domingo, 31 de janeiro de 2010

DESVENDAR O MISTÉRIO



Vou tecer a teia

À luz da Lua...

Deusa mãe...

Ao luar que entra pela janela

Como mãos de fada,

Alquímica e desveladamente

Quero abrigar a magia

Quero brilhar a energia

Quero salvar as almas

Trilhar a estrada enluarada

Da vida,

Da chama,

Do fogo,

Dos ventos de furacões

Das águas de marés cheias

À visão da tempestade chegando

Na terra de meus Deuses

Da Ashka perdida

E encontrada no véu,

Da teia sagrada,

Que ora visto como manto...

Para conhecer a magia

E partilhar o mistério...


Vera Celms


domingo, 24 de janeiro de 2010

SEPTUAGÉSIMA SEGUNDA HORA



Quem está no subsolo, no subterrâneo, pode não saber exatamente o que aconteceu.

Quem está soterrado, pode imaginar que só a edificação onde está foi danificada, ruiu.

As horas vão passando, as forças acabam, o ar se torna mais denso, mais irrespirável. O cheiro de ruína intensificado a cada momento, prova que não deve de fato ter sido a única vitima dessa catástrofe, mas não dimensiona estar entre 200 mil desaparecidos, considerados mortos.

O tempo vai passando, não se sabe quanto já passou, pois o tempo se alterna entre consciência e inconsciência, entre sono e vigília, entre razão e desespero.

Um dia José ouviu dizer, que numa catástrofe, são 72 horas em que se deve encontrar alguém com vida. Passado esse tempo,são parcas as esperanças e as vezes os socorristas, o resgate chega a desistir de procurar vida nos escombros, contentando-se em resgatar corpos.

Quanto tempo terá passado? Quantas noites? Quantos dias?

O raciocínio está lento, a fraqueza do corpo acusa que o tempo não é pouco, mas talvez seja a falta de água ou de alimento, ou o cansaço. Tudo isso vai passar, tem de passar.

José presta atenção a todos os barulhos próximos, para localizar alguém a quem pedir socorro. Sabe que na superfície, seja lá qual for a sua profundidade, deve ter alguém procurando alguém, quem sabe, procurando por ele.

Em situações como essa, pensa José, todo silêncio é valioso para localizar qualquer tipo de barulho que indique vida no subterrâneo.

Vou gritar, pensa ele, mas não consegue, as forças não são suficientes e sabe que se não fizer nenhum barulho, não vai chamar atenção sobre sua existência ali naquele lugar.

- S o ccc o rrrrrr!!!

E a voz não sai o suficiente alto. Ainda se houvesse mais um sobrevivente por aqui, podíamos tentar unir as forças para chamar.

- Alguém aí? – falou baixo desta vez, poupando forças e ninguém respondeu.

Primeiro pensa que seria melhor ter morrido. Depois, já arrependido pensa que melhor mesmo é estar vivo, ter uma chance de ser salvo.

Mas quanto tempo a mais ficará ali, incógnito? Melhor mesmo seria ter morrido!!!

- Deus me perdoe, vão me achar... – pensa José desesperançoso.

De repente ouve vozes ao longe. É uma esperança. Será que conseguiria ser ouvido?

- Socorrrrrroooo!!! Socoooooro!!!

As vozes diminuem. Será que passaram direto ou será que estão tentando localizar a sua voz tão incerta, tão enfrecida?

- Socorrrrrrrrrrr!!!!! Socooooooooooo!!!

Nada, ninguém responde, nada se mexe, ninguém emite mais nenhum som.

O cheiro é horrível, parece carne podre. Deve ser algum animal morto... ou será gente morta? Pensa José, incrédulo.

Uma ponta de medo invade a alma de José, que logo pensa? Deve estar cheio de gente morta por aqui, tinha tanta gente que trabalhava no prédio e se eu estou aqui, deve haver mais gente. Será que ninguém teria sobrevivido? Só eu? Será que estou morto também?

José ouvira dizer que as vezes, as pessoas desencarnam e permanecem no local do corpo, se achando vivo e na verdade está só habitando, circundando o local do corpo sem vida...

- Meus Deus, lamenta José, o que há comigo? Me dá uma resposta, me dá uma certeza.

De repente ele se lembra que tem um celular no bolso da calça e logo pensa: Como não pensei nisso antes?

Rapidamente, ainda que com dificuldade, alcança o bolso onde está o celular, mas não há sinal, não consegue completar nenhuma ligação.

Desiludido pensa estar perdido, estar morto, estar condenado ao esquecimento. Algum tempo depois lembra de olhar a data no celular e tem uma triste constatação: São 4 dias passados desde a ultima vez que usei o celular, ou seja, já deu o prazo... tenta fazer as contas...

Se um dia tem 24 horas, dois são... 48. Meu Deus, 48 mais 24 são... ou melhor 48 mais 48 são... Senhor!!! São 96 horas que estou aqui... será que já desistiram da busca por sobreviventes, por isso não ouço nada?

Senhor... me ajude, me socorre, manda alguém, com um copo d´agua, com um pedaço de pão, pra que eu agüente mais um pouco.

O cheiro de podridão aumenta o tempo todo. Por um instante pensou: Serei eu quem está exalando este cheiro? Não sinto minhas pernas...

Tentou se mexer sem sucesso, sentia-se paralisado da cintura pra baixo. Olhava no escuro e nada via, mas podia sentir os escombros com as mãos. Parecia uma parede, um bloco imenso de concreto, ferragens sensíveis à mão.

Minhas pernas, o que terá acontecido com minhas pernas? Será que ainda as tenho?

Senhor! Mande ajuda pra mim, pedia José, desesperado...

Ninguém chegava, ninguém respondia, ninguém fazia nenhum barulho. Ouvia de vez em quando o que parecia pequenos desmoronamentos, como se novos blocos de concreto caíssem ou se acomodassem por sobre os escombros.

A noite era constante, nada via, nenhum facho de luz, nenhuma fresta que ajudasse identificar dia ou noite. O celular não ligava mais, devia ter esgotado a bateria e não conseguia mais ver nada.

Sentia-se cansado, esgotado, desesperado e desesperançoso, sentia-se totalmente abandonado por Deus. Pedia ajuda o tempo todo, tentava rezar... mas nem as idéias mais conseguia organizar.

Não sabia mais se estava falando ou chorando, ou perdendo a capacidade de raciocínio somente. Sentia-se desfalecer de vez em quando, como se tivesse dormido horas, ou desmaiado e acordava de vez em quando.

Continuava sem nada ver, sem nada ouvir... e assim foram mais algumas horas, dias... Não sabe mais quanto tempo ficou ali, até que suas forças cederam completamente.

José teve seu corpo resgatado depois de 6 dias do Terremoto que assolou o Haiti, com o celular ainda na mão.

O comentário do bombeiro foi: - olha esse homem, estava com o celular na mão, ou estava falando quando foi soterrado ou ficou vivo por mais tempo tentando contato. Melhor, quando é assim que tenha morrido sem nada sentir. Deus o acompanhe. E foi amontoado aos demais corpos ali localizados.


Vera Celms


domingo, 17 de janeiro de 2010

CORROSIVO


Um amor destrutivo,

Me entreguei,

Te amei,

Tanto, que esqueci de mim,

Pra pensar só em você,

Teve, pra mim, palavras tão duras,

Ásperas, grosseiras,

Ponteagudas e cortantes,

Acidas, corrosivas,

Fui tão sua que esqueci de ser minha mesmo

Me desesperei,

Achei que ia morrer,

Quis tantas vezes lancetar meu próprio peito,

Rasgar a fronte,

Pular da ponte,

Quis afogar comigo o que tinha em mim,

Pra que não sobrasse mais pra você,

Quis tomar remedios,

Quis tomar pileque,

Me embebedar gravemente,

Me esquecer,

Quis tomar veneno,

Dividir o formicida com o formigueiro

Mas nem isso tive coragem,

Achei uma bobagem,

Você conseguiu ser mais forte que tudo isso,

Você sobreviveu ao meu amor,

Ao meu horror,

Ao meu torpor,

Ao meu valor,

Se sobrepôs, saiu por cima,

E eu continuo aqui,

Completamente alheia,

Completamente alucinada,

Morrendo de saudade,

Com cicatrizes nos pulsos,

Com seqüelas dos impulsos,

Imaginando, como teria sido sem você,

E só consigo sentir sua falta,

Nada mais,

Você não está aqui,

Como nunca esteve...

Esqueci,

Quando te conheci,

De ver que por mim,

Sentira só entusiasmo...

Corrosivo...


Vera Celms


domingo, 10 de janeiro de 2010

DJ TIESTO - EXTACY

MENSAGEM



Marta começou a ver coisas cedo demais.

Tinha 4 anos, mal falava e já contava para sua mãe que a moça tava falando pra não ir lá, ou que o moço tava bravo e não deixava a gente passar.

No principio, sua mãe achava engraçado e ia onde Marta falava pra não ir. A primeira vez, quebrou o pé num escorregão que tomara com a criança no colo. Na segunda foi ao chão e se esfolou inteira.

Com o tempo Soraia começou a prestar atenção ao que a menina dizia e procurava não fazer as coisas contrárias ao que ouvia. Entretanto, Soraia não deixava que Marta percebesse que era feita a “sua vontade “, até para que não se valesse disso tempos mais tarde.

