabe alguém com vida. Primeiro, quero te pedir perdão por tudo o que aconteceu.

- Eu também Thiago, te peço perdão. Pensei que nunca mais fosse te ver. Não sabia que tinha casado e muito menos que tinha filhos. Agora é hora de perdão, e se Deus permitir, recomeçar aqui, se realmente tudo por lá foi destruído como disse.

Seguiram viagem, em seus cavalos, com mantimentos, cordas, arreios, um cavalo extra como tração, e toda a fé que Deus permitiu que reunissem.

Dias depois localizaram os corpos de seus pais, soterrados pelo desmoronamento, e os corpos de sua cunhada e da filha de 5 aninhos.

Para um pouco de felicidade, o menino de 4 anos, fora encontrado com vida, porem bastante debilitado.

Sepultaram seus mortos, os dois irmãos e o menino e voltaram para as terras de Lucas a fim de recomeçar a vida, a partir do pouco restante.

Alguns meses depois Thiago também faleceu, acometido de complicações de pulmão.

E, tudo começou com uma tempestade que caía desesperada lá fora, do vento que grasnava, se cortando entre as folhas de palmeiras, de todas as imagens fictícias ou não que formaram todo o medo que paralisou Lucas. Que nunca mais teve medo de tempestades...

Vera Celms

ERA - ASSASSIN`S CREED

JUIZO FINAL



Engana-se quem engana,

Engana-se quem dissimula,

Engana-se quem acha que pode enganar,

Quem leva uma vida,

Quem leva uma década,

Quem leva uma época,

Leva a si mesmo, para o fim,

Engana-se quem acha,

Que a vida faz algum favor,

Que encobre, que disfarça,

Que camufla,

Ou mistura os fatos,

Abrandando o resultado,

Se engana... engana ao outro,

Demorando tanto,

Pode-se chegar atrasado,

O resultado, pode já ter sido declarado,

Ou julgado,

Ou decidido no empate,

Ou decidido o desempate,

Engana-se quem deixa pra depois,

Engana-se quem finge,

Não querer,

Não precisar,

Não questionar,

Não prescindir,

Um dia, pode ser tarde demais,

Pois o juízo, não é o final,

Mas, a cada dia...

O JUIZO FINAL, É FEITO, A CADA DIA...


Vera Celms