domingo, 27 de dezembro de 2009

VIOLETA



Estava há dias, ou semanas, sentado no chão frio do banheiro.

Nú, completamente encolhido, com medo de sair e sentir as mesmas dores de antes.

Era como se tivesse agulhas implantadas pelo corpo, que toda vez que saia do banheiro, pareciam sofrer a ação de um imã gigante, que fazia com que elas andassem por sob sua pele.

As dores eram tão lancinantes, tão enlouquecedoras, que nem a roupa lhe caia mais sobre o corpo naturalmente.

Não sabia o que estava acontecendo, nem pretendia descobrir. Queria somente se livrar daquele suplicio.

Odair não se lembrava mais há quanto tempo tinha saído de casa, ou sequer do banheiro.

Seu corpo congelava durante a noite, no frio da madrugada e durante o dia, amortecido pelo frio da noite, dormia, acordando de tempos em tempos, com a sensação de que algumas daquelas agulhas tinham se deslocado do lugar.

Seu sono era intranqüilo, tinha pesadelos, sobressaltos, sustos monstruosos.

Quando se aproximava do espelho, tinha a impressão de poder ver as pontas das agulhas por sob a pele, marcando seu corpo todo e o rosto também. A primeira vista era como se espinhas inflamadas lhe nascessem pelo corpo todo.

Não podia tocar nas marcas, pois a sensibilidade era realmente algo de ferroar a pele.

Parecia um castigo, uma mandinga, uma bruxaria. Não podia saber e nem explicar, mas sentia o tempo todo, um ódio tão cruel e não sabia porque, nem por quem, nem por o que. Era um sentimento de raiva, de repulsa, de dilaceração.

Tinha a certeza de ter sido abandonado por todas as entidades do bem.

Seus olhos agora, pareciam olhos de uma pessoa demente. Eram arregalados, pupilas grandes, dilatadas e constantemente vermelhos, como se tivesse sangue nos globos oculares.

Sua pele agora tomara um tom avermelhado com marcas de sangue, e alguns hematomas espalhados pelo corpo.

No principio mantinha contato com alguns amigos, pelo computador, ou pelo telefone. Aos poucos sentia que os contatos eram cada vez mais difíceis.

Com o tempo, o telefone arrancou da parede com a instalação toda, num dos acessos de raiva, e o computador ainda estava funcionando precariamente, e sabia ele, com os dias contados.

Ninguém mais o procurava há meses. Estava sem dúvida se transformando num ser estranho e recluso.

Impossível não ser procurado por mais ninguém. Ninguém lhe batia a porta, e nem pelo computador recebia mais noticias ou mensagens de quem quer que fosse, perguntando sobre seu sumiço nas rodas de amigos. Também, não deve ser fácil ser amigo de alguém tão mau humorado assim, pensou de si per si.

A sensação que tinha era de que ele nunca houvera existido, como se tivesse sido um sonho que acabou, ou um pesadelo do qual jamais conseguira acordar.

Um bicho do mato, ou das trevas; era assim que se via ultimamente.

Talvez fosse melhor mesmo que ninguém o procurasse, pois explicar qualquer coisa já lhe parecia impossível.

Seu auto controle já estava na beira do precipício há muito tempo, e concatenar as idéias cada vez menos possível.

Tinha surtos de ira intensa a maior parte do tempo, e as lembranças pareciam agora um emaranhado de fios descascados presos numa teia de aranha metálica.

Odair não sabia mais quanto tempo aquilo tudo ia durar, ou quanto tempo iria agüentar aquela situação limítrofe.

Precisava sair de lá, talvez se saísse pudesse ter uma chance de tratamento, ou de cura espontânea. Mas, como sair com tantas dores?

Cruzar a porta do banheiro tinha se tornado naturalmente uma missão completamente impossível. Foi então que teve uma idéia, que, na verdade, duvidava ser viável, mas era a única forma de sair daquele casulo ao qual se recolhera.

Nos poucos momentos de calma que tinha, começou a estudar uma forma de arrombar a janela, que era do tipo que se abria como uma porta, e com o peso que devia ter perdido, pois há tempos não conseguia se alimentar, achava ser possível com um pouco de esforço, ultrapassar aquela barreira.

O mais perigoso talvez fosse chegar ao chão, pois estava no segundo andar do prédio.

Aos poucos foi forçando a dobradiça, até que pouco tempo depois conseguiu romper uma das três, seguido de mais um acesso de raiva incontrolável.

Mais um tempo demandaria, depois daquele acesso, pois não sabe se em função da falta de alimentação e da força que exercera para romper aquela dobradiça, sentia suas mãos tremerem, tirando-lhe a capacidade parcialmente.

Com o tempo, calculando provável uma semana, conseguiu romper as três dobradiças, subiu no beiral e completamente nu, saltou em direção à garagem do prédio, a noite.

Tinha medo de ser surpreendido, pois se sentisse medo ou se assustasse com alguma coisa, poderia ter outro daqueles acessos de dor e raiva e acabar fazendo mal para alguém. Esta consciência ainda conseguia manter.

No momento em que pulou, sentiu-se como um animal, e caiu em pé, de forma suave e macia, tocando o solo e rapidamente se esgueirando na direção do muro, que saltar não lhe fora nenhum sacrifício.

No momento em que alcançou a rua, tentou lembrar de alguém que gostasse dele o suficiente para poder ajudá-lo naquele momento tão difícil.

Lembrou de Violeta, sua ex namorada. Entretanto, lembrou da briga que teve com ela dias antes de começar a sentir as dores, por intransigência sua mesmo, e já não teve a mesma certeza de ser ela a pessoa mais indicada.

