domingo, 10 de janeiro de 2010

MENSAGEM



Marta começou a ver coisas cedo demais.

Tinha 4 anos, mal falava e já contava para sua mãe que a moça tava falando pra não ir lá, ou que o moço tava bravo e não deixava a gente passar.

No principio, sua mãe achava engraçado e ia onde Marta falava pra não ir. A primeira vez, quebrou o pé num escorregão que tomara com a criança no colo. Na segunda foi ao chão e se esfolou inteira.

Com o tempo Soraia começou a prestar atenção ao que a menina dizia e procurava não fazer as coisas contrárias ao que ouvia. Entretanto, Soraia não deixava que Marta percebesse que era feita a “sua vontade “, até para que não se valesse disso tempos mais tarde.

Assim foi a vida toda de Marta, seres avisando disso ou daquilo, prevenindo situações desastrosas, precavendo-a de uma série de acontecimentos.

Ela já convivia com isso naturalmente, mas procurava não falar para seus amigos novos, ou para desconhecidos, pois se sentia “especial” por isso.

Procurava alertar as pessoas da forma mais sutil, como se pudesse somente antever o perigo como um ser humano comum.

Só que agora ela mesmo se sentia confusa. Estava no trem que ia para Calógeras e de repente um papel voou da janela pra dentro, trazido pelo vento.

Inevitavelmente leu o que estava escrito:

“ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Imediatamente Marta amassou o papel com uma certa raiva e lançou-o pela janela do trem, como se alguém tivesse mandado aquele recado para ela.

Era só um papel que o vento trouxe janela a dentro.

Marta não conseguia tirar aquelas instruções da cabeça e funcionava como se fosse uma obrigação, ditando-lhe ordens.

- Que loucura!!! Devo estar maluca.

Chegou em casa uma hora depois do ocorrido e ouvia aquela instrução claramente, como se alguém ditasse aos seus ouvidos.

Ao se aproximar da caixa do correio de sua casa, como fazia sempre, abriu-a para verificação de chegada de correspondência e encontrou um envelope pardo semi aberto, com seu nome escrito a mão com caneta de escrita grossa e a inscrição “PESSOAL” logo abaixo.

Sentiu um arrepio ao ler o envelope e o abriu sem pensar duas vezes. Qual não foi sua surpresa ao encontrar lá dentro um papel amassado e reaberto com a seguinte inscrição: “ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Era inegável, a mensagem era para ela mesmo, e a mesma que havia descartado durante a viagem. Largou o papel como se tivesse queimando em suas mãos e entrou correndo em sua casa.

Largou o material da escola sobre a mesa da sala e foi ao banheiro. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho e viu que sua pele estava vermelha na mesma proporção que a sentia arder.

Foi a cozinha, tomou um copo de leite com biscoitos, e depois de sentir-se melhor, resolveu afinal sentar-se para fazer os deveres de casa, como sempre fazia.

Procurou não pensar no ocorrido, mas era impossível.

Abriu o livro de português, onde devia ler um texto de FERNANDO PESSOA e lá estava:

Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal,

e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado,

por uma magia natural, enquanto dorme.

Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Fernando Pessoa

Logo abaixo dizia: Marta, “ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Marta largou o livro e correu para o jardim e lá ficou até que sua mãe voltasse do trabalho e a acordasse, deitada no banco debaixo da figueira.

- Que foi Marta? Porque está aqui fora? O que aconteceu?

Marta tentou contar pra mãe, mas não conseguia explicar de forma que ela pudesse entender. Recorreu então ao livro de português, e aflita tentou contar e mostrar o recado que a perseguira durante todo o dia.

- Aqui mãe...

- Filha, aqui não tem nada, tem um trecho de FERNANDO PESSOA somente, por sinal muito bonito.

Marta olhou estarrecida para o livro que não mostrava nada do que dizia à sua mãe. Procurou esquecer o assunto e viver naturalmente nos dias que se seguiram.

Verdade que nos dias seguintes nada viu, nada recebeu, nada houve.

Assim se passaram semanas. O caminho de ida e volta de casa para a escola, nenhuma surpresa trouxe e Marta apagou aquela recordação da cabeça.

Algum tempo depois, sua mãe recebeu uma noticia sobre sua avó que passava mal e fora internada no Hospital local. Combinaram que Soraia iria buscar Marta na Escola e de lá iriam visitar a vovó.

Foram, visitaram e voltaram já tarde da noite, na passagem de trem constava data e horário da partida, 13 de agosto de 2009 00:00 hs.

Marta adormeceu deitada no colo de sua mãe e sonhara com o tal bilhete. Acordou assustada e quando olhou sobre o banco do trem, havia um folhetinho, onde constava somente a inscrição: “aguarde instruções”.

Assustada virou-se para sua mãe, com o papel na mão e disse:

- Mamãe, lembra-se que outro dia fui lhe mostrar um bilhete no meu livro de Portu...

Fez-se então um clarão enorme, como se houvesse um holofote sobre ela somente. Ela acordou dentro de um Hospital, com o livro de Português na mão, sem entender o que acontecera.

Olhou em volta e viu então a enfermeira chegar com uma injeção na mão que lhe aplicou.

Marta voltou a dormir novamente.

Vera Celms


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