Assim foi a vida toda de Marta, seres avisando disso ou daquilo, prevenindo situações desastrosas, precavendo-a de uma série de acontecimentos.

Ela já convivia com isso naturalmente, mas procurava não falar para seus amigos novos, ou para desconhecidos, pois se sentia “especial” por isso.

Procurava alertar as pessoas da forma mais sutil, como se pudesse somente antever o perigo como um ser humano comum.

Só que agora ela mesmo se sentia confusa. Estava no trem que ia para Calógeras e de repente um papel voou da janela pra dentro, trazido pelo vento.

Inevitavelmente leu o que estava escrito:

“ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Imediatamente Marta amassou o papel com uma certa raiva e lançou-o pela janela do trem, como se alguém tivesse mandado aquele recado para ela.

Era só um papel que o vento trouxe janela a dentro.

Marta não conseguia tirar aquelas instruções da cabeça e funcionava como se fosse uma obrigação, ditando-lhe ordens.

- Que loucura!!! Devo estar maluca.

Chegou em casa uma hora depois do ocorrido e ouvia aquela instrução claramente, como se alguém ditasse aos seus ouvidos.

Ao se aproximar da caixa do correio de sua casa, como fazia sempre, abriu-a para verificação de chegada de correspondência e encontrou um envelope pardo semi aberto, com seu nome escrito a mão com caneta de escrita grossa e a inscrição “PESSOAL” logo abaixo.

Sentiu um arrepio ao ler o envelope e o abriu sem pensar duas vezes. Qual não foi sua surpresa ao encontrar lá dentro um papel amassado e reaberto com a seguinte inscrição: “ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Era inegável, a mensagem era para ela mesmo, e a mesma que havia descartado durante a viagem. Largou o papel como se tivesse queimando em suas mãos e entrou correndo em sua casa.

Largou o material da escola sobre a mesa da sala e foi ao banheiro. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho e viu que sua pele estava vermelha na mesma proporção que a sentia arder.

Foi a cozinha, tomou um copo de leite com biscoitos, e depois de sentir-se melhor, resolveu afinal sentar-se para fazer os deveres de casa, como sempre fazia.

Procurou não pensar no ocorrido, mas era impossível.

Abriu o livro de português, onde devia ler um texto de FERNANDO PESSOA e lá estava:

Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal,

e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado,

por uma magia natural, enquanto dorme.

Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Fernando Pessoa

Logo abaixo dizia: Marta, “ vá até o último vagão do trem que sai as 00:00 hs do dia 13 de agosto, da estação de Lagoa Mansa e espere até que ultrapasse a estação Sapucaí. Espere por instruções...”

Marta largou o livro e correu para o jardim e lá ficou até que sua mãe voltasse do trabalho e a acordasse, deitada no banco debaixo da figueira.

- Que foi Marta? Porque está aqui fora? O que aconteceu?

Marta tentou contar pra mãe, mas não conseguia explicar de forma que ela pudesse entender. Recorreu então ao livro de português, e aflita tentou contar e mostrar o recado que a perseguira durante todo o dia.

- Aqui mãe...

- Filha, aqui não tem nada, tem um trecho de FERNANDO PESSOA somente, por sinal muito bonito.

Marta olhou estarrecida para o livro que não mostrava nada do que dizia à sua mãe. Procurou esquecer o assunto e viver naturalmente nos dias que se seguiram.

Verdade que nos dias seguintes nada viu, nada recebeu, nada houve.

Assim se passaram semanas. O caminho de ida e volta de casa para a escola, nenhuma surpresa trouxe e Marta apagou aquela recordação da cabeça.

Algum tempo depois, sua mãe recebeu uma noticia sobre sua avó que passava mal e fora internada no Hospital local. Combinaram que Soraia iria buscar Marta na Escola e de lá iriam visitar a vovó.

Foram, visitaram e voltaram já tarde da noite, na passagem de trem constava data e horário da partida, 13 de agosto de 2009 00:00 hs.

Marta adormeceu deitada no colo de sua mãe e sonhara com o tal bilhete. Acordou assustada e quando olhou sobre o banco do trem, havia um folhetinho, onde constava somente a inscrição: “aguarde instruções”.

Assustada virou-se para sua mãe, com o papel na mão e disse:

- Mamãe, lembra-se que outro dia fui lhe mostrar um bilhete no meu livro de Portu...

Fez-se então um clarão enorme, como se houvesse um holofote sobre ela somente. Ela acordou dentro de um Hospital, com o livro de Português na mão, sem entender o que acontecera.

Olhou em volta e viu então a enfermeira chegar com uma injeção na mão que lhe aplicou.

Marta voltou a dormir novamente.

Vera Celms