domingo, 13 de dezembro de 2009

MISTERIO DA LUA CHEIA


Parei o carro na rua debaixo, como sempre faço, aliás não podia arriscar tudo de uma só vez...

Foram tantos encontros... tantas historias que culminaram em perigos e sustos e medo... mas sempre com final satisfatório. Não sei o que deu de errado de repente... parece que foi a sorte que virou.

Também é no mínimo estranho, mexer com as forças do desconhecido e atribuir a sorte qualquer resultado.

Lembro-me, quando chegamos ao sitio pela primeira vez; chovia.

A estrada toda enlameada deixava o caminho muito mais arriscado do que em noites claras. Na estradinha, que precedia o caminho principal para o sitio, muito buraco, pavimentação precaríssima e curvas fechadas, era uma composição perfeita para o inusitado.

Naquela noite, logo depois da CURVA DO ESCONDIDO, um capacete no chão chamou a atenção. A fumaça ainda não dissipada completamente, indicava que alguém tinha passado por lá muito recentemente.

A cena seguinte, comprovou a pior constatação, um corpo caído no acostamento com um ferimento bem próximo ao nariz, proprio de tiro.

Sim, um corpo recém acidentado? Não, o capacete no chão indicava que aquele homem estava de moto e a fumaça não dissipada indicava que acabara de acontecer UM ASSASSINATO. Provável roubo da moto seguido de morte.

Inadmissível tal cena... mas, ocorrera e fomos nós que encontramos o cadáver. É inesquecível... e já faz tanto tempo...

Chamamos a policia pelo celular e seguimos viagem para o sitio, até com medo do que pudesse haver ainda, se permanecêssemos naquele lugar tão ermo, sete mulheres numa VAN.

Esse tempo todo, nada mais aconteceu, nada mais encontramos, e são anos de peregrinação...

Os encontros do nosso grupo ocorrem sempre na Lua Cheia... todos os meses, sempre no primeiro dia, tão logo ocorre a mudança.

Algumas vezes tivemos contra tempos, que nos atrasaram, mas nunca, NUNCA deixamos de ir..

.Há 7 anos, por essa época, foi o nascimento da filha da Roberta. Logo depois da meia noite ela começou a sentir as primeiras contrações e a mudança da Lua, ocorreria algumas horas depois. Retardamos nossa viagem e a Astride nasceu na primeira meia hora da Lua Cheia.

Linda menina de olhos e cabelos negros, pele alva e uma força indescritível que emana da sua presença, como um campo de força.

Faz sete aninhos agora, e nos pergunta sempre porque não podemos mais ir ao sitio.

Nunca soubemos exatamente o nos levou ao sitio tão fielmente por tantos anos... mas, o fato é que agora, nenhuma de nós queria mais voltar.

O medo tomou conta, foi assustador.

Ninguém consegue explicar com isenção ou naturalidade o que matou Verushka.

Aline diz que foi um raio que caiu sobre ela, mas como explicar um raio numa noite clara. Luar claro, maravilhoso, nenhuma nuvem no céu, nenhum sinal de chuva.

Otela disse que o raio saiu foi do chão... da terra. Raio vir do chão? Nunca ouvi isso, a não ser em explicações de Físicos, que fazem essa ou aquela afirmação, teses meio malucas, mas que os leigos nunca entendem.

Lídia descreveu umas visões estranhas, no momento em que acendemos a fogueira perto do rio. Contou que via um monte de gente dançando e rodando em volta da fogueira, todos vestidos com uma espécie de camisolão branco e fino e que aquilo a deixara tonta. Em seguida disse ter ouvido um barulho, como se uma tampa de concreto muito pesada fosse levantada por ali e quando ela acordou, todas nós estávamos no chão, adormecidas (ou desmaiadas) e Verushka não mais acordou.

Lembro-me de ter adormecido no local mesmo, mas não era a primeira vez que adormecíamos perto da fogueira. Ninguém mais do grupo se lembra de nenhuma visão do tipo.

Séfora era a mais assustada do grupo e conta que teve um sonho naquela noite e viu, durante o sonho, Verushka ser transpassada por uma lança de ferro que vinha do céu, na altura do peito... conta que a teria visto com os pés no chão e o corpo suspenso pela lança diagonalmente ao chão, mas que não via nenhum vestígio de sangue, mas seu rosto invisível ou desfigurado e não identificável.

Roberta era a mais incrédula do grupo, ficava brava com todas nós, mas não tinha nenhuma explicação para o que havia acontecido por lá... lembra-se de ter adormecido como de outras vezes e quando acordou nos encontrou tentando reanimar Verushka.

Eu sempre fui a mais ousada de todas. Lembro-me que sugeria jogos e brincadeiras. Perguntas a Lua, ao fogo, a água... sei lá, nunca me preocupei com essas coisas. Sempre achei que como as vezes conseguíamos respostas e as vezes não, era só uma questão de sorte, nada mais. Me questiono até hoje o que fizemos antes de adormecer, ou será que desmaiamos?

Não consigo me lembrar. Lembro de ter levado para a beira do rio algumas essências, açúcar, canela, pólvora, peças de ferro, roupas coloridas e quando acordei não havia nada mais ali.

O mato em torno de nós parecia ter sido queimado por geada, meio amarelado, ressecado e no mais as coisas estavam com aparência de normalidade.