Lembrou de Rafael, seu amigo de infância; por um momento lhe pareceu a decisão mais sábia a tomar.

Tomou rumo da casa de Rafael e o encontrou diante de sua casa, dentro do carro com sua namorada.

Chegou perto do carro, com o intuito de que somente Rafael o visse. No entanto, quando se aproximava do carro, viu sua imagem no reflexo do vidro traseiro e se assustou com o que vira.

Sentiu-se algo parecido com um lobisomem, barbudo, cabeludo, desarrumado, com olhos transtornados, arregalados e inchados, mas não tinha outra alternativa a não ser tentar contato visual com Rafael.

Aproximou-se mansamente do vidro ao lado do passageiro, onde estava Margarida, de costas. Quando Rafael o viu, tomou um susto enorme e a primeira reação, foi abraçar Margarida, tentando encontrar a chave do carro para poder arrancar dali.

Odair conseguiu fazer um movimento com as mãos, muito comum entre os dois quando se cumprimentavam na rua, o que deixou Rafael sobressaltado, mas atento.

Com muita dificuldade, Odair conseguiu pronunciar o nome do amigo, que reconheceu sua voz, associada ao gesto feito no cumprimento.

Margarida de imediato saltou para o banco detrás do carro, se protegendo ao máximo. Rafael por sua vez, se arriscou a pronunciar o nome do amigo, que respondeu prontamente:

- Sou eu Rafael, Odair, me ajude...

- Odair? Que aconteceu contigo? Como está horroroso, que houve?

- Não sei exatamente, sei que preciso de ajuda, me leve a um medico.

Prontamente, Rafael saltou do carro, e tirando Margarida do banco detrás, mandou que entrasse correndo pra dentro de sua casa, enquanto Odair se sentava no carro. Em poucos instantes rumavam para o Hospital Central.

No caminho, Rafael tentava questionar de Odair, os fatos que pudessem explicar de alguma forma aquela situação, quando este, repentinamente teve mais um acesso de dores pelo corpo, seguido de ira.

Rafael parou o carro, saltou e trancou a porta por fora e ficou olhando até que percebeu diminuir de intensidade e voltou a se aproximar mais uma vez.

Odair começou a contar rapidamente a questão da impressão de agulhas pelo corpo e sobre as dores, e os acessos de raiva, e as pontas pelo corpo. Contou que não se lembrava há quantos dias não comia nada, só tomava água.

Aos poucos, Rafael começou a associar o quadro de Odair com algo que ouvira de Margarida, sobre sua prima Violeta – ex namorada de Odair.

Margarida outro dia lhe contara, verdadeiramente revoltada, que sua prima tinha procurado uma feiticeira, ou bruxa, sei lá como se chamava, para tratar de MAGIA NEGRA, VUDÚ e esse tipo de coisas. Contou que não gostava desse assunto e que isso a apavorava demais. Que aconselhou sua prima a não fazer isso e após brigarem, Violeta disse que não faria nada, mas desapareceu por horas e não mais voltou a tocar no assunto.

Que 3 dias depois, tinha voltado ao quarto de sua prima e vira um bonequinho de pano, todo perfurado de agulhas, onde só as pontas apareciam no bonequinho e bem próximo, um imã que ela mantinha dentro de uma caixinha de madeira.

Disse não entender o contexto, mas que não gostara do que havia visto e quando questionou o assunto da prima, essa desconversou completamente, deixando-a falando sozinha.

Sabia que não podia contar o assunto ao amigo, pois provavelmente isso poderia gerar novo acesso de ira e que talvez pudesse revidar contra Violeta. Teve medo.

Ao invés de seguir com ele para o Hospital Central, tomou rumo da Ponte Velha e seguiu para um bairro mais afastado. Odair não entendendo porque saiam do Centro, perguntou:

- Onde está me levando, não tenho tempo, me leve ao Hospital;

- Calma Odair, estou te levando a um lugar que sei que poderão te ajudar;

- Aonde?

- Lembra-se do Oreco, o feiticeiro?

- Acha que um feiticeiro pode resolver mais do que um médico?

- Confia em mim;

Como não lhe restava nenhuma outra alternativa, resolveu confiar no amigo até chegarem ao bairro e encontrarem a casa do tal feiticeiro.

Ao chegarem Oreco já entendeu que se tratava de algum serviço feito e o levou para o quartinho no fundo do quintal onde o trancou. Odair entrou em nova crise de raiva e dores, mas suportou.

Rafael contou tudo o que tinha ouvido de Odair e recebeu toda a orientação de Oreco, que voltou para casa para pedir ajuda a Margarida.

A única forma de ajudar era roubar o bonequinho que Violeta tinha no quarto para que fosse revertido o quadro.

Margarida com muito medo, consentiu em ajudar e fazer o que Rafael pedira, mas tinha medo de que sua prima se voltasse contra ela e pudesse lhe fazer algum mal em retribuição ao desmando.

Foi então orientada por Rafael, conforme Oreco, de que este risco não existiria, uma vez desmanchado o feitiço.

Naquela mesma noite Rafael levou `a encomenda`: o bonequinho cabeludo e barbudo cheio de agulhas, e o imã na caixinha de madeira. Oreco pegou tudo aquilo, embrulhou em um pano preto e sumiu para o fundo do quintal sem nada dizer.

Na manhã seguinte Odair não sentia mais dores e começava a recuperar aos poucos a normalidade de seu humor.

Na mesma manhã, Violeta fora encontrada completamente carbonizada, deitada em sua cama, sem nenhum sinal de fogo aparente.

Na localidade ficou conhecida como VIOLETA, A BRUXA QUEIMADA VIVA.

Um mistério que nunca mais, ninguém desvendou.


Vera Celms


Um comentário: