domingo, 20 de dezembro de 2009

LEMBRANÇA DE UM NATAL


Nem todas as festas tem o mesmo sabor para todas as pessoas.

Alias, para algumas pessoas, qualquer festa pode ter sabor de desventura, dependendo do momento que se vive.

Jofre é uma dessas pessoas sem motivo nenhum a comemorar.

Morador de rua há tanto tempo quanto sabe contar. Lembra-se ternamente das festas de quando era criança, mas de forma já tão fraca, praticamente remota. De quando tinha pai e mãe, irmãos, família, amigos, presentes e motivos de sobra para ser feliz.

O ultimo Natal do qual se lembra é com tristeza e faz tanto tempo que não se lembra em que ano foi... sabe ser muito, mas muito tempo atrás.

Jofre viajava com sua madrinha como há muito tempo sonhava. No mesmo carro estava seu padrinho e a mãe dela, além de Jofre.

No carro detrás estavam outros parentes dela, mais uma afilhada, e no terceiro carro, estavam os pais e os três irmãos de Jofre.

Tinham viajado no dia 21 e foram para o Litoral do Rio de Janeiro. Passaram até dia 23, aniversário de seu pai na Barra de São João e de lá resolveram subir pelo litoral até o Espirito Santo.

Em alguns municípios entravam, outros tangenciavam pela praia... parando de acordo com a paisagem, necessidade ou desejo dos integrantes do grupo.

Fazia um calor intenso, mas para viagem de férias estava excelente, pelo menos pra Jofre que ainda era criança.

Jofre não sabe qual era a cidade, mas lembra-se que cantava dentro do carro, acompanhando sua madrinha que cantarolava junto com o rádio ligado.

Quando de repente foi flagrado por um grito de seu padrinho que gritou:

- SE SEGUREM !!!

Seguido de um solavanco enorme e um estrondo. Quando se deu conta, o carro em que estava fora colhido na traseira por um trem que parecia desgovernado e assim continuou.

Lembra-se de ter se assustado grandemente.

Janio, o padrinho de Jofre, parou o carro mais a frente, para se refazer do susto e para avaliar os estragos do carro.

Quando a porta do carro se abriu, todos saíram rapidamente, como quem sai do inferno e qual não foi o golpe maior?

Os dois carros que estavam junto na viagem; os parentes e afilhada da madrinha de Jofre e a sua família, faziam parte do mesmo cenário; Uma imensa e inestimável massa de sangue e ferragem enfumaçada na linha do trem, e o mais profundo e mórbido silêncio, já cercava o local.

Sim, a família toda de Jofre e todos os demais, estavam mortos na linha do trem. Ninguém soube explicar o que, ou como acontecera aquela catástrofe tenebrosa.

Dna.Isaura que estava conosco no carro, caiu desmaiada pelo choque da cena que vira.

Todos estáticos, todos sem nenhuma reação diante daquela cena tão inexplicavelmente aterradora...

O padrinho correu ao encontro de Dna.Isaura, enquanto a madrinha se preocupava em segurar Jofre, em completo estado de choque.

Frida, madrinha de Jofre, pegou o celular, ainda sem saber como reagir e ligou para a policia enquanto cuidava dele, que mais parecia naquele momento um boneco de cera.

Janio recolheu Dna.Isaura do chão, colocou no carro e tentou reanimá-la, mas se afastou logo depois dizendo que ela não respirava e não tinha mais batimentos cardíacos.

Foi só esperar a policia chegar, a ambulância veio junto e constatou que Dna.Isaura teve provável infarto e não resistira.

A policia chegou, tomou conta da cena, isolou tudo, e recolheu a todos de lá para o pronto socorro mais proximo.

Os dias que se seguiram foram cercados de muito médico, policia, remédios e todos foram sedados por alguns dias para se refazerem do ocorrido.

Quando Jofre acordou, não viu ninguém conhecido. Sua madrinha e padrinho, segundo os médicos, continuavam sedados ainda, e lhe foi questionado sobre a existência de outros parentes.

Jofre respondeu não ter nenhum outro parente, pois a família era pequena mesmo e todos que tinha estavam naquela catástrofe. Respondeu tantas perguntas, sobre os acidentados, mortos afinal.

De alguns, pouco sabia, que eram os parentes de sua madrinha e como criança, o pouco que sabia dos demais, se restringia a nome e idade de cada um, dos mais próximos.

Foi levado para uma clinica de repouso infantil e por um longo tempo não teve noticia de seus padrinhos.

Um dia foi avisado que seria transferido para um orfanato, pois não havia quem pudesse cuidar dele e não havia como mantê-lo numa clinica indistintamente.

Foi então que perguntou sobre seus padrinhos e lhe foi revelado que sua madrinha não havia se refeito ainda dos danos psiquiátricos, talvez em função do choque que sofrera.

Quanto ao seu padrinho, informaram que ele não resistiu e depois de alguns dias falecera acometido por complicações cardíacas também.

Ou seja, Jofre saiu em viagem de férias acompanhado de 15 pessoas, entre adultos e crianças e não sobrara ninguém, além de sua madrinha com sério comprometimento mental. Todos a quem Jofre realmente amava, haviam morrido ou faltado de alguma forma.

Foi transferido então para o orfanato, de onde, depois de algum tempo fugiu, por não agüentar os maus tratos. Como não conhecia ninguém, foi andando, andando, andando, e com 10 anos de idade, já era um morador de rua, já em São Paulo.

Veio como clandestino num caminhão de carga, que encontrou num posto de gasolina e acabou parando em S.Paulo. Foi se reunindo a outros menores, até que chegou a Praça da Sé, marco zero da cidade.

Vive em grupos, sem nenhum tipo de vinculo, nem amizade, nem amor... um andarilho, maltrapilho, sujo e sozinho como tantos outros...

Quando pensa em seu ultimo Natal, chora, sente raiva do mundo, sente raiva de Deus que permitiu que toda sua família fosse morta e que ele ficasse sozinho...

É hoje um adolescente, drogado, magro, introvertidamente fechado e cheio de ódio no coração.

Não permite que ninguém se aproxime dele, e quando alguém se aproxima ele acaba “ espantando” com sua falta de modos e educação.

Rouba, come o que lhe dão, se lhe dão algo, senão, aproveita as oportunidades para conseguir algum alimento, roupas, dinheiro, drogas, enfim.

A única coisa que consegue ganhar, é na época do Natal, quando as ONGs E ASSOCIAÇÕES de caridade, levam roupas, as vezes alguns brinquedos e livros, algum alimento além do “sopão nosso de cada dia” e do pão dormido.

Jofre nem usa mais seu nome, é chamado de Jojô, e provavelmente nem deva se lembrar muito de seu próprio nome de família.

Uma pessoa com um passado remoto, sombrio, amargurada, com poucos motivos para se alegrar. Como esperar que uma pessoa assim possa comemorar alguma coisa?

Como esperar que Jofre possa lembrar de Deus? A não ser pra pedir proteção a sua própria integridade física?

Para quem tem algum motivo para comemorar, regozige-se e FELIZ NATAL... seja feliz com o que é e não lamente por aquilo que não tem... algumas pessoas não tem nada, nem ninguém.


Vera Celms


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