Se é que se pode chamar de normalidade o desaparecimento de tudo o que levamos, o mato queimado e uma de nós sem vida.

Astrite era a única que dormira no carro, pois Roberta achava mais seguro, que a criança dormisse num lugar mais protegido. Entretanto, Roberta era capaz de jurar que Astride tinha adormecido no carro dela naquela noite e questionava como ela dormia agora no meu carro, que estava do lado oposto do que chamávamos de “ acampamento “ ?

Realmente parecia misterioso, mas ela não teria se enganado? Não teria deixado a menina dormir no meu carro por ser maior? Eis uma outra dúvida que ninguém conseguiu explicar até hoje.

O que ninguém mais observara, além de mim e Lídia, é que Astride acordara com um camisolão branco, sobre a roupa com que viajara, semelhante ao que Lídia descrevera do seu sonho, e a única reação de Roberta (mãe de Astride) foi tirar-lhe a camisola pois a menina estava muito suada. Secou-lhe o rostinho e o colo com a camisola, jogou-a na grama ali mesmo e voltou a se preocupar com o ocorrido com Verushka.

Procurei naquele momento não levantar a questão, pois mais uma vez nada seria provado e ninguém parecia se lembrar de absolutamente nada antes do sono.

Lidia me chamara num lugar reservado com a camisola na mão, e foi guardar numa sacola que trazia e que estava no meu carro, já que havia vindo comigo.

No momento em que mexia na roupa, encontrou uma espécie de sombra azulada com pontos dourados na frente da camisola. Quando abriu a peça por sobre o capô do carro, observamos que a sombra formava a palavra VALORES.

Será que poderia haver alguma relação com o assassinado da estrada da nossa primeira viagem ao sitio? Afinal, ele teve possivelmente a moto roubada, era um valor, um bem.

Passei a evitar todo o grupo e comecei a pesquisar sobre o assunto. Mas quanto mais procurava, parecia que mais as informações se escondiam, nada se explicava. Lembro-me que algumas pessoas para quem perguntei, conjecturavam sobre varias hipóteses, mas nada aceitável ou que ajudasse a esclarecer alguma coisa.

Alguém me perguntou sobre pentagramas, outras me perguntavam sobre animais, sobre o que fazíamos, se estávamos descalças... enfim, passei a evitar até mesmo aparecer nas redondezas da vila onde as demais meninas moravam.

Parei o carro na rua debaixo, como sempre faço, aliás não podia arriscar tudo de uma só vez, e fui procurar Lucius que era conhecido como bruxo, ou adivinho, ou feiticeiro... enfim, eram grandes os mistérios que cercavam aquele homem.

Afinal, contei a ele tudo o que as meninas disseram sobre aquela noite, nas varias visitas que fiz a ele.

Eu mesmo não me lembrava de nada, a não ser de acordar naquela cena tenebrosa. Não me lembro o que fizemos antes de adormecer, nem como as coisas sumiram de lá, ou o que teria acontecido com a grama. Não imagino como Astride adormeceu, segundo sua mãe, num carro e acordara em outro ou como aquela camisola com a inscrição VALORES estava na menina quando acordou.

Lucius me explicou, que devemos ter evocado algum tipo de força, ou provocado algum tipo de reação ou sentimento em algum tipo de entidade, ou seja lá como chamam. Que cada uma de nós pode ter visto ou percebido a cena de um jeito diferente e nenhum deixar de ser verdadeiro.

Segundo ele, aquela reunião de pessoas do sonho de Lídia, pode ter sido o mais próximo da realidade, e visto somente por ela... Otela pode ter visto o desfecho daquela cena, da forma como viu Verushka transpassada pela lança de ferro suspensa do chão.

Na verdade, tudo pode ter passado pela menina ou ter sido ela mesmo o instrumento de tal acontecimento. Como todas dormíamos, tudo ficou confuso e sem explicação. A mãe pode ter entendido como brincadeira da menina em vestir a camisola ou até mesmo da menina ter sentido frio e encontrado aquela peça no meu carro para se agasalhar.

O que ninguém sabia, a não ser eu mesmo, é que não havia levado nenhuma roupa branca. Sempre gostei de levar roupas coloridas, pois em torno da fogueira, achava mais bonito aquele show de cores. As roupas brancas achava, além de tudo, representativas demais para leigas como nós.

Questionei Lucius então sobre a inscrição na camisola, pois imaginei que ali estivesse ou a resposta ou uma pista para o que teria ocorrido.

Me pediu então, que escrevesse num papel o nome de todas do grupo, começando pela pessoa que morreu.

Peguei um papel e escrevi, de forma desordenada, mas após arrumados os nomes, de varias formas, chegamos a uma conclusão:

Verushka

Aline

Lídia

Otela

Roberta

Elisa

Séfora

Então Elisa, disse Lucius, a menina era a única que não fazia parte do grupo, talvez por isso tenha sido o instrumento de tudo e a Verushka era a primeira letra da palavra inscrita na roupa.

Foi então que lhe contei sobre o nascimento de Astride na primeira meia hora da Lua Cheia, a exatos 7 anos antes, do dia do ocorrido.

Nunca mais reencontrei ninguém do grupo, e o sitio do meu avô está abandonado desde então.

Vera Celms

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