quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010

FELIZ 2010 A TODOS

CHEIO DE REALIDADES,
ARREPIANTES E EMOCIONANTES...

A CADA MOMENTO, DE CADA DIA,

DE TODOS OS MESES DO ANO TODO...

BEIJOS E OBRIGADO PELO PRESTIGIO
E PELA COMPANIA. VEM COMIGO EM
2010 TAMBÉM...

domingo, 27 de dezembro de 2009

VIOLETA



Estava há dias, ou semanas, sentado no chão frio do banheiro.

Nú, completamente encolhido, com medo de sair e sentir as mesmas dores de antes.

Era como se tivesse agulhas implantadas pelo corpo, que toda vez que saia do banheiro, pareciam sofrer a ação de um imã gigante, que fazia com que elas andassem por sob sua pele.

As dores eram tão lancinantes, tão enlouquecedoras, que nem a roupa lhe caia mais sobre o corpo naturalmente.

Não sabia o que estava acontecendo, nem pretendia descobrir. Queria somente se livrar daquele suplicio.

Odair não se lembrava mais há quanto tempo tinha saído de casa, ou sequer do banheiro.

Seu corpo congelava durante a noite, no frio da madrugada e durante o dia, amortecido pelo frio da noite, dormia, acordando de tempos em tempos, com a sensação de que algumas daquelas agulhas tinham se deslocado do lugar.

Seu sono era intranqüilo, tinha pesadelos, sobressaltos, sustos monstruosos.

Quando se aproximava do espelho, tinha a impressão de poder ver as pontas das agulhas por sob a pele, marcando seu corpo todo e o rosto também. A primeira vista era como se espinhas inflamadas lhe nascessem pelo corpo todo.

Não podia tocar nas marcas, pois a sensibilidade era realmente algo de ferroar a pele.

Parecia um castigo, uma mandinga, uma bruxaria. Não podia saber e nem explicar, mas sentia o tempo todo, um ódio tão cruel e não sabia porque, nem por quem, nem por o que. Era um sentimento de raiva, de repulsa, de dilaceração.

Tinha a certeza de ter sido abandonado por todas as entidades do bem.

Seus olhos agora, pareciam olhos de uma pessoa demente. Eram arregalados, pupilas grandes, dilatadas e constantemente vermelhos, como se tivesse sangue nos globos oculares.

Sua pele agora tomara um tom avermelhado com marcas de sangue, e alguns hematomas espalhados pelo corpo.

No principio mantinha contato com alguns amigos, pelo computador, ou pelo telefone. Aos poucos sentia que os contatos eram cada vez mais difíceis.

Com o tempo, o telefone arrancou da parede com a instalação toda, num dos acessos de raiva, e o computador ainda estava funcionando precariamente, e sabia ele, com os dias contados.

Ninguém mais o procurava há meses. Estava sem dúvida se transformando num ser estranho e recluso.

Impossível não ser procurado por mais ninguém. Ninguém lhe batia a porta, e nem pelo computador recebia mais noticias ou mensagens de quem quer que fosse, perguntando sobre seu sumiço nas rodas de amigos. Também, não deve ser fácil ser amigo de alguém tão mau humorado assim, pensou de si per si.

A sensação que tinha era de que ele nunca houvera existido, como se tivesse sido um sonho que acabou, ou um pesadelo do qual jamais conseguira acordar.

Um bicho do mato, ou das trevas; era assim que se via ultimamente.

Talvez fosse melhor mesmo que ninguém o procurasse, pois explicar qualquer coisa já lhe parecia impossível.

Seu auto controle já estava na beira do precipício há muito tempo, e concatenar as idéias cada vez menos possível.

Tinha surtos de ira intensa a maior parte do tempo, e as lembranças pareciam agora um emaranhado de fios descascados presos numa teia de aranha metálica.

Odair não sabia mais quanto tempo aquilo tudo ia durar, ou quanto tempo iria agüentar aquela situação limítrofe.

Precisava sair de lá, talvez se saísse pudesse ter uma chance de tratamento, ou de cura espontânea. Mas, como sair com tantas dores?

Cruzar a porta do banheiro tinha se tornado naturalmente uma missão completamente impossível. Foi então que teve uma idéia, que, na verdade, duvidava ser viável, mas era a única forma de sair daquele casulo ao qual se recolhera.

Nos poucos momentos de calma que tinha, começou a estudar uma forma de arrombar a janela, que era do tipo que se abria como uma porta, e com o peso que devia ter perdido, pois há tempos não conseguia se alimentar, achava ser possível com um pouco de esforço, ultrapassar aquela barreira.

O mais perigoso talvez fosse chegar ao chão, pois estava no segundo andar do prédio.

Aos poucos foi forçando a dobradiça, até que pouco tempo depois conseguiu romper uma das três, seguido de mais um acesso de raiva incontrolável.

Mais um tempo demandaria, depois daquele acesso, pois não sabe se em função da falta de alimentação e da força que exercera para romper aquela dobradiça, sentia suas mãos tremerem, tirando-lhe a capacidade parcialmente.

Com o tempo, calculando provável uma semana, conseguiu romper as três dobradiças, subiu no beiral e completamente nu, saltou em direção à garagem do prédio, a noite.

Tinha medo de ser surpreendido, pois se sentisse medo ou se assustasse com alguma coisa, poderia ter outro daqueles acessos de dor e raiva e acabar fazendo mal para alguém. Esta consciência ainda conseguia manter.

No momento em que pulou, sentiu-se como um animal, e caiu em pé, de forma suave e macia, tocando o solo e rapidamente se esgueirando na direção do muro, que saltar não lhe fora nenhum sacrifício.

No momento em que alcançou a rua, tentou lembrar de alguém que gostasse dele o suficiente para poder ajudá-lo naquele momento tão difícil.

Lembrou de Violeta, sua ex namorada. Entretanto, lembrou da briga que teve com ela dias antes de começar a sentir as dores, por intransigência sua mesmo, e já não teve a mesma certeza de ser ela a pessoa mais indicada.

Lembrou de Rafael, seu amigo de infância; por um momento lhe pareceu a decisão mais sábia a tomar.

Tomou rumo da casa de Rafael e o encontrou diante de sua casa, dentro do carro com sua namorada.

Chegou perto do carro, com o intuito de que somente Rafael o visse. No entanto, quando se aproximava do carro, viu sua imagem no reflexo do vidro traseiro e se assustou com o que vira.

Sentiu-se algo parecido com um lobisomem, barbudo, cabeludo, desarrumado, com olhos transtornados, arregalados e inchados, mas não tinha outra alternativa a não ser tentar contato visual com Rafael.

Aproximou-se mansamente do vidro ao lado do passageiro, onde estava Margarida, de costas. Quando Rafael o viu, tomou um susto enorme e a primeira reação, foi abraçar Margarida, tentando encontrar a chave do carro para poder arrancar dali.

Odair conseguiu fazer um movimento com as mãos, muito comum entre os dois quando se cumprimentavam na rua, o que deixou Rafael sobressaltado, mas atento.

Com muita dificuldade, Odair conseguiu pronunciar o nome do amigo, que reconheceu sua voz, associada ao gesto feito no cumprimento.

Margarida de imediato saltou para o banco detrás do carro, se protegendo ao máximo. Rafael por sua vez, se arriscou a pronunciar o nome do amigo, que respondeu prontamente:

- Sou eu Rafael, Odair, me ajude...

- Odair? Que aconteceu contigo? Como está horroroso, que houve?

- Não sei exatamente, sei que preciso de ajuda, me leve a um medico.

Prontamente, Rafael saltou do carro, e tirando Margarida do banco detrás, mandou que entrasse correndo pra dentro de sua casa, enquanto Odair se sentava no carro. Em poucos instantes rumavam para o Hospital Central.

No caminho, Rafael tentava questionar de Odair, os fatos que pudessem explicar de alguma forma aquela situação, quando este, repentinamente teve mais um acesso de dores pelo corpo, seguido de ira.

Rafael parou o carro, saltou e trancou a porta por fora e ficou olhando até que percebeu diminuir de intensidade e voltou a se aproximar mais uma vez.

Odair começou a contar rapidamente a questão da impressão de agulhas pelo corpo e sobre as dores, e os acessos de raiva, e as pontas pelo corpo. Contou que não se lembrava há quantos dias não comia nada, só tomava água.

Aos poucos, Rafael começou a associar o quadro de Odair com algo que ouvira de Margarida, sobre sua prima Violeta – ex namorada de Odair.

Margarida outro dia lhe contara, verdadeiramente revoltada, que sua prima tinha procurado uma feiticeira, ou bruxa, sei lá como se chamava, para tratar de MAGIA NEGRA, VUDÚ e esse tipo de coisas. Contou que não gostava desse assunto e que isso a apavorava demais. Que aconselhou sua prima a não fazer isso e após brigarem, Violeta disse que não faria nada, mas desapareceu por horas e não mais voltou a tocar no assunto.

Que 3 dias depois, tinha voltado ao quarto de sua prima e vira um bonequinho de pano, todo perfurado de agulhas, onde só as pontas apareciam no bonequinho e bem próximo, um imã que ela mantinha dentro de uma caixinha de madeira.

Disse não entender o contexto, mas que não gostara do que havia visto e quando questionou o assunto da prima, essa desconversou completamente, deixando-a falando sozinha.

Sabia que não podia contar o assunto ao amigo, pois provavelmente isso poderia gerar novo acesso de ira e que talvez pudesse revidar contra Violeta. Teve medo.

Ao invés de seguir com ele para o Hospital Central, tomou rumo da Ponte Velha e seguiu para um bairro mais afastado. Odair não entendendo porque saiam do Centro, perguntou:

- Onde está me levando, não tenho tempo, me leve ao Hospital;

- Calma Odair, estou te levando a um lugar que sei que poderão te ajudar;

- Aonde?

- Lembra-se do Oreco, o feiticeiro?

- Acha que um feiticeiro pode resolver mais do que um médico?

- Confia em mim;

Como não lhe restava nenhuma outra alternativa, resolveu confiar no amigo até chegarem ao bairro e encontrarem a casa do tal feiticeiro.

Ao chegarem Oreco já entendeu que se tratava de algum serviço feito e o levou para o quartinho no fundo do quintal onde o trancou. Odair entrou em nova crise de raiva e dores, mas suportou.

Rafael contou tudo o que tinha ouvido de Odair e recebeu toda a orientação de Oreco, que voltou para casa para pedir ajuda a Margarida.

A única forma de ajudar era roubar o bonequinho que Violeta tinha no quarto para que fosse revertido o quadro.

Margarida com muito medo, consentiu em ajudar e fazer o que Rafael pedira, mas tinha medo de que sua prima se voltasse contra ela e pudesse lhe fazer algum mal em retribuição ao desmando.

Foi então orientada por Rafael, conforme Oreco, de que este risco não existiria, uma vez desmanchado o feitiço.

Naquela mesma noite Rafael levou `a encomenda`: o bonequinho cabeludo e barbudo cheio de agulhas, e o imã na caixinha de madeira. Oreco pegou tudo aquilo, embrulhou em um pano preto e sumiu para o fundo do quintal sem nada dizer.

Na manhã seguinte Odair não sentia mais dores e começava a recuperar aos poucos a normalidade de seu humor.

Na mesma manhã, Violeta fora encontrada completamente carbonizada, deitada em sua cama, sem nenhum sinal de fogo aparente.

Na localidade ficou conhecida como VIOLETA, A BRUXA QUEIMADA VIVA.

Um mistério que nunca mais, ninguém desvendou.


Vera Celms


CONTOS DE TERROR - INTRO

domingo, 20 de dezembro de 2009

LEMBRANÇA DE UM NATAL


Nem todas as festas tem o mesmo sabor para todas as pessoas.

Alias, para algumas pessoas, qualquer festa pode ter sabor de desventura, dependendo do momento que se vive.

Jofre é uma dessas pessoas sem motivo nenhum a comemorar.

Morador de rua há tanto tempo quanto sabe contar. Lembra-se ternamente das festas de quando era criança, mas de forma já tão fraca, praticamente remota. De quando tinha pai e mãe, irmãos, família, amigos, presentes e motivos de sobra para ser feliz.

O ultimo Natal do qual se lembra é com tristeza e faz tanto tempo que não se lembra em que ano foi... sabe ser muito, mas muito tempo atrás.

Jofre viajava com sua madrinha como há muito tempo sonhava. No mesmo carro estava seu padrinho e a mãe dela, além de Jofre.

No carro detrás estavam outros parentes dela, mais uma afilhada, e no terceiro carro, estavam os pais e os três irmãos de Jofre.

Tinham viajado no dia 21 e foram para o Litoral do Rio de Janeiro. Passaram até dia 23, aniversário de seu pai na Barra de São João e de lá resolveram subir pelo litoral até o Espirito Santo.

Em alguns municípios entravam, outros tangenciavam pela praia... parando de acordo com a paisagem, necessidade ou desejo dos integrantes do grupo.

Fazia um calor intenso, mas para viagem de férias estava excelente, pelo menos pra Jofre que ainda era criança.

Jofre não sabe qual era a cidade, mas lembra-se que cantava dentro do carro, acompanhando sua madrinha que cantarolava junto com o rádio ligado.

Quando de repente foi flagrado por um grito de seu padrinho que gritou:

- SE SEGUREM !!!

Seguido de um solavanco enorme e um estrondo. Quando se deu conta, o carro em que estava fora colhido na traseira por um trem que parecia desgovernado e assim continuou.

Lembra-se de ter se assustado grandemente.

Janio, o padrinho de Jofre, parou o carro mais a frente, para se refazer do susto e para avaliar os estragos do carro.

Quando a porta do carro se abriu, todos saíram rapidamente, como quem sai do inferno e qual não foi o golpe maior?

Os dois carros que estavam junto na viagem; os parentes e afilhada da madrinha de Jofre e a sua família, faziam parte do mesmo cenário; Uma imensa e inestimável massa de sangue e ferragem enfumaçada na linha do trem, e o mais profundo e mórbido silêncio, já cercava o local.

Sim, a família toda de Jofre e todos os demais, estavam mortos na linha do trem. Ninguém soube explicar o que, ou como acontecera aquela catástrofe tenebrosa.

Dna.Isaura que estava conosco no carro, caiu desmaiada pelo choque da cena que vira.

Todos estáticos, todos sem nenhuma reação diante daquela cena tão inexplicavelmente aterradora...

O padrinho correu ao encontro de Dna.Isaura, enquanto a madrinha se preocupava em segurar Jofre, em completo estado de choque.

Frida, madrinha de Jofre, pegou o celular, ainda sem saber como reagir e ligou para a policia enquanto cuidava dele, que mais parecia naquele momento um boneco de cera.

Janio recolheu Dna.Isaura do chão, colocou no carro e tentou reanimá-la, mas se afastou logo depois dizendo que ela não respirava e não tinha mais batimentos cardíacos.

Foi só esperar a policia chegar, a ambulância veio junto e constatou que Dna.Isaura teve provável infarto e não resistira.

A policia chegou, tomou conta da cena, isolou tudo, e recolheu a todos de lá para o pronto socorro mais proximo.

Os dias que se seguiram foram cercados de muito médico, policia, remédios e todos foram sedados por alguns dias para se refazerem do ocorrido.

Quando Jofre acordou, não viu ninguém conhecido. Sua madrinha e padrinho, segundo os médicos, continuavam sedados ainda, e lhe foi questionado sobre a existência de outros parentes.

Jofre respondeu não ter nenhum outro parente, pois a família era pequena mesmo e todos que tinha estavam naquela catástrofe. Respondeu tantas perguntas, sobre os acidentados, mortos afinal.

De alguns, pouco sabia, que eram os parentes de sua madrinha e como criança, o pouco que sabia dos demais, se restringia a nome e idade de cada um, dos mais próximos.

Foi levado para uma clinica de repouso infantil e por um longo tempo não teve noticia de seus padrinhos.

Um dia foi avisado que seria transferido para um orfanato, pois não havia quem pudesse cuidar dele e não havia como mantê-lo numa clinica indistintamente.

Foi então que perguntou sobre seus padrinhos e lhe foi revelado que sua madrinha não havia se refeito ainda dos danos psiquiátricos, talvez em função do choque que sofrera.

Quanto ao seu padrinho, informaram que ele não resistiu e depois de alguns dias falecera acometido por complicações cardíacas também.

Ou seja, Jofre saiu em viagem de férias acompanhado de 15 pessoas, entre adultos e crianças e não sobrara ninguém, além de sua madrinha com sério comprometimento mental. Todos a quem Jofre realmente amava, haviam morrido ou faltado de alguma forma.

Foi transferido então para o orfanato, de onde, depois de algum tempo fugiu, por não agüentar os maus tratos. Como não conhecia ninguém, foi andando, andando, andando, e com 10 anos de idade, já era um morador de rua, já em São Paulo.

Veio como clandestino num caminhão de carga, que encontrou num posto de gasolina e acabou parando em S.Paulo. Foi se reunindo a outros menores, até que chegou a Praça da Sé, marco zero da cidade.

Vive em grupos, sem nenhum tipo de vinculo, nem amizade, nem amor... um andarilho, maltrapilho, sujo e sozinho como tantos outros...

Quando pensa em seu ultimo Natal, chora, sente raiva do mundo, sente raiva de Deus que permitiu que toda sua família fosse morta e que ele ficasse sozinho...

É hoje um adolescente, drogado, magro, introvertidamente fechado e cheio de ódio no coração.

Não permite que ninguém se aproxime dele, e quando alguém se aproxima ele acaba “ espantando” com sua falta de modos e educação.

Rouba, come o que lhe dão, se lhe dão algo, senão, aproveita as oportunidades para conseguir algum alimento, roupas, dinheiro, drogas, enfim.

A única coisa que consegue ganhar, é na época do Natal, quando as ONGs E ASSOCIAÇÕES de caridade, levam roupas, as vezes alguns brinquedos e livros, algum alimento além do “sopão nosso de cada dia” e do pão dormido.

Jofre nem usa mais seu nome, é chamado de Jojô, e provavelmente nem deva se lembrar muito de seu próprio nome de família.

Uma pessoa com um passado remoto, sombrio, amargurada, com poucos motivos para se alegrar. Como esperar que uma pessoa assim possa comemorar alguma coisa?

Como esperar que Jofre possa lembrar de Deus? A não ser pra pedir proteção a sua própria integridade física?

Para quem tem algum motivo para comemorar, regozige-se e FELIZ NATAL... seja feliz com o que é e não lamente por aquilo que não tem... algumas pessoas não tem nada, nem ninguém.


Vera Celms


domingo, 13 de dezembro de 2009

MISTERIO DA LUA CHEIA


Parei o carro na rua debaixo, como sempre faço, aliás não podia arriscar tudo de uma só vez...

Foram tantos encontros... tantas historias que culminaram em perigos e sustos e medo... mas sempre com final satisfatório. Não sei o que deu de errado de repente... parece que foi a sorte que virou.

Também é no mínimo estranho, mexer com as forças do desconhecido e atribuir a sorte qualquer resultado.

Lembro-me, quando chegamos ao sitio pela primeira vez; chovia.

A estrada toda enlameada deixava o caminho muito mais arriscado do que em noites claras. Na estradinha, que precedia o caminho principal para o sitio, muito buraco, pavimentação precaríssima e curvas fechadas, era uma composição perfeita para o inusitado.

Naquela noite, logo depois da CURVA DO ESCONDIDO, um capacete no chão chamou a atenção. A fumaça ainda não dissipada completamente, indicava que alguém tinha passado por lá muito recentemente.

A cena seguinte, comprovou a pior constatação, um corpo caído no acostamento com um ferimento bem próximo ao nariz, proprio de tiro.

Sim, um corpo recém acidentado? Não, o capacete no chão indicava que aquele homem estava de moto e a fumaça não dissipada indicava que acabara de acontecer UM ASSASSINATO. Provável roubo da moto seguido de morte.

Inadmissível tal cena... mas, ocorrera e fomos nós que encontramos o cadáver. É inesquecível... e já faz tanto tempo...

Chamamos a policia pelo celular e seguimos viagem para o sitio, até com medo do que pudesse haver ainda, se permanecêssemos naquele lugar tão ermo, sete mulheres numa VAN.

Esse tempo todo, nada mais aconteceu, nada mais encontramos, e são anos de peregrinação...

Os encontros do nosso grupo ocorrem sempre na Lua Cheia... todos os meses, sempre no primeiro dia, tão logo ocorre a mudança.

Algumas vezes tivemos contra tempos, que nos atrasaram, mas nunca, NUNCA deixamos de ir..

.Há 7 anos, por essa época, foi o nascimento da filha da Roberta. Logo depois da meia noite ela começou a sentir as primeiras contrações e a mudança da Lua, ocorreria algumas horas depois. Retardamos nossa viagem e a Astride nasceu na primeira meia hora da Lua Cheia.

Linda menina de olhos e cabelos negros, pele alva e uma força indescritível que emana da sua presença, como um campo de força.

Faz sete aninhos agora, e nos pergunta sempre porque não podemos mais ir ao sitio.

Nunca soubemos exatamente o nos levou ao sitio tão fielmente por tantos anos... mas, o fato é que agora, nenhuma de nós queria mais voltar.

O medo tomou conta, foi assustador.

Ninguém consegue explicar com isenção ou naturalidade o que matou Verushka.

Aline diz que foi um raio que caiu sobre ela, mas como explicar um raio numa noite clara. Luar claro, maravilhoso, nenhuma nuvem no céu, nenhum sinal de chuva.

Otela disse que o raio saiu foi do chão... da terra. Raio vir do chão? Nunca ouvi isso, a não ser em explicações de Físicos, que fazem essa ou aquela afirmação, teses meio malucas, mas que os leigos nunca entendem.

Lídia descreveu umas visões estranhas, no momento em que acendemos a fogueira perto do rio. Contou que via um monte de gente dançando e rodando em volta da fogueira, todos vestidos com uma espécie de camisolão branco e fino e que aquilo a deixara tonta. Em seguida disse ter ouvido um barulho, como se uma tampa de concreto muito pesada fosse levantada por ali e quando ela acordou, todas nós estávamos no chão, adormecidas (ou desmaiadas) e Verushka não mais acordou.

Lembro-me de ter adormecido no local mesmo, mas não era a primeira vez que adormecíamos perto da fogueira. Ninguém mais do grupo se lembra de nenhuma visão do tipo.

Séfora era a mais assustada do grupo e conta que teve um sonho naquela noite e viu, durante o sonho, Verushka ser transpassada por uma lança de ferro que vinha do céu, na altura do peito... conta que a teria visto com os pés no chão e o corpo suspenso pela lança diagonalmente ao chão, mas que não via nenhum vestígio de sangue, mas seu rosto invisível ou desfigurado e não identificável.

Roberta era a mais incrédula do grupo, ficava brava com todas nós, mas não tinha nenhuma explicação para o que havia acontecido por lá... lembra-se de ter adormecido como de outras vezes e quando acordou nos encontrou tentando reanimar Verushka.

Eu sempre fui a mais ousada de todas. Lembro-me que sugeria jogos e brincadeiras. Perguntas a Lua, ao fogo, a água... sei lá, nunca me preocupei com essas coisas. Sempre achei que como as vezes conseguíamos respostas e as vezes não, era só uma questão de sorte, nada mais. Me questiono até hoje o que fizemos antes de adormecer, ou será que desmaiamos?

Não consigo me lembrar. Lembro de ter levado para a beira do rio algumas essências, açúcar, canela, pólvora, peças de ferro, roupas coloridas e quando acordei não havia nada mais ali.

O mato em torno de nós parecia ter sido queimado por geada, meio amarelado, ressecado e no mais as coisas estavam com aparência de normalidade.

Se é que se pode chamar de normalidade o desaparecimento de tudo o que levamos, o mato queimado e uma de nós sem vida.

Astrite era a única que dormira no carro, pois Roberta achava mais seguro, que a criança dormisse num lugar mais protegido. Entretanto, Roberta era capaz de jurar que Astride tinha adormecido no carro dela naquela noite e questionava como ela dormia agora no meu carro, que estava do lado oposto do que chamávamos de “ acampamento “ ?

Realmente parecia misterioso, mas ela não teria se enganado? Não teria deixado a menina dormir no meu carro por ser maior? Eis uma outra dúvida que ninguém conseguiu explicar até hoje.

O que ninguém mais observara, além de mim e Lídia, é que Astride acordara com um camisolão branco, sobre a roupa com que viajara, semelhante ao que Lídia descrevera do seu sonho, e a única reação de Roberta (mãe de Astride) foi tirar-lhe a camisola pois a menina estava muito suada. Secou-lhe o rostinho e o colo com a camisola, jogou-a na grama ali mesmo e voltou a se preocupar com o ocorrido com Verushka.

Procurei naquele momento não levantar a questão, pois mais uma vez nada seria provado e ninguém parecia se lembrar de absolutamente nada antes do sono.

Lidia me chamara num lugar reservado com a camisola na mão, e foi guardar numa sacola que trazia e que estava no meu carro, já que havia vindo comigo.

No momento em que mexia na roupa, encontrou uma espécie de sombra azulada com pontos dourados na frente da camisola. Quando abriu a peça por sobre o capô do carro, observamos que a sombra formava a palavra VALORES.

Será que poderia haver alguma relação com o assassinado da estrada da nossa primeira viagem ao sitio? Afinal, ele teve possivelmente a moto roubada, era um valor, um bem.

Passei a evitar todo o grupo e comecei a pesquisar sobre o assunto. Mas quanto mais procurava, parecia que mais as informações se escondiam, nada se explicava. Lembro-me que algumas pessoas para quem perguntei, conjecturavam sobre varias hipóteses, mas nada aceitável ou que ajudasse a esclarecer alguma coisa.

Alguém me perguntou sobre pentagramas, outras me perguntavam sobre animais, sobre o que fazíamos, se estávamos descalças... enfim, passei a evitar até mesmo aparecer nas redondezas da vila onde as demais meninas moravam.

Parei o carro na rua debaixo, como sempre faço, aliás não podia arriscar tudo de uma só vez, e fui procurar Lucius que era conhecido como bruxo, ou adivinho, ou feiticeiro... enfim, eram grandes os mistérios que cercavam aquele homem.

Afinal, contei a ele tudo o que as meninas disseram sobre aquela noite, nas varias visitas que fiz a ele.

Eu mesmo não me lembrava de nada, a não ser de acordar naquela cena tenebrosa. Não me lembro o que fizemos antes de adormecer, nem como as coisas sumiram de lá, ou o que teria acontecido com a grama. Não imagino como Astride adormeceu, segundo sua mãe, num carro e acordara em outro ou como aquela camisola com a inscrição VALORES estava na menina quando acordou.

Lucius me explicou, que devemos ter evocado algum tipo de força, ou provocado algum tipo de reação ou sentimento em algum tipo de entidade, ou seja lá como chamam. Que cada uma de nós pode ter visto ou percebido a cena de um jeito diferente e nenhum deixar de ser verdadeiro.

Segundo ele, aquela reunião de pessoas do sonho de Lídia, pode ter sido o mais próximo da realidade, e visto somente por ela... Otela pode ter visto o desfecho daquela cena, da forma como viu Verushka transpassada pela lança de ferro suspensa do chão.

Na verdade, tudo pode ter passado pela menina ou ter sido ela mesmo o instrumento de tal acontecimento. Como todas dormíamos, tudo ficou confuso e sem explicação. A mãe pode ter entendido como brincadeira da menina em vestir a camisola ou até mesmo da menina ter sentido frio e encontrado aquela peça no meu carro para se agasalhar.

O que ninguém sabia, a não ser eu mesmo, é que não havia levado nenhuma roupa branca. Sempre gostei de levar roupas coloridas, pois em torno da fogueira, achava mais bonito aquele show de cores. As roupas brancas achava, além de tudo, representativas demais para leigas como nós.

Questionei Lucius então sobre a inscrição na camisola, pois imaginei que ali estivesse ou a resposta ou uma pista para o que teria ocorrido.

Me pediu então, que escrevesse num papel o nome de todas do grupo, começando pela pessoa que morreu.

Peguei um papel e escrevi, de forma desordenada, mas após arrumados os nomes, de varias formas, chegamos a uma conclusão:

Verushka

Aline

Lídia

Otela

Roberta

Elisa

Séfora

Então Elisa, disse Lucius, a menina era a única que não fazia parte do grupo, talvez por isso tenha sido o instrumento de tudo e a Verushka era a primeira letra da palavra inscrita na roupa.

Foi então que lhe contei sobre o nascimento de Astride na primeira meia hora da Lua Cheia, a exatos 7 anos antes, do dia do ocorrido.

Nunca mais reencontrei ninguém do grupo, e o sitio do meu avô está abandonado desde então.

Vera Celms