domingo, 24 de janeiro de 2010

SEPTUAGÉSIMA SEGUNDA HORA



Quem está no subsolo, no subterrâneo, pode não saber exatamente o que aconteceu.

Quem está soterrado, pode imaginar que só a edificação onde está foi danificada, ruiu.

As horas vão passando, as forças acabam, o ar se torna mais denso, mais irrespirável. O cheiro de ruína intensificado a cada momento, prova que não deve de fato ter sido a única vitima dessa catástrofe, mas não dimensiona estar entre 200 mil desaparecidos, considerados mortos.

O tempo vai passando, não se sabe quanto já passou, pois o tempo se alterna entre consciência e inconsciência, entre sono e vigília, entre razão e desespero.

Um dia José ouviu dizer, que numa catástrofe, são 72 horas em que se deve encontrar alguém com vida. Passado esse tempo,são parcas as esperanças e as vezes os socorristas, o resgate chega a desistir de procurar vida nos escombros, contentando-se em resgatar corpos.

Quanto tempo terá passado? Quantas noites? Quantos dias?

O raciocínio está lento, a fraqueza do corpo acusa que o tempo não é pouco, mas talvez seja a falta de água ou de alimento, ou o cansaço. Tudo isso vai passar, tem de passar.

José presta atenção a todos os barulhos próximos, para localizar alguém a quem pedir socorro. Sabe que na superfície, seja lá qual for a sua profundidade, deve ter alguém procurando alguém, quem sabe, procurando por ele.

Em situações como essa, pensa José, todo silêncio é valioso para localizar qualquer tipo de barulho que indique vida no subterrâneo.

Vou gritar, pensa ele, mas não consegue, as forças não são suficientes e sabe que se não fizer nenhum barulho, não vai chamar atenção sobre sua existência ali naquele lugar.

- S o ccc o rrrrrr!!!

E a voz não sai o suficiente alto. Ainda se houvesse mais um sobrevivente por aqui, podíamos tentar unir as forças para chamar.

- Alguém aí? – falou baixo desta vez, poupando forças e ninguém respondeu.

Primeiro pensa que seria melhor ter morrido. Depois, já arrependido pensa que melhor mesmo é estar vivo, ter uma chance de ser salvo.

Mas quanto tempo a mais ficará ali, incógnito? Melhor mesmo seria ter morrido!!!

- Deus me perdoe, vão me achar... – pensa José desesperançoso.

De repente ouve vozes ao longe. É uma esperança. Será que conseguiria ser ouvido?

- Socorrrrrroooo!!! Socoooooro!!!

As vozes diminuem. Será que passaram direto ou será que estão tentando localizar a sua voz tão incerta, tão enfrecida?

- Socorrrrrrrrrrr!!!!! Socooooooooooo!!!

Nada, ninguém responde, nada se mexe, ninguém emite mais nenhum som.

O cheiro é horrível, parece carne podre. Deve ser algum animal morto... ou será gente morta? Pensa José, incrédulo.

Uma ponta de medo invade a alma de José, que logo pensa? Deve estar cheio de gente morta por aqui, tinha tanta gente que trabalhava no prédio e se eu estou aqui, deve haver mais gente. Será que ninguém teria sobrevivido? Só eu? Será que estou morto também?

José ouvira dizer que as vezes, as pessoas desencarnam e permanecem no local do corpo, se achando vivo e na verdade está só habitando, circundando o local do corpo sem vida...

- Meus Deus, lamenta José, o que há comigo? Me dá uma resposta, me dá uma certeza.

De repente ele se lembra que tem um celular no bolso da calça e logo pensa: Como não pensei nisso antes?

Rapidamente, ainda que com dificuldade, alcança o bolso onde está o celular, mas não há sinal, não consegue completar nenhuma ligação.

Desiludido pensa estar perdido, estar morto, estar condenado ao esquecimento. Algum tempo depois lembra de olhar a data no celular e tem uma triste constatação: São 4 dias passados desde a ultima vez que usei o celular, ou seja, já deu o prazo... tenta fazer as contas...

Se um dia tem 24 horas, dois são... 48. Meu Deus, 48 mais 24 são... ou melhor 48 mais 48 são... Senhor!!! São 96 horas que estou aqui... será que já desistiram da busca por sobreviventes, por isso não ouço nada?

Senhor... me ajude, me socorre, manda alguém, com um copo d´agua, com um pedaço de pão, pra que eu agüente mais um pouco.

O cheiro de podridão aumenta o tempo todo. Por um instante pensou: Serei eu quem está exalando este cheiro? Não sinto minhas pernas...

Tentou se mexer sem sucesso, sentia-se paralisado da cintura pra baixo. Olhava no escuro e nada via, mas podia sentir os escombros com as mãos. Parecia uma parede, um bloco imenso de concreto, ferragens sensíveis à mão.

Minhas pernas, o que terá acontecido com minhas pernas? Será que ainda as tenho?

Senhor! Mande ajuda pra mim, pedia José, desesperado...

Ninguém chegava, ninguém respondia, ninguém fazia nenhum barulho. Ouvia de vez em quando o que parecia pequenos desmoronamentos, como se novos blocos de concreto caíssem ou se acomodassem por sobre os escombros.

A noite era constante, nada via, nenhum facho de luz, nenhuma fresta que ajudasse identificar dia ou noite. O celular não ligava mais, devia ter esgotado a bateria e não conseguia mais ver nada.

Sentia-se cansado, esgotado, desesperado e desesperançoso, sentia-se totalmente abandonado por Deus. Pedia ajuda o tempo todo, tentava rezar... mas nem as idéias mais conseguia organizar.

Não sabia mais se estava falando ou chorando, ou perdendo a capacidade de raciocínio somente. Sentia-se desfalecer de vez em quando, como se tivesse dormido horas, ou desmaiado e acordava de vez em quando.

Continuava sem nada ver, sem nada ouvir... e assim foram mais algumas horas, dias... Não sabe mais quanto tempo ficou ali, até que suas forças cederam completamente.

José teve seu corpo resgatado depois de 6 dias do Terremoto que assolou o Haiti, com o celular ainda na mão.

O comentário do bombeiro foi: - olha esse homem, estava com o celular na mão, ou estava falando quando foi soterrado ou ficou vivo por mais tempo tentando contato. Melhor, quando é assim que tenha morrido sem nada sentir. Deus o acompanhe. E foi amontoado aos demais corpos ali localizados.


Vera Celms